
Se escrevesse meia página por dia, era um dia glorioso
Foto: Mario Cruz / EPA
Mais de quatro décadas, 32 romances traduzidos em 30 línguas e sete coletâneas de crónicas para reler.
A complexidade da escrita de Lobo Antunes, marcada por frases longas, múltiplas vozes narrativas e estruturas fragmentadas, representou um desafio particular para os tradutores. Muitos deles tornaram-se especialistas na sua obra, trabalhando durante anos na adaptação do seu estilo para outros idiomas. Em vários países, das 30 línguas em que se encontram traduzidas, as obras foram acompanhadas por prefácios críticos e estudos para contextualizar a densidade histórica, cultural e linguística dos seus romances. São quarenta e três anos, uma bibliografia consistente e exigente, com 32 romances, marcada por um estilo narrativo profundamente original e uma investigação contínua da memória, da história portuguesa e da condição humana
A estreia aconteceu com "Memória de elefante" (1979), um romance fortemente autobiográfico que acompanha um médico psiquiatra num dia de errância por Lisboa, com recordações da vida familiar, a experiência na Guerra Colonial e reflexões sobre a prática médica, temas a que regressaria recorrentemente. No mesmo ano publicou "Os cus de Judas", considerado por muitos um dos seus livros mais impactantes e incluído no Plano Nacional de Leitura. Através de um longo monólogo dirigido a uma mulher num bar de Lisboa, recorda a experiência da guerra em Angola, descrevendo a violência, o absurdo e o trauma psicológico vivido pelos soldados portugueses. Em "Conhecimento do Inferno" (1980), Lobo Antunes regressa ao universo hospitalar e à sua experiência como psiquiatra. Nos anos seguintes, amplia o seu universo literário com obras como "Fado alexandrino" (1983), um dos seus romances mais ambiciosos, levado à cena por Nuno Cardoso.
Fantasmas e decadência
"Manual dos inquisidores" (1996) é frequentemente considerado uma das obras-chave da sua produção, um retrato impiedoso da sociedade portuguesa no período pós-Revolução, explorando a decadência das elites e os fantasmas deixados pela ditadura. Também "O esplendor de Portugal "(1997) aborda o colapso do império colonial português a partir da história de uma família de colonos em Angola. Com diferentes pontos de vista e períodos temporais, cria uma estrutura fragmentada que reflete a desagregação emocional das personagens.
Nos anos 2000, Lobo Antunes continuou a desenvolver uma escrita cada vez mais experimental. Obras como "Eu hei-de amar uma pedra" (2004), "Ontem não te vi em Babilónia" (2006) e "O arquipélago da insónia" (2008) aprofundam um fluxo de consciência contínuo. Nestes livros, a memória torna-se o principal motor da narrativa, dissolvendo fronteiras entre passado e presente. Na fase mais recente, destacam-se títulos como "Comissão das lágrimas"(2011) ou "Até que as pedras se tornem mais leves que a água" (2017), explorando a herança da Guerra Colonial e os conflitos de identidade numa relação parental.

