
Aos 86 anos, Sophia Loren é a estrela maior de "Uma Vida à Sua Frente". O filme é dirigido pelo seu filho, Edoardo Ponti, e está disponível na Netflix.
É uma bela homenagem de um filho à sua mãe. Edoardo Ponti, fruto do casamento de Sophia Loren com o produtor Carlo Ponti, resgata a grande diva do cinema italiano de um retiro de mais de dez anos e oferece-lhe mais um papel inesquecível - o da Madame Rosa de "Uma Vida à Sua Frente", baseado no romance de Romain Gary, e que já fora interpretado por Simone Signoret e Myriam Boyer.
O filme coloca a história original de Gary, que se passava no bairro popular parisiense de Belleville, na cidade costeira de Bari, em Itália, transpondo-a também para os nossos dias, o que lhe permite aflorar a problemática dos emigrantes ilegais. Mas é em Rosa, uma antiga prostituta, judia e sobrevivente de Auschwitz, que a história se centra.
Ao recolher em casa filhos de prostitutas sem possibilidades de os criar, acolhe também Momo, um garoto senegalês e muçulmano, órfão, com quem Rosa vai manter uma relação dura, como a sua vida, mas de crescente ternura e dependência. A este jogo de culturas e origens diversas junta-se ainda o merceeiro do bairro, um velho argelino que vai dar a Momo a possibilidade de sair do mundo de tráfico de droga onde se metera.
Mas "Uma Vida à Sua Frente" é sobretudo Sophia Loren, uma força da natureza aos 86 anos que espalha o seu encanto, a sua presença e a sua determinação, numa personagem que se encaixa perfeitamente no seu perfil.
Miss e mítica elegância
Sophia nasceu em Roma, a 20 de setembro de 1934. Passou a infância em Nápoles, onde a mãe, desde muito cedo, tentou incliná-la para uma carreira artística. Entrou em vários concursos de beleza, foi Miss Elegância num concurso para a escolha de Miss Itália.
Trabalha como modelo de fotonovelas, um meio de entretenimento muito popular à época, e consegue pequenos trabalhos de figuração no cinema, creditada, quando o era, com o seu verdadeiro nome de família, Scicolone.
Nessa altura é descoberta por Carlo Ponti, um dos grandes magnatas do cinema italiano, que a vai colocando em vários filmes que produz, primeiro sob o nome de Sofia Lazzaro, depois pelo que a viria a celebrizar.
A sua presença física e o seu talento natural favoreciam a sua carreira. Depois de, aos poucos, conquistar o público italiano, fazendo esquecer Gina Lollobrigida e Silvana Mangano, começa a seduzir também Hollywood. É assim que, de 1956 a 1960, filma para os estúdios americanos, apesar de grande parte das rodagens se realizarem na Europa.
Premiada em Cannes e em Hollywood
O primeiro filme é "Orgulho e Paixão", adaptação do romance de C.S. Forester e é também o primeiro em que contracena com Cary Grant, com quem teria uma falada ligação amorosa. Mas seria com Carlo Ponti que viria a casar em 1957, no México, onde o produtor se tinha divorciado. Os puritanos italianos não reconheceram o divórcio e acusaram Ponti de bigamia, obrigando o casal a tomar a nacionalidade francesa e a realizar uma nova cerimónia nupcial, em 1966.
Entretanto, um dos seus filmes norte-americanos, "Orquídea Negra", valeu-lhe um prémio de interpretação em Veneza. Mas seria no regresso às produções italianas que chegaria a maior das consagrações. "La Ciociara", adaptação do romance de Alberto Moravia, o segundo dos oito filmes da Loren, estrearia em Portugal com o título "Duas Mulheres".
Esta história de uma viúva que sobrevive com a filha durante a Segunda Guerra Mundial mostrava que os seus atributos não se quedavam pelo busto generoso, pelas pernas formosas e pelo rosto sensual, mas também se revelavam ao nível das capacidades dramáticas. Resultado: prémio de interpretação em Cannes e Óscar de Melhor Atriz.
Estava lançada não só uma carreira frutuosa, em que se destacam os onze filmes que rodou ao lado de Marcello Mastroianni, como também o nascimento de um Mito, de um ícone do cinema e de uma representação forte, popular e magnética da Mulher.
"Matrimónio à Italiana", "A Condessa de Hong Kong", o último Chaplin, onde contracena com Marlon Brando, ou "Um Dia Inesquecível" são filmes inesquecíveis de uma carreira que, com a idade, foi escasseando em títulos mas que renasce agora, de forma esplendorosa.
