
O fado não fazia parte das escolhas de vida de Cristina Branco. As suas atenções estavam mais centradas noutras músicas e no curso de Comunicação Social que queria concluir. Mas o disco de Amália Rodrigues, que, aos 18 anos, o avô lhe ofereceu, deitou por terra ideias feitas.
Foi ouvir fado ao vivo. E isso fê-la mudar de ideias. Começou a cantar. Curiosamente, foram os holandeses quem primeiramente a descobriram, vai para 11 anos. Desde então tem-se dedicado a "um desassossego e a uma procura" que se materializam em mais um disco, (o décimo da carreira), intitulado "Kronos", que estará à venda a partir de amanhã. Nele reúne 14 temas inéditos com contributos de nomes como Amélia Muge, Sérgio Godinho, Manuel Alegre, Vasco Graça Moura, Rui Veloso, Vitorino, José Mário Branco, Mário Laginha...
Neste disco escolheu o tema tempo como fio condutor. Porquê?
Ao fim de 11 anos de carreira falar do tempo foi quase óbvio. Há cinco anos que não entrava em estúdio e por isso sinto que estou mais amadurecida. Que já posso fazer uma espécie de balanço. Para mim, foi uma coisa naturalíssima. Apeteceu-me falar do tempo. Até porque aconteceram algumas mudanças na minha vida profissional e emocional, (fui recentemente mãe). De permeio gravei dois discos (um dedicado a Amália e outro a José Afonso) que me fizeram repensar imensas coisas na minha vida.
Como materializou a ideia? Tinha alguns poemas já escolhidos?
Tinha apenas dois que me chegaram antes de ter pensado na temática. Um era do Manuel Alegre ("Trago um fado") e outro do Vasco Graça Moura ("Tango"). Depois pensei que seria interessante convidar uma série de autores contemporâneos para comporem para mim. A proposta que lhes fiz era de que me escrevessem temas com a temática do tempo. A Amélia Muge foi a primeira a responder ao desafio, mesmo antes de a convidar formalmente. Tinha lido algures que eu iria fazê-lo e antecipou-se enviando-me o tema "O meu calendário".
O disco inclui "Fado mal passado", uma letra do pintor Júlio Pomar musicada por António Victorino d'Almeida? Como surgiu este econtro?
O Júlio Pomar é um amigo de longa data. Tem esta faceta de letrista que nem toda a gente conhece. Já é o segundo fado que canto dele. Gosto desta vertente muito satírica das suas letras. Por outro lado, como eu canto sempre coisas tão sérias , desta vez soube-me bem interpretar um fado tão brincalhão como é este. E a música do maestro Victorino d'Almeida, outra pessoa que também tem o dom da ironia, acabou por casar bem com a letra. O resultado agrada.
Também canta "Margarida", um poema de Álvaro de Campos musicado por Mário Laginha....
Essa é a única música que não foi feita originalmente para mim. Era para ser cantada pelo Camané, que nunca a gravou. Mas, como tem o nome da minha filha, pedi-lhes para me deixarem cantá-la. Afinal "Margarida" também fala da passagem do tempo.
Há alguma ausência que lamente neste seu trabalho?
Uma ausência terrível é a do Fausto. Ele bem tentou compor um tema mas não teve disponibilidade. O Jorge Palma também não conseguiu compor a tempo, mas canta comigo o tema "Margarida".
Este disco não é de fado, no sentido purista do termo. Ainda anda à procura de um estilo?
Já não me inquieta essa questão. Se calhar este é o meu estilo. Não sou nem me acho fadista. Canto o meu fado. Deixem-me que lhe chame assim, porque quando oiço o som de uma guitarra portuguesa a minha alma é completamente fado. Mesmo que, por vezes, aos puristas, não soe como tal.
