
Escrito há quase 25 anos, livro de Annie Ernaux foi publicado em França apenas em 2022
Henrik MONTGOMERY/TT News Agency/AFP
Em "O jovem", escritora francesa Annie Ernaux descreve num relato breve a relação amorosa mantida com um homem 30 anos mais novo.
Convocar para a escrita acontecimentos de foro íntimo ou inconfessáveis para a maioria nunca foi obstáculo para Annie Ernaux, como bem o sabem todos quantos já se embrenharam nas páginas dos seus livros. A diluição de fronteiras entre a realidade e a ficção é mesmo uma das traves-mestras da escrita da Prémio Nobel da Literatura 2022, cuja recente aclamação popular fora de portas só veio conferir justiça a um longo e notável percurso literário.
Se em "O acontecimento", também publicado pela Livros do Brasil, à semelhança de parte substancial da sua obra, Ernaux partilhava com os leitores o drama e as dificuldades por que passou na altura em que fez um aborto clandestino ainda enquanto estudante universitária, "O jovem" oferece-nos outro capítulo autobiográfico impressivo, ainda que de natureza bem distinta.
O princípio orientador em ambos os casos apresenta óbvios pontos de contacto: fazer da própria vida matéria de escrita, como se o objeto de análise pudesse ser afinal qualquer um, tal a forma analítica e rigorosa como se distancia do sucedido.
Nesta curtíssima novela, escrita entre os anos 1998 e 2000 mas apenas concluída poucos meses antes da atribuição do Nobel, a autora de "Os anos" é uma mulher já madura - 54 anos - que se envolve com um jovem, 30 anos mais novo.
No lugar da insegurança típica da juventude, Annie Ernaux representa desta vez o poder e a dominação de quem sabe depender unicamente de si a continuidade do relacionamento. Não que o use de forma declarada para subjugar o seu jovem amado, mas apenas porque o ainda estudante carrega, afinal, um conjunto de marcas que a fazem lembrar-se da sua própria juventude, ou, como escreve, alguém que "transportava a memória do meu primeiro mundo". A começar nas origens humildes, bem evidente na sofreguidão com que lutava por ser aceite.
Condenada à partida, a relação acaba por prolongar-se no tempo, em grande parte devido ao manifesto gosto sentido pela romancista ao ver que a sua capacidade de atrair homens com idade para serem seus filhos se mantém intacta.
Mais do que a descrição da relação propriamente dita, o que se destaca deste relato seco e depurado é a forma como Ernaux descreve os olhares reprovadores com que a sociedade encarava este insólito par.
"O jovem"
Annie Ernaux
Livros do Brasil
