
Pawel Pawlikowski realizou "Guerra Civil", nomeado para Melhor filme estrangeiro
"Roma" e "A favorita" lideram as nomeações (10 cada um) aos prémios americanos de cinema, que este ano abundam de estrangeiros. Não se viam filmes tão populares na lista da Academia há muitos anos seguidos.
Entre vários subterrâneos artísticos que sublinham ou anunciam as tendências artísticas no cinema - e o cinema é uma imitação da vida, como sabemos pelo menos desde 1959, data do último melodrama de Douglas Sirk -, sabemos que há sempre duas correntes em Hollywood: o flume dos filmes intrincados de arte e o rio dos produtos populares que banham a alegria da bilheteira cheia. Inconciliáveis só na aparência, as duas caudalosas encontram-se este ano, novamente, na lista de nomeações à 91.ª edição dos Oscars, o maior concurso mundial de cinema cujos vencedores serão conhecidos na América no dia 24 de fevereiro (madrugada dessa noite para quem estiver na Europa).
Primeira evidência da lista de candidatos de 2019: os dois filmes com mais nomeações são objetos artísticos muito próximos da arte e do ensaio - ou possuem, pelo menos, características que os arvoram a esse patamar poético. Surpresa: são produtos, à sua peculiar maneira, com grande potencial de popularidade.
Roma é amor lido ao contrário
"Roma" é uma recomposição a preto e branco (esfumaçado de sol, filigranado, belíssimo) do caderno de memórias da infância do realizador mexicano Alfonso Cuarón passada nos anos de 1970 na sua tumultuosa Cidade do México.
Tese súpera sobre o amor fraterno, e não sobre o "amor de sangue" porque o emissor sentimental não é a mãe mas sim a ama das crianças retratadas, "Roma" tem 10 nomeações, com destaque para melhor filme estrangeiro, fotografia (do próprio Cuarón) e elenco feminino, com as atrizes mexicanas Yalitza Aparicio e Marina de Tavira (secundária) em surpreendente destaque. Depois de Orson Wells e Warren Beaty, Alfonso Cuarón, que venceu o Oscar de realização há quatro anos com "Gravidade", é o só o terceiro realizador na história dos Oscars a ser nomeado em simultâneo para a realização, fotografia, argumento original e melhor filme.
Pormenor da maior importância sobre os tempos atuais: "Roma" é o 1.º filme produzido e estreado numa plataforma de streaming, a Netflix, a chegar à lista da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Os tempos estão a mudar - como sabemos da boca de Bob Dylan pelo menos desde 1964...
E de rompante aparece um grego
O outro paladino das nomeações do ano, empatado com as 10 pretensões de "Roma" (lido de trás para a frente lemos amor, o que não será só um acaso, certamente), é, com certa surpresa, "A favorita", uma biografia de costumes escabrosos arquitetada entre os jogos de poder político da corte da rainha Ana, na Inglaterra do século XVIII. É uma comédia, mas como o seu autor é o grego de 46 anos Yorgos Lanthimos, criador do superlativo "A lagosta" (um filme distópico brilhante em que na sociedade do futuro é obrigatório casar e quem não o fizer em certo tempo é transformado para sempre num animal à escolha e condenado à vida selvagem de solteiro), essa comédia vem cheia de escabro, sinapse e riso nervoso.
"A favorita" tem nomeações destacadas nas principais categorias, mormente melhor filme, realização, argumento original e elenco feminino, com Olivia Colman, Emma Stone e Rachel Weisz - sim, há três atrizes nomeadas nesta obra; as duas últimas vão competir diretamente uma com a outra pelo Oscar de atriz secundária.
"A favorita", sexto filme de Lanthimos, mas o primeiro que atira o grego de rompante por Holywood adentro ("O Sacrifício de Um Cervo Sagrado", com Nicole Kidman, Alicia Silverstone e Colin Farrell, já era feito dentro da meca do cinema, mas esse filme de 2017 tinha menos centelha do que ruminação) estreia nos cinemas portugueses a 7 de fevereiro.
Nova evidência - e perturbação a saudar efusivamente: os dois filmes em maior destaque nos Oscars 2019 são da autoria de cineastas estrangeiros na meca.
A bilheteira nos Oscars
Terceira evidência: há muitos anos, pelo menos desde 2013, o ano em que venceu, e muito bem, "Argo", de Ben Affleck, que foi o ano de "A vida de Pi" (11 nomeações, 4 estatuetas), de "Guia para um final feliz" (8 nomeações, 1 Oscar) e de "Les Miserables" (8 nomeações, 3 estatuetas), que não se viam tantos produtos tão populares entre os candidatos ao melhor filme do ano. Os oito concorrentes, além dos dois já citados, são: "Black Panther", "Bohemian Rhapsody", "BlacKkKlansman - O inflitrado", "Green Book - Um guia para a vida", "Assim nasce uma estrela" e "Vice".
É praticamente a overdose da bilheteira: o provento dos oito filmes combinados, e contando só com o "box office" norte-americano, supera já os mil milhões de dólares de lucro (contas do site Vox). É a melhor cifra desde há quase uma década quando, em 2011, o ano da animação "Toy Story 3", houve dez obras nomeadas para melhor filme (este ano são só oito e um, "Roma", é da Netflix e teve escassíssima presença em sala) que perfizeram nos cinemas americanos 1,3 mil milhões de dólares em rendimentos.
Americanos em minoria
Na categoria de melhor realização acontece outra factualidade singular: dos cinco concorrentes, três foram nomeados pela primeira vez: o norte-americano Spike Lee por ("BlacKkKlansman - O inflitrado"), o grego Yorgos Lanthimos de "A favorita" e Pawel Pawlikowski, autor polaco de "Guerra fria", uma história de amor impossível picotada num tempo censor e glacial que começa nos anos 1950 e atravessa Polónia, Berlim, Jugoslávia e Paris. A este trio de autores juntam-se o mexicano Alfonso Cuarón e o norte-americano Adam McKay, diretor de "Vice". Será também esta a primeira vez que os cineastas dos EUA estão em minoria na categoria de melhor realizador?
Outro sublinhado: tal como "Roma", também o polaco "Guerra fria"está nomeado para melhor filme estrangeiro, o que fará desta edição dos Oscars uma das mais forasteiras de sempre.
Marvel, música e política
Lista abaixo entre os filmes mais nomeados, "Assim nasce uma estrela", a estreia na realização do ator Bradley Cooper (está nomeado pela interpretação mas não pelo esforço de diretor), segue com oito nomeações. A aspiração inclui a de melhor filme e duas candidaturas para a cantora Lady Gaga que, à primeira, é logo nomeada como atriz central e ainda assina "Shallow", que concorre ao Oscar de melhor canção, que Gaga interpretará na cerimónia. O drama, que é sólido mas perdeu já o Globo de Ouro de melhor filme e de melhor realizador, é sobre a lenta agonia de uma estrela country, a florescência de uma cantora estreante e a doce e agra relação que nasce no meio dos dois.
Também com oito nomeações corre o filme politico do ano (a propósito: que é feito do documentário ""Fahrenheit 11/9", exame de Michael Moore ao tempo da América de Trump? Eclipsou-se...), que é "Vice", com Christian Bale a vestir literalmente a pele de Dick Cheney, o arquiteto da "guerra ao terror" do reinado de George W. Bush, que é intrepretado por Sam Rockwell. A comédia dramática, expressão que tão bem definirá a presidência de George W, é de resto um festival de atores onde entram ainda Amy Adams (nomeada; faz de mulher de Cheney) e Steve Carell. A melhor caracterização é outra das candidaturas relevantes de "Vice". Estreia em Portugal a 14 de fevereiro.
Com sete nomeações, mas apanhando sobretudo categorias técnicas entre a candidatura a melhor filme do ano, está "Black Panther", de Ryan Coogler. É outro pasmo: trata-se da primeira primeira produção de super-heróis da Marvel a ser nomeada para melhor filme. Realce para a canção original nomeada, "All the star", que divide crédito por quatro compositores, entre os quais SZA e o grande-grandíssimo Kendrick Lamar.
Trilhando o seu próprio e singular terreno cinematográfico, "BlacKkKlansman", a delirante adaptação da história real de um agente negro do FBI que se soube infiltrar no âmago do grupo racista supremo e branco KKK, soma seis nomeações, incluindo melhor filme, realizador e ator secundário para Adam Driver.
A mesma surpresa atravessa "Bohemian Rhapsody", a "biografia-wikipédia" (isto é, limpa de engulhos e excessivos esclarecimentos sexuais) de Freddy Mercury, o extraordinário cantor e alma mater do grupo inglês de sinfonias rock Queen. Nomeado para cinco Oscars, o filme cavalga ainda o "momentum" dos Globos de Ouro, em que venceu nos departamentos de melhor filme e ator (Rami Malek, mimético excecional, é já o grande favorito e só Christian Bale lhe poderá fazer frente).
Duas ou três surpresas
Uma surpresa inversa apanhou pela calada "Green Book - Um Guia Para a Vida", drama que exibe a amizade florescente entre o pianista afro-americano Don Shirley (Mahershala Ali nomeado) e o seu motorista italo-americano (Viggo Mortensen, ator secundário) na América sulista e racista dos anos 60, que está nomeado para apenas cinco Oscars, mas incluindo melhor filme.
Desapontamento maior levou Damien Chazelle, o realizador de "La la land" que viu em 2017 fugir-lhe o Oscar de melhor filme naquela rapsódica rábula de enganos de Faye Dunaway e Warren Beatty (muito mais culpas para a precipitação dela do que para ele, que pelo menos se incredulizou perante o envelope errado...). O novo filme de Chazelle, "First man", história do primeiro homem a pisar a lua, e que tem o ultra-popular Ryan Gosling no papel de Neil Armstrong, recebeu apenas quatro nomeações e nenhuma delas nas categorias da chamada nobreza artística (efeitos especiais, edição de som, mistura de som e design de produção).
Nota fora de tempo num tempo dominado pelo movimento de denúncia das iniquidades de género e do #MeToo: desde que Katheryn Bigelow se tornou a primeira mulher a ganhar o Oscar da categoria de realização com "Estado de guerra", há nove anos, portanto, que apenas uma mulher, uma só, foi nomeada na categoria: Greta Gerwin, no ano passado, por "Lady bird" (que perdeu para Guillermo del Toro e "A forma da água"). Este ano não há uma única mulher nomeada nesse campo.
Não há mesmo um apresentador?
A cerimónia de entrega dos Oscars está, então, marcada para a madrugada europeia de 24 de fevereiro, em Los Angeles, Califórnia, no habitual Kodak Theatre, e a Academia ainda não revelou se terá ou não apresentador, o que é uma novidade absoluta em 91 anos. Chegou a ser anunciada a escolha do comediante Kevin Hart como apresentador dos Oscars 2019, mas o ator acabou por renunciar à posição após ter sido confrontado com afirmações homofóbicas, feitas há sete anos mas hoje (a internet nunca morre nem deixa nunca nada, nem a memória, morrer...) consideradas ofensivas pela comunidade homossexual.
Qual é a solução alvitrada? Todos os atores convidados, atores de "Lista A" pelo menos, farão a sua perninha na apresentação - e, presume-se, na comédia e comentário social que os Oscars sempre abonaram para conseguir entreter/aprisionar o espetador durante mais de quatro horas com um programa de televisão.
