
Bérénice Bejo confessa-se cada vez mais interessada em explorar outros registos além do drama
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A atriz francesa Bérénice Bejo conversou com o "Jornal de Notícias" sobre "Corte!", uma paródia aos filmes de zombies que já está nas salas de cinema nacionais.
Nomeada para o Óscar de Melhor Atriz, por "O Artista", realizado pelo marido, Michel Hazanavicius, Bérénice Bejo é de novo dirigida por ele em "Corte!", paródia aos filmes de zombies, remake de um filme japonês e a história de uma equipa que roda um filme de série Z e se vê confrontada com verdadeiros mortos-vivos. O filme esteve para se chamar aliás apenas "Z", mas a guerra da Ucrânia fê-lo mudar para "Corta!". Foi assim que foi visto na abertura do Festival de Cannes, pouco depois do discurso à distância do presidente ucraniano.
Que relação tem com os filmes de terror?
Este não é um filme de terror. É uma homenagem, mas não tem nada a ver com nenhum filme de terror em especial. É um filme divertido, uma paródia aos filmes de zombies. Mas gostava de entrar num filme de terror a sério. Deve ser divertido participar num. Tão divertido como quando brincávamos em criança e gostávamos de pregar sustos, de nos maquilharmos no Halloween. Ver um filme de terror já é outra história.
E esta rodagem, também foi divertida?
Mesmo que o plano sequência inicial seja bastante controlado, divertimo-nos. Há muitas emoções diferentes, mesmo infantis, jogávamos com imensos acessórios. Foi muito divertido. Tivemos de gritar, correr...
O Michel Hazanavicius não a queria no filme...
Eu estava muito tentada a fazer o filme, mas ele não queria. Pensava que eu não era aquela personagem. Ele pensava numa outra atriz. E tinha o direito, é ele o realizador. No seu processo de casting, ao princípio eu não era evidente. A mim não me aborrece nada ser segunda, terceira ou quarta opção.
Já lhe aconteceu?
Claro que sim. Quando fiz "O Passado", com o Asghar Faradi, a Marion Cottilard tinha sido a primeira opção. Finalmente fiz eu o filme e ganhei o prémio de interpretação em Cannes. O filme é meu, é tudo, o resto não me importa. O importante é que, quando somos nós a fazer um filme, que sejamos nós a personagem.
O que sentiu quando percebeu que o filme tinha de mudar de título, por causa da guerra na Ucrânia?
Primeiro houve uma reação em França, porque o Zemmour, um político de extrema-direita, fez um slogan, "Z como Zemmour". Começámos a pensar logo que devíamos fazer qualquer coisa com o título. Mas decidimos manter, porque o Zemmour não tem o monopólio das letras do alfabeto.
A situação com o símbolo russo na guerra na Ucrânia já foi diferente...
O Michel começou a receber mensagens de realizadores e de produtores, dizendo como seria duro ver um filme num festival internacional chamado "Z". Tornou-se óbvio que tínhamos de mudar o título. Já não era apenas Zemmour, mas a guerra. Levou-nos alguns dias a mudar o título, já tínhamos o cartaz, Mudar o título foi uma decisão de toda a equipa e estamos muito contentes com a decisão que tomámos.
O que pensou ao ouvir o presidente Zelensky?
Depois de o ouvir, ainda bem que mudámos o título. Foi também uma forma de mostrar a nossa solidariedade com o povo da Ucrânia.
Nestes últimos tempos tem alternado filmes dramáticos com filmes mais ligeiros. Há algum género em que se sinta mais à vontade?
Neste momento divirto-me bastante a fazer comédias. Com personagens que saem um pouco do normal. Tenho muita vontade de sair da casca. Não me apetece fazer drama só pelo drama. A não ser que seja drama à maneira de Pedro Almodóvar. Há 25 anos que faço este trabalho, já explorei bastante o registo dramático, tenho necessidade de alguma extravagância.
Dir-se-ia também que tem filmado quase tanto em Itália como em França...
Os italianos chamam-me e eu vou. A primeira vez foi com o Marco Bellocchio. Era uma coprodução com França, ele adora "O Artista" e convidou-me para entrar no filme. O Marco e eu tornámo-nos muito chegados, somos muito amigos. A brincar digo que a Marion Cottilard vai para a América, eu vou para Itália. Por mim está bem.
Depois da nomeação para o Óscar não ficou com vontade de filmar em Hollywood?
A América já tem a Marion Cottilard. Cada pessoa tem o seu lugar no mundo e o meu não é na América.
