
Annie Ernaux reconhece a importância do cinema na sua formação literária
ANDERS WIKLUND/EPA
Prémio Nobel da Literatura em 2022, a escritora francesa estreia-se no cinema com "Annie Ernaux - Os Anos Super 8", que já pode ser visto nas salas portuguesas. JN entrevistou-a aquando da exibição do filme no Festival de Cannes.
Antes do anúncio, em outubro passado, de que Annie Ernaux seria a primeira francesa a ganhar o Prémio Nobel da Literatura, já a escritora apresentara, na Quinzena dos Realizadores de Cannes, a sua primeira incursão no cinema. "Annie Ernaux - Os Anos Super 8", agora em estreia nacional, corealizado com o filho, David Ernaux-Briot, é uma montagem de filmagens de viagens feitas com o ex-marido entre 1972 e 1981. A escritora juntou-lhes um texto escrito para a ocasião e o filme pode assim ser visto não só como um retrato da época, mas também enquanto parte integrante da obra literária da autora. Em Cannes, ainda antes do Nobel, o JN esteve à conversa com Annie Ernaux.
Que emoções sentiu ao ver de novo estas imagens?
É uma época já muito longínqua. Só posso olhá-las com uma certa distância, que aliás facilitou a narrativa que tive de escrever, por não ser levada por um turbilhão de sensações. Pelo contrário, tive a impressão de estar a olhar para uma mulher diferente, uma mulher que foi eu mas que já não sou eu. E num contexto que já não é o meu. Não podemos falar de emoções, mas finalmente foi algo muito doce.
Qual foi o principal impulso para se dedicar a este trabalho?
É uma questão interessante. Tive o sentimento de mergulhar, através da escrita, num período sobre o qual ainda não tinha escrito de uma forma assim direta, tão autobiográfica. Foi como se estivesse a escrever uma obra nova.
Na sua escrita, trabalha sempre com memórias, com os seus diários. Trabalhar no cinema, um meio visual, foi muito diferente?
Senti que, ao mesmo tempo, era uma extensão do meu trabalho, mas também algo de muito diferente. Extensão por de fazer apelo à minha memória, como faço nos meus livros. Diferente porque havia algo de incontornável, as imagens. Tinha de me submeter ao que havia. Evidentemente, perante essas imagens não sou como qualquer outra pessoa, que as descobre pela primeira vez. Pelo contrário, podia situá-las e trabalhar sobre o seu contexto. Nesse aspeto, deu lugar a um objeto absolutamente novo.
Como é que trabalhou com o seu filho?
Houve dois trabalhos diferentes. Eu escrevi e o meu filho não interveio na escrita e eu não intervim nas imagens. Não houve qualquer discussão prévia sobre como eu deveria escrever. Escrevi de forma autónoma e livre. Depois, o meu filho estruturou as imagens como entendeu.
Qual é a sua relação com o cinema?
Desde os tempos da "nouvelle vague" que me interesso pelo cinema. É um interesse semelhante ao que tenho pelo "nouveau roman". Foram dois movimentos que descobri ao mesmo tempo. Agnès Varda, Alain Robbe-Grillet, "O Último Ano em Marienbad". Lembro-me muito bm, foi uma forma de impulso para escrever de forma diferente. Mesmo mais devido ao cinema do que ao "nouveau roman". Esses filmes tiveram uma relação muito forte com o que eu escrevo.
O Eric Rohmer fez um filme em Cergy, nos arredores de Paris, onde vive...
Foi em 1987, "O Amigo da Minha Amiga". Há 40 anos que vivo em Cergy. Há uma relação entre a forma como ele filmou a vila, como ele olhou para ela e como eu a vejo, que são muito diferentes, não têm muito em comum. Foi por isso que achei interessante participar no filme de Régis Sauder, "J"ai Aimé Vivre Là", que é aliás uma frase minha.
As imagens que vemos são dos anos 70, quando se sonhava com um mundo novo. Como vê a evolução do mundo desde esse tempo até hoje?
É como do dia para a noite. Esta diferença já germinava nessa altura, mas tínhamos um elã vital de experimentar, um desejo de viajar e de conquistar coisas novas. A natureza era o cenário para esses desejos. Mas nunca podemos prever a evolução do mundo, e descobrimos que os recursos naturais são limitados. Hoje em dia há uma certa desesperança. Mas para mim é um momento da História. Haverá seguramente outros momentos onde essa esperança irá reviver.
De onde lhe veio o desejo de ser escritora?
O desejo de escrever chegou quando tinha 20 anos. Comecei a escrever um livro, que terminei aos 22 anos, mas nunca seria publicado. Recomecei a escrever dez anos mais tarde e o que me levou então a fazê-lo foi ter a consciência de ser, utilizando um termo atual, uma trânsfuga de classe. E de me perguntar como me tornei esta mulher que viu no ecrã, bem vestida, vivendo num certo meio, muito chique. O filme mostra bem o que me levou a escrever.
