
No último fim de semana antes do desconfinamento, leia Gonçalo M. Tavares, veja o espetáculo de Ben Wright, ouça o álbum póstumo de Carlos de Carmo e não vá apanhar sol antes de passar numa livraria.
Ninguém duvida que, a haver outro Nobel da Literatura em Portugal, ele será Gonçalo M. Tavares. O autor de "Uma viagem à Índia" é prodigioso e é compulsivo. Neste momento podemos ler, ouvir e ver alguns dos seus textos em vários lugares e plataformas. Sorte a nossa. Apenas três exemplos, porque há muito mais a acontecer aí com o seu ADN. O Diário da Peste, que diariamente foi escrevendo para o semanário Expresso está quase a sair em livro. "Os Três irmãos", que escreveu para o coreógrafo Victor Hugo Pontes, pode ser visto no Festival Dias da Dança (DDD), no Porto, no dia 26 deste mês. E o seu Dicionário de artistas contemporâneos pode ser ouvido todas as quartas-feiras, pela voz incrível de Ana Zanatti, no site do Centro Cultural de Belém (CCB) e no spotify. O 28º texto, lido esta semana, chama-se Utopias e é dedicado ao artista russo-americano Ilya Kabakov.
"As ideias são gestos quedicionário de artistas, diário da peste ocorrem primeiro num sítio que ninguém vê, e depois saem, ou não, para a rua. Tudo é veneno e tudo é medicamento. Trata-se no fundo de uma questão de tempo. Todas as matérias, apurando-se, dirigem-se para um destes dois destinos: veneno ou salvação. Também assim com as ideias. Nenhuma ideia é neutra, tudo o que é iluminado será mais tarde aquilo que ilumina. Os elementos do mundo não desaparecem, escondem-se, desviam-se, suspendem-se; mas não desaparecem. Kabakov coleccionou utopias que recolheu pela cidade. Como alguém que pede uma opinião política, Kabakov pediu uma opinião sobre a felicidade, sobre o modo de pôr a funcionar o progresso sentimental. Porém, a tecnologia amorosa continua a ser rudimentar. Amamos como na antiguidade clássica: isto é: começamos sempre com uma enorme esperança."
Em abril, tudo dança, a 29 celebra-se o dia mundial, e os espectáculos multiplicam-se. Mas a RTP2, muita honra lhe seja feita, nunca espera por abril, quase todos os sábados nos oferece literalmente alguns dos melhores coreógrafos do mundo. Vale mesmo a pena estar atento aos serões de sábado do segundo canal da estação pública, porque são quase uma masterclass em dança contemporânea do ponto de vista do espectador. Este sábado não é excepção.
A viagem "The Feeling Of Going" criada por Ben Wright, ao som do álbum "Go" do artista Jónsi, dos Sigur Ros, interpretada pela Ópera de Malmö e pelo sueco Oskar Humlebo, conhecido como Moto Boy, é das coisas mais maravilhosas que vai poder ver esta semana em televisão.
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Mas se o seu campeonato é mesmo o das séries, então aqui fica o lembrete: faltam dois dias para a estreia de "Mare of Easttown", realizado por Craig Zobel ("The Leftovers"), a nova mini-série da HBO Portugal. Há várias semanas que só se fala dela - não da série mas da atriz da série: Kate Winslet. Ao que parece, ela tem nesta história escrita por Brad Ingelsby um dos seus melhores desempenhos de sempre. O drama que vai colocar a detetive Mare Sheehan num sério conflito existencial estreia na próxima segunda-feira, dia 19.
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Enquanto espera, ouça o novo disco do Carlos do Carmo (1939-2021), que saiu esta sexta-feira, talvez a mais comovente declaração de amor que um fadista fez ao fado, ao seu país e aos seus poetas. O derradeiro gesto de resistência de um homem que cantou até ao último sopro de vida está espraiado nas escolhas de "E Ainda...", onde figuram Vasco Graça Moura, Herberto Helder, José Saramago, Sophia de Mello Breyner, Hélia Correia, Júlio Pomar e Jorge Palma.
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Finalmente, e porque este é, se tudo correr bem, o último fim de semana antes do desconfinamento, abasteça-se numa livraria antes de ir apanhar sol. Duas sugestões: "Este Grande Não-Saber", da poeta imprescindível Denise Levertov (1923-1997), com tradução de Andreia C. Faria e Bruno M. Silva; e "Poemas e Fragmentos", de Safo, numa extraordinária reedição que mantém a tradução primeira de Eugénio de Andrade.
