
Foto: Bruce La Bruce/Facebook
Passa hoje no Queer Porto “The Visitor”, de Bruce La Bruce. O realizador de filmes pornográficos falou ao JN.
Aos 60 anos e com cerca de meia centena de filmes e vídeos, o canadiano Bruce La Bruce é um ícone de um cinema gay, explícito e assumidamente porno. O Queer Porto passa hoje à noite, no Passos Manuel, o seu último filme, “The Visitor”, uma variação do “Teorema”, de Pasolini, com um emigrante a dar à costa nas margens do Tâmisa e a penetrar numa família burguesa, encetando uma orgia de sexo com todos os seus elementos. Com uma obra que já mereceu uma retrospetiva no Museu de Arte Moderna, de Nova Iorque, “The Visitor” passou na Berlinale, onde Bruce La Bruce esteve a conversar com o JN.
Porque decidiu localizar esta história em Londres?
Há uma revista londrina, “doesnt-exist”, que dedica cada um dos números a um artista. Fizeram um dedicado a Antonioni, outro a Peter Greenaway e dedicaram-me um. Cruzam cinema e moda e decidi fazer uma revisitação de Pasolini em ficção científica. Fiz uma sessão fotográfica em Antuérpia e quando ia promover a revista em Londres os meus produtores conheceram uma organização que existe na cidade, a Apolitical, que representa artistas cuja obra é controversa ou demasiado política.
Como é que surgiu então a ideia de um filme?
Propus-lhes transpor toda esta ideia para um filme. Quando voltei para Toronto comecei a preparar o filme, a escolher atores por zoom. Só os conheci no primeiro dia de filmagens. Fui diretamente do aeroporto para o local onde filmei as primeiras cenas.
Foi um regresso a Londres…
Já lá tinha filmado em 1989, um filme chamado “Skin Flick”, um porno neo-nazi e acabei, por acaso, por filmar mais ou menos nos mesmos locais. Foi um pouco estranho voltar, quase trinta anos depois. Na altura tinha passado muito tempo em Londres, mas a novidade é que agora havia um ambiente anti emigração, a escalada da extrema-direita, os refugiados do Ruanda. Foi por isso que concebi o visitante como um refugiado negro. Mas estas situações existem agora em todo o lado, como aqui na Alemanha.
O filme é uma recriação específica do “Teorema”
Vi o filme do Pasolini tantas vezes, é quase um remake fiel. Quando se faz uma adaptação de Pasolini tem de se ser muito sério. O Pasolini é um dos grandes mestres do cinema e um dos meus heróis. Juntamente com Fassbinder, os dois grandes autores queer. Vi várias vezes os filmes do Pasolini, a Trilogia da Vida, os filmes sobre a patologia psico-sexual da burguesia. Admiro a sua dialética. Ser católico-marxista-ateu. Como é que se pode sustentar todas estas contradições? Quando se fala de Pasolini tem de se falar de religião.
Como é que se define em termos de religião?
Tecnicamente sou agnóstico. Mas tenho um fetichismo com o catolicismo. Fiz vários filmes sobre o catolicismo. Sou obcecado pelos santos católicos. Fiz também vários trabalhos fotográficos investigando a interseção entre o êxtase sexual e religioso. De certa forma são a mesma coisa. As freiras têm uma devoção pelos santos que se assemelha a um frenesim sexual.
Desde quando é que admira a obra de Pasolini?
Desde os meus tempos de estudante de cinema. Sou um cinéfilo fanático. Queria ser crítico de cinema, Estudei imenso análise de filmes. Nos meus vinte anos vi quase todos os filmes do Pasolini. O “Saló” teve um impacto muito grande em mim. Para o fim da carreira ele já ia na direção da pornografia.
Não é muito politicamente correto falar em pornografia…
Já falei com imensos realizadores, como o Paul Verhoeven, que adoravam fazer um filme pornográfico. A pornografia é a barreira final. Para se ser transgressivo, até onde é que podemos ir?
O Bruce faz filmes que considera pornográficos já há alguns anos. O que mudou desde então com o correr dos tempos?
Comecei por fazer filmes porno muito ingénuos. Não sabia como é que se fazia um filme porno, como era a indústria porno. Colocava a câmara a rolar e ia para a frente da câmara. Mas isso foi antes da chegada da internet e das redes sociais. Hoje em dia toda a gente é uma estrela porno. Nessa altura pormo-nos à frente da câmara a ter relações sexuais era uma coisa de loucos. Dei por mim a fazer sexo oral em festivais internacionais!
Mas a sua obra é apreciada também e muito pela sua qualidade cinematográfica.
Os meus filmes são acima de tudo obras de cinema, com um conteúdo político. Fiz remakes de Robert Altman, coloquei frases de Angela Davis na banda sonora. O meu cinema sempre foi muito político desde o início.
Qual o seu filme porno favorito?
Bom, em termos de realizadores, a minha escolha seria Wakefield Poole. Ainda tive o privilégio de mostrar filmes juntamente com ele, em Jacksonville, na Florida, onde ele vivia. Ele mostrou “Bijou”, um dos meus filmes porno favoritos, e eu mostrei “Hustler White”. Ele já tinha 80 anos, estivemos a conversar sobre os nossos filmes em frente a uma plateia. Estavam lá as parceiras de bridge dele, que tinham descoberto que ele tinha sido realizador de filmes pornográficos.
O que pensa do crescimento do moralismo no cinema? Até já inventaram a função de encenador de cenas de intimidade…
Já trabalhei com uma dessas pessoas num filme porno que fiz há dois anos. Foi a primeira vez. No cinema mainstream já há uns seis ou sete anos que trabalham assim. No porno começam a aparecer, o que não deixa de ser irónico. A mulher com que trabalhei nunca tinha feito um porno, passei o tempo todo a explicar-lhe por exemplo o que era dupla penetração. Ou como os atores têm ereção injetando não sei o quê no pénis. Na realidade a presença dela não ajudou muito.
Para o “The Visitor” não considerou então de novo uma pessoa assim na equipa…
Por acaso trabalhei com uma mulher fantástica. Nasceu em Ostia, onde o Pasolini foi assassinado. Sabia mais sobre Pasolini do que eu próprio. E também faz filmes porno como realizadora para a companhia dela. Considerei-a como fazendo parte da equipa. Fez com que toda a gente se sentisse confortável com o que estava a fazer.
Como é que se define, no mundo do cinema?
Sou um realizador independente. Acho que criei a minha própria categoria. Sou dos únicos a quem é permitido fazer pornografia e voltar a fazer filmes independentes, com maior orçamento, ou mesmo com financiamentos públicos. Mas nunca deixei de fazer pornografia. Sou um apoiante dos realizadores de filmes pornográficos, que considero serem artistas como os outros. Tenho a minha própria assinatura como realizador, não só em termos estéticos como na combinação do porno com a política.
E o cinema a que chamamos porno, mudou muito com a internet. Como é que vê a indústria porno hoje?
Os meus filmes porno preferidos são os dos anos de 1970, quando eram feitos em película. E as pessoas iam vê-los ao cinema, mesmo que fossem salas à parte, especializadas em porno. Havia uma experiência de grupo, havia menos vergonha envolvida no ato de ver pornografia.
Como é que foram os seus primeiros anos como jovem adulto?
Eu era um punk queer, nos anos de 1980. Dava-me com punks e anarquistas, comecei a fazer filmes em super8. Na América do Norte o movimento punk era altamente político. Contra a extrema-direita, contra Reagan. Escrevíamos manifestos, fazíamos banda desenhada, realizávamos filmes de sexo explícito. Também fazia fotografia. Era um movimento underground fortemente anti-establishment.
E ser gay, nesse período?
Nessa altura o movimento gay estava mais ligado à classe média e à burguesia. Foi por isso que me dirigi para o punk, era muito mais interessante, estética e politicamente. Mas também havia muita homofobia. Havia punks radicais, mas sexualmente convencionais.
Hoje a cultura gay quase se pode considerar, de certa forma, institucionalizada. Como é que vê esta evolução?
É verdade que existe um cinema queer muito convencional. Houve uma espécie de assimilação e eu sou sempre contra. Penso que a comunidade queer deve estar sempre na vanguarda, devem fazer as suas coisas fora das regras da ordem dominante, seja ela católica ou capitalista. Toda essa história da representatividade não é muito sincera. Talvez seja sincera, mas para mim é falsa. Mas também há um cinema queer muito sofisticado a ser feito em todo o lado.
A própria questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo não é evidente em todo o mundo…
Sou a favor. Toda a gente precisa de uma família. Sobretudo na comunidade gay, por terem sido rejeitados pelas suas próprias famílias. Mas também há muita intolerância em famílias do mesmo sexo, pessoas que apoiam a religião, os militares, o nacionalismo. É um pouco o tema de “The Visitor”, os oprimidos tornam-se opressores.
Como é que a sua família olha para o seu trabalho?
Os meus pais têm mais de 90 anos, estão casados há mais de 70. Não veem os meus filmes, mas desde que eu seja feliz e tenha sucesso, está tudo bem. Os meus pais não estudaram muito, o meu pai nunca foi à internet. Eu cresci numa quinta. Mas são pessoas muito inteligentes e muito liberais.
Não deixa de ser curioso ver o seu filme num festival como a Berlinale…
Os meus filmes têm passado em todo o mundo. Já fui selecionado para o Festival de Moscovo. Lembro-me que um dos grandes jornais locais publicou um artigo sobre mim onde me chamava o Trump do cinema porno!
