
João Cerqueira
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Finalista de dois prémios literários nos Estados Unidos, "Perestroika", o mais recente romance de João Cerqueira, está mais próximo da análise sociológica do que política, ao contrário do que o título pode sugerir.
Há realidades tão sombrias ou complexas que só o humor nos auxilia a formular um juízo desprendido sobre as suas implicações e significados. Longe de ser superficial, esta abordagem tem a inestimável vantagem de não assumir foros de infalibilidade, como acontece com os devotos de tantas disciplinas que, pese embora a sua soberba, estão longe de conseguir explicações satisfatórias sobre a sua matéria de análise.
Foi o que João Cerqueira concretizou no seu mais recente projeto literário, "Perestroika", um romance ambicioso que se desenrola num país fictício da Europa Central, a Eslávia. É nessa desconhecida nação que Alfred Ionescu comanda um regime tão bárbaro quanto corrupto.
Pelas referências feitas, percebemos que o autor vianense pretendeu retratar um dos muitos estados que, após o final da Segunda Guerra Mundial, ficaram sob a égide da então URSS. O modo de estruturação da sociedade, da imensa maioria da população privada das mais elementares condições de vida à casta de privilegiados que rodeiam o ditador, sugere-nos que qualquer semelhança com a realidade não é apenas mera coincidência.
"O regime controla a economia, os tribunais e as forças da ordem. Utiliza a comunicação social, o cinema, o teatro, a arte e o desporto como meios de propaganda e doutrinação dos cidadãos", escreve, fazendo-nos evocar um número alargado de nações similares.
Mas, por muito que a leitura política ressoe sem dificuldade em quem lê o romance, esse foco perde o protagonismo que poderia estar-lhe destinado, ao verificarmos que os propósitos do autor são outros.
A análise humana, ou de pendor sociológico se preferirmos, é muito mais central no desenvolvimento da história. João Cerqueira analisa com detalhes os traços do caráter dos tipos que enformam essas sociedades. Lá estão o chefe da polícia secreta, os comissários do povo para a educação e para a cultura, mas também diretoras de orfanatos, empresários, ideólogos de grupos de neonazis ou até lutadores de artes marciais. Cada qual tem direito ao seu quinhão de protagonismo, através de um capítulo no qual entrevemos as suas inseguranças. Por muito diferentes que sejam, encontramos em todos a mesma análise mordaz ou corrosiva do autor, apostado em colocar a nu as supostas grandezas de uma nação, afinal de contas, miserável.
"Perestroika"
João Cerqueira
Ideia-Fixa
