
Scorsese reconheceu aos jornalistas em Cannes que abraçar este projeto "foi uma jogada arriscada"
Patrícia de Melo Moreira/AFP
“Assassinos da Lua das Flores”, o novo filme de Martin Scorsese, já está em exibição nas salas portuguesas. Premiado realizador norte-americano assistiu à antestreia da película no Festival de Cannes, em maio passado.
América, década de 1920. Membros da tribo Osage são assassinados em circunstâncias misteriosas, levando a uma investigação por parte do FBI. Por detrás destes crimes está a descoberta de petróleo nas terras desta comunidade indígena, atraindo de imediato ao local intrusos brancos…
Uma história verídica, contada em livro, adaptado livremente por Martin Scorsese para o seu último filme, “Assassinos da Lua das Flores”. Apesar de produzido por um gigante do streaming, o filme estreou em Cannes e chega hoje às nossas salas de cinema. Ocasião para recordar o encontro que Scorsese e a sua equipa, entre os quais se encontram os seus atores fétiche Leonardo DiCaprio e Robert De Niro, tiveram com a imprensa.
O realizador começou por comentar a visível emoção que sentiu com a tremenda ovação que se seguiu ao final da sessão oficial. “Foi a combinação de muitos anos de trabalho com uma reação muito calorosa, com muito amor, que nos foi concedida. A equipa estava toda presente. Percebi que foi uma reação que veio do coração. É por isso que foi tão emotivo. “
Apesar de partir de um romance já publicado, a abordagem de Scorsese e dos seus argumentistas afastou-se dessa base inicial. “Começámos por olhar para a história segundo o olhar do FBI, que chegou ao local. Mas percebi que não se tratava de saber quem fez o quê, mas de quem não fez o que devia”, explica.
“Num determinado momento o DiCaprio perguntou-me onde é que estava o coração desta história”. Martin Scorsese desvenda o que fez para responder a essa questão. “Eu tinha tido algumas reuniões com a comunidade Osange e um jantar em que aprendi tanto sobre eles, nessas três horas. Sobre as pessoas e como as suas histórias estão ligadas umas às outras. Percebi que essa era a história”, recorda. “A história estava na personagem sobre a qual se escreve menos. Ernest. E obviamente foi isso que o Leo quis fazer. Como uma matriz daquela tragédia de amor, confiança e traição para com o povo indígena por parte dos brancos”.
Um filme com a dimensão de “Assassinos da Lua das Flores” e o caminho que o argumento percorreu pode ser considerado um risco, nos tempos que correm. Mas Martin Scorsese desvaloriza e questiona: “Correr um risco como este com a minha idade? Que opções é que tenho? O que querem que eu faça, alguma coisa de mais confortável? É verdade que foi uma jogada arriscada, mas corremos esse risco”, afirmou.
O realizador explicou mais em detalhe o trabalho com a comunidade Osange e os seus responsáveis. “Se íamos falar tão em profundidade sobre uma nação indígena, tínhamos de ser completamente respeitosos”, começou por dizer. “Eles falam, fazem uma oração, há um ritual. Fiquei bastante emocionado e impressionado. Compreendi quais eram os valores daquela comunidade. O amor, o respeito, o respeito pela terra. A forma como entendem a vida neste planeta. Percebi como todos esses valores eram importantes para mim. Eu estava a preparar um filme, certo, mas o que estou a fazer aqui na terra?”
Martin Scorsese admite que quanto mais sabia sobre os Osange mais queria meter no filme. “Mas de forma natural, não podia parecer propositado. Mas com todos os detalhes, os desenhos dos tapetes, as cores. A história deles vai muito antes da declaração da independência.”
O projeto deste filme é anterior a “O Irlandês”. O realizador confirma. “Tinhamos previsto rodar este filme antes. Mas como havia toda a parte do envelhecimento, tivemos de o filmar antes deste. Quando se deu a pandemia estávamos a escrever o guião e tudo o resto parou. Mas não senti que tivéssemos deixado de fazer alguma coisa por causa das restrições do covid.”
Falando em “Assassinos da Lua das Flores” sobre um conflito vivido no seu próprio país, há sensivelmente cem anos, Martin Scorsese foi instado a falar sobre as situações de guerra que se vivem no mundo, nomeadamente a guerra na Ucrânia, muito presente quando o filme estreou em Cannes. E respondeu assim: “Vivo num país republicano, democrático, mas a nossa sociedade tem coisas muito negativas. O consumismo, por exemplo. A importância primordial que é dada ao dinheiro, e não devia ser assim. O que é mais importante na vida? A liberdade de nos expressarmos é para mim o valor mais importante.”
