
Ana Carolina descobriu a música de Cássia Eller quando tinha 16 anos
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Cantora brasileira Ana Carolina atua em Portugal neste fim de semana. Desta vez, leva a obra de Cássia Eller aos Coliseus de Lisboa e do Porto.
Acarinhada pelos portugueses, figura incontornável da música moderna brasileira, Ana Carolina está de volta ao nosso país com dois espetáculos que são também uma viagem ao passado. "Ana canta Cássia - Estranho Seria Se Eu Não Me Apaixonasse Por Você" é um concerto dedicado ao repertório de Cássia Eller, revisitado e celebrado na voz de Carolina.
Primeiro o Coliseu de Lisboa (este sábado, 13 de maio), depois o do Porto (domingo, 14) acolhem os dois espetáculos que homenageiam a cantora, falecida em 2001 e que teria completado 60 anos em 2022. Uma artista que teve impacto tremendo, não só na música brasileira, como na carreira e até vida de Ana Carolina, desde o primeiro "encontro" quando tinha 16 anos, lembra em entrevista ao JN.
"Eu escutei a Cássia pela primeira vez, com a música "Por Enquanto" em 1990. E eu fiquei realmente muito impactada, corri numa loja - eu sou do interior, de Minas Gerais - procurei uma loja, ver se conseguia achar quem estava a cantar aquela música e descobri o disco", começa por explicar.
Ficou fã, numa relação que jamais seria quebrada. "Era a voz, tão impactante. Logo nessa gravação, que é de violão e voz, percebe-se a grandiosidade da voz e todos os hertz e todas as informações de timbre, fica muito claro, aquela coisa gigante. Fiquei apaixonada pela voz, pela potência, pela grandiosidade do que ela estava fazendo".
O impacto musical foi imediato, mas viria outro mais tarde: Cássia foi a primeira figura pública assumidamente bissexual no Brasil, o que acabaria também por marcar a vida de Ana Carolina. "Para mim foi super importante, porque eu vivia essa questão, estava num momento em que me questionava a respeito disso, eu sabia que era bissexual. E quando vi aquela mulher, sem ter que levantar a bandeira, mas simplesmente vivendo aquilo, tranquilamente, de uma forma normal, que é o que deve ser... Eu fiquei muito... impactou-me positivamente, acho que me deu muita força para poder assumir quem eu era. Que no fundo não escondi - mas o não ter problema, não tem problema em falar sobre isso".
Mais tarde, as duas chegaram a conhecer-se no Rio de Janeiro, em 1997. Por intermédio de uma amiga videógrafa em comum, Cássia Eller recebeu Ana Carolina, na altura em início de carreira, na sua casa do Rio. "Quando eu fui fazer o primeiro show no Rio de Janeiro, não tínhamos onde ficar, vínhamos do interior num carro pequeno, com as caixas de som, sem planos. E a minha amiga falou que poderíamos ficar com ela", conta. Cássia acabaria por, não só albergar e ir ao espetáculo de Ana Carolina, como ajudar o seu grupo, destacando uma pessoa para os auxiliar nos mais diversos detalhes. "Era de uma generosidade imensa" frisa a cantora mineira.
"Canções de todas as épocas"
Sobre a altura e o porquê destes espetáculos, a ideia começou a surgir na pandemia, mas a responsabilidade impactou Carolina. "Eu jamais poderia me imaginar como uma colega. Quando você é muito fã, não se imagina". Respondeu ao desafio com trabalho. "Comecei a escutar, não que eu não conhecesse tudo, mas escutar tudo de novo. Cada música, cada versão, cada história, cada filme, documentário. Ler tudo. E recordar-me das coisas, da minha própria paixão por ela, dos discos, do quanto ela é sensacional".
Começou aí "o desenho do que vocês vão assistir agora", diz sobre os espetáculos de Portugal, dirigidos pelo premiado Jorge Farjalla e com vários músicos convidados.
A setlist foi difícil, mas Ana procurou passar em "canções de todas as épocas", para "mencionar todas as etapas" da carreira da Cássia. "Algumas músicas, eu fiz muita questão que estivessem, como "Maluca", ou o "Milagreiro", que o Djavan fez para ela".
"Malandragem", "O Segundo Sol", "All Star", "Relicário", "Por Enquanto", "1º de Julho", "Luz dos Olhos" não podiam faltar, havendo ainda espaço para alguns temas de Carolina, como "Garganta". "É uma coisa muito engraçada: como eu estava em início de carreira, e "Garganta" foi a primeira música de trabalho, algumas pessoas se perguntavam, quem era, se era a Cássia que estava a cantar, para minha sorte. E veio muito forte para mim e acho que na hora de pensar, eu percebi que fecha o ciclo, quando eu finalizo esse show, da Cássia, com "Garganta", a minha primeira música, onde algumas pessoas se perguntavam se era a Cássia. Então o ciclo fecha-se aí".
