
Annie Ernaux escreveu "A vergonha” em 1997
Foto: Alain Jocard / AFP
Prémio Nobel da Literatura em 2022, escritora francesa volta a perscrutar o seu passado em "A vergonha", consumando um processo de inquietação permanente.
Saber de antemão o que vai encontrar na narrativa que se prepara para ler não diminui em nada o gosto do leitor pelos livros de Annie Ernaux. É como se folheássemos um antigo e gasto álbum familiar, no qual encontramos sempre um detalhe ou um elemento que invariavelmente nos enleia.
Esse lugar de conforto para o leitor é, todavia, construído tendo como base o questionamento e a introspeção permanentes – o desconforto, em suma – da própria autora, cuja obra, distinguida com o Prémio Nobel da Literatura 2022, é quase toda consagrada à reconstrução memorialística.
Biografia, ficção, psicanálise, História e sociologia são sabiamente entretecidas pela escritora francesa em livros que exploram as ramificações intermináveis entre o passado e o presente. É precisamente esse fluxo temporal contínuo que está na origem do livro “A vergonha”, disponível numa edição portuguesa 27 anos depois da publicação original.
Com uma simples e desarmante frase – “o meu pai tentou matar a minha mãe num domingo de junho, ao começo da tarde” –, Ernaux dita o tom de um livro marcado pelo trauma de quem nunca se conseguiu libertar em pleno da vergonha associada a esse acontecimento.
Com parcos 12 anos na altura, a jovem Annie perdeu a candura típica da idade, desenvolvendo um processo de autodefesa em que a vontade de escapar à tacanhez do meio envolvente foi um elemento dominante.
Num registo desapiedado e bastas vezes cru, a autora de “O jovem” perscruta com detalhe uma infância e juventude marcadas pela forte estratificação social em Y, a pequena localidade da Normandia onde nasceu. Mas é no reduto do lar que se concentram as dúvidas e inquietações de Annie Ernaux, incapaz de compreender que um ato tão extremo como a tentativa de assassinato por parte do pai tenha sido varrido das conversas e condutas dos progenitores, como se nunca tivesse acontecido.
Ao escrever sobre esse acontecimento, extraindo-o do fundo das suas memórias mais recônditas, Annie Ernaux trá-lo de volta ao seu quotidiano. Sem a pretensão de obter respostas definitivas, mas ciente de que pensar sobre o passado é um autêntico modo de vida.

