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A DPOC não afeta apenas fumadores nem idosos e pode iniciar-se muito antes dos primeiros sintomas. Um novo estudo da SPP quer revelar a verdadeira dimensão da doença em Portugal. O Prof. Doutor Jorge Ferreira, presidente da SPP, ajuda a explicar esta mudança de paradigma no diagnóstico da doença.
A Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC) é uma doença respiratória crónica, progressiva e incapacitante, caracterizada pela limitação persistente do fluxo de ar nos pulmões. Tradicionalmente associada ao tabagismo e ao envelhecimento, esta visão tem-se revelado incompleta e redutora face ao conhecimento científico atual.
Hoje sabe-se que a DPOC pode desenvolver-se ao longo da vida e começar muito antes da idade adulta avançada. Exposições prolongadas à poluição urbana, ao fumo passivo, assim como profissões com risco respiratório, infeções respiratórias na infância, condições socioeconómicas desfavoráveis, hábitos de vida pouco saudáveis e fatores genéticos podem comprometer o desenvolvimento e a função pulmonar desde idades precoces, mesmo em pessoas que nunca fumaram.
Esta evolução silenciosa faz com que a doença seja frequentemente diagnosticada tardiamente, quando a perda de função pulmonar já é significativa e irreversível.
Factos sobre a DPOC
Atualmente a DPOC é a 4.ª causa de morte no mundo e a 5.ª em Portugal. Mesmo assim, e segundo um estudo da Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP) realizado em 2022, mais de 70% da população portuguesa nunca ouviu falar da DPOC. Por outro lado, e apesar do impacto clínico, social e económico, Portugal nunca teve um estudo epidemiológico nacional dedicado à DPOC e às doenças respiratórias de forma abrangente. Esta é uma doença que é responsável por elevada morbilidade, absentismo laboral, redução da produtividade e perda significativa de qualidade de vida.
A ausência de dados epidemiológicos robustos em Portugal tem limitado a capacidade de:
- Conhecer a prevalência real da DPOC;
- Avaliar a gravidade da doença na população;
- Identificar grupos de risco subdiagnosticados;
- Planear políticas de saúde, prevenção e alocação de recursos de forma eficaz.
Estudo da SPP sobre a prevalência da DPOC em Portugal
O estudo, uma iniciativa da SPP com o apoio da GSK e de outras entidades, representa uma oportunidade de mapear o impacto real da DPOC em Portugal, com uma amostra alargada de 9.000 participantes, cobrindo todo o território continental.
Os resultados permitirão fundamentar estratégias nacionais de prevenção, diagnóstico precoce e tratamento, com benefícios diretos para a sustentabilidade do sistema de saúde e para a saúde pública.
Porquê incluir pessoas com menos de 40 anos?
A inclusão de adultos jovens (a partir dos 20 anos) constitui um dos aspetos mais inovadores deste estudo, colocando Portugal entre os primeiros países do mundo a adotar esta abordagem.
Esta decisão assenta em vários fatores-chave:
- A evidência científica atual demonstra que a função pulmonar máxima é atingida por volta dos 20-25 anos, podendo iniciar-se um declínio precoce se existirem fatores de risco;
- Muitos determinantes da DPOC atuam antes do aparecimento de sintomas, tornando invisível (silenciosa) a progressão da doença durante décadas;
- A investigação centrada apenas em idosos e fumadores atrasou o foco na prevenção e deteção precoce, perpetuando diagnósticos tardios;
- Ao estudar indivíduos jovens, é possível identificar:
- Fatores de risco ainda modificáveis;
- Padrões iniciais de alteração da função pulmonar;
- Oportunidades de intervenção precoce que podem travar ou atrasar o desenvolvimento da doença.
Incluir esta faixa etária é um sinal de mudança de paradigma: da reação para a prevenção, do tratamento tardio para a antecipação da doença.
"O tabaco continua a ser um fator de risco importante [para a DPOC], mas está longe de ser o único. Atualmente, reconhece-se o papel determinante da exposição crónica à poluição atmosférica, tanto urbana como doméstica, incluindo o uso de biomassa em ambientes fechados."
Estudo da SPP vai permitir definir políticas de prevenção da DPOC
O Prof. Doutor Jorge Ferreira, Presidente da SPP, ajuda a perceber as razões que motivam uma maior abrangência do estudo epidemiológico da SPP, assim como fatores que podem ser relevantes para o diagnóstico da doença. Afinal, a DPOC não afeta apenas os fumadores nem se manifesta apenas na população idosa.
JN: Porque é errado pensar que a DPOC afeta apenas fumadores ou pessoas idosas?
Essa ideia resulta de uma visão ultrapassada da DPOC. Hoje sabemos que a doença não surge de forma súbita na idade avançada nem é exclusiva do tabagismo. A DPOC é o resultado de um percurso de vida marcado por múltiplos fatores que interferem com o desenvolvimento e a manutenção da função pulmonar.
A função pulmonar constrói-se desde o período pré-natal, cresce durante a infância e adolescência e atinge o seu pico máximo por volta dos 20-25 anos. Se esse pico for inferior ao esperado - devido a infeções respiratórias na infância, exposição à poluição, fumo passivo, condições socioeconómicas desfavoráveis ou fatores genéticos - o risco de desenvolver DPOC aumenta significativamente, mesmo em pessoas que nunca fumaram. Além disso, existe um número não negligenciável de doentes com DPOC de início precoce, incluindo adultos jovens, o que reforça que esta doença não pode ser encarada apenas como uma consequência do envelhecimento ou do tabaco.

"Avaliar indivíduos jovens permite identificar se esse pico foi adequado ou se já existe um défice funcional precoce, que poderá evoluir silenciosamente durante décadas."
JN: Que sinais ou sintomas precoces podem passar despercebidos nos estágios iniciais da doença?
Nos estágios iniciais, a DPOC é frequentemente silenciosa. Os sintomas são subtis, progressivos e facilmente atribuídos ao sedentarismo, ao stress ou ao "cansaço normal do dia a dia". Uma ligeira falta de ar ao subir escadas, menor tolerância ao esforço físico, tosse ocasional ou infeções respiratórias mais frequentes são exemplos de sinais precoces que raramente motivam uma avaliação médica. Paralelamente, podem ocorrer alterações mensuráveis da função pulmonar que não se traduzem imediatamente em sintomas. Esta dissociação entre a progressão da doença e a perceção clínica contribui para diagnósticos tardios, quando a perda de função pulmonar já é significativa e irreversível.
JN: Além do tabaco, que outros fatores podem contribuir para o desenvolvimento da DPOC?
O tabaco continua a ser um fator de risco importante, mas está longe de ser o único. Atualmente, reconhece-se o papel determinante da exposição crónica à poluição atmosférica, tanto urbana como doméstica, incluindo o uso de biomassa em ambientes fechados. Profissões com exposição a poeiras, fumos químicos e agentes irritantes respiratórios, infeções respiratórias recorrentes na infância, baixo peso ao nascer, prematuridade, sedentarismo e condições socioeconómicas adversas são também fatores relevantes. A estes soma-se uma componente genética cada vez mais bem caracterizada, que pode condicionar uma maior vulnerabilidade pulmonar ao longo da vida, mesmo na ausência de exposições clássicas.
JN: Existe uma componente genética relevante na DPOC?
Sim, existe uma componente genética clara e clinicamente relevante na DPOC. O exemplo mais bem estabelecido é o défice de alfa-1 antitripsina, uma doença genética hereditária subdiagnosticada que pode causar DPOC de início precoce, frequentemente em idades jovens e, em muitos casos, em pessoas que nunca fumaram. A alfa-1 antitripsina é uma proteína produzida no fígado com um papel fundamental na proteção do tecido pulmonar contra processos inflamatórios. A sua deficiência leva a uma destruição progressiva do parênquima pulmonar, favorecendo o desenvolvimento de enfisema e DPOC.
Além deste défice, a investigação recente tem identificado outros determinantes genéticos que influenciam o crescimento pulmonar, a resposta inflamatória e a suscetibilidade aos fatores ambientais, reforçando a necessidade de uma abordagem mais personalizada no diagnóstico e acompanhamento da DPOC.
"Esperamos obter, pela primeira vez, uma estimativa robusta da prevalência real da DPOC em Portugal, incluindo a sua distribuição por idade, sexo e gravidade."
JN: Porque foi importante incluir pessoas a partir dos 20 anos neste estudo?
Porque esta é a fase da vida em que a função pulmonar atinge o seu valor máximo. Avaliar indivíduos jovens permite identificar se esse pico foi adequado ou se já existe um défice funcional precoce, que poderá evoluir silenciosamente durante décadas. Ao incluir adultos jovens, este estudo permite detetar trajetórias pulmonares anómalas antes do aparecimento da doença clínica, identificar fatores de risco ainda modificáveis e reconhecer grupos vulneráveis que tradicionalmente ficam fora da investigação. Esta abordagem coloca a prevenção no centro da estratégia, permitindo intervir antes que a DPOC se manifeste de forma irreversível.
JN: Que tipo de dados novos espera que este estudo venha a revelar sobre a população portuguesa?
Esperamos obter, pela primeira vez, uma estimativa robusta da prevalência real da DPOC em Portugal, incluindo a sua distribuição por idade, sexo e gravidade. O estudo permitirá ainda identificar uma proporção significativa de casos não diagnosticados, sobretudo em fases iniciais da doença. Adicionalmente, será possível caracterizar melhor os fatores de risco presentes na população portuguesa, incluindo determinantes ambientais, ocupacionais e genéticos, bem como padrões precoces de alteração da função pulmonar em adultos jovens.
Os dados recolhidos terão também relevância para outras doenças respiratórias, como a asma, contribuindo para uma visão integrada da saúde respiratória em Portugal.
JN: De que forma os resultados deste estudo podem mudar a abordagem à DPOC em Portugal?
Não é possível prevenir eficazmente aquilo que não se conhece. Este estudo fornece a base científica necessária para uma mudança estrutural na abordagem à DPOC em Portugal, passando do foco quase exclusivo no tratamento tardio para uma estratégia centrada na prevenção, diagnóstico precoce e intervenção antecipada.
Com dados sólidos, será possível definir políticas de saúde mais eficazes, direcionar recursos para os grupos de maior risco, promover estilos de vida saudáveis desde idades precoces e reforçar a vigilância clínica de populações vulneráveis, incluindo pessoas com predisposição genética. Ao intervir mais cedo, podemos atrasar significativamente a progressão da doença, reduzir a sua carga individual e social e melhorar de forma sustentada a qualidade de vida dos doentes.

