
Prémio Nobel da Literatura Annie Ernaux recorda uma experiência traumática sofrida aos 23 anos
Julie Sebadelha/AFP
Em "O acontecimento", romance breve agora editado em Portugal pela Livros do Brasil, Annie Ernaux concretiza um poderoso relato autobiográfico sobre o aborto clandestino.
Poucas obras literárias, por muito meritórias que possam ser, ascendem à categoria de documento. Esse predicado está reservado aos livros que, para lá dos méritos intrínsecos apresentados, conseguem também trazer-nos um testemunho que, nascendo de uma visão individual, contém no seu âmago algo capaz de interessar a uma mole muito superior de pessoas.
Com "Acontecimento" - publicado em França no final do milénio, adaptado ao cinema no ano passado e agora finalmente em edição portuguesa -, Annie Ernaux alcança esse estatuto, ao confrontar-nos com uma breve novela autobiográfica sobre a ignomínia que representa o aborto clandestino, cuja valia suplanta sem dificuldades os mais acalorados debates sobre o tema, de que tivemos prova em Portugal aquando da realização dos supracitados referendos.
O ano em questão é 1963. Estudante universitária já finalista, a jovem Annie vê os seus planos de emancipação familiar serem postos em causa quando se apercebe de que engravidara do seu novo namorado. Em choque com a notícia e imbuída apenas da certeza de que não pretende, de modo algum, manter a criança, inicia uma demanda da interrupção voluntária da gravidez, pretensão essa que esbarra, mais do que na ilegalidade do ato, na hipocrisia de uma sociedade que entregava à sua sorte as mulheres nessa situação.
Ante a recusa dos médicos em concretizar o desmancho, vê-se forçada a recorrer aos préstimos de uma "fazedora de anjos", como eufemisticamente eram designadas as profissionais que consumavam o aborto.
Quase 40 anos depois do acontecimento - que, apesar de todo esse tempo volvido, continua a ser O Acontecimento -, é uma já consagrada Annie Ernaux que reconstitui essa jornada fortemente solitária, plena de desamparo e angústia, da jovem que então ainda era.
Fá-lo com base nas memórias e nos registos guardados da época, daqui resultando um relato lúcido que, embora rejeite um registo puramente emotivo, se torna ainda mais impactante pelo modo quase cirúrgico como vai descrevendo a rápida metamorfose de um corpo que acolhe um ser indesejado. Ou, como (d)escreve a narradora, "uma entidade disforme a crescer dentro de mim, que tinha de ser destruída a todo o custo".
"O acontecimento"
Annie Ernaux
Livros do Brasil
