
Num livro de cariz autoficcional, autor de "Budapeste" entrelaça memõrias de infância com o presente
Foto: Patrícia de Melo Moreira / AFP
Vencedor do Prémio Camões em 2019 revisita os anos passados em Roma nos idos da sua juventude.
Sempre cioso da sua vida pessoal (raramente concede entrevistas e poucas vezes é visto em eventos sociais), Chico Buarque nunca precisou de ceder a ímpetos voyeuristas para ser uma figura tão familiar para muitos de nós. É como se através das suas canções e livros já o conhecêssemos tão bem como alguém com quem lidamos diariamente.
Todavia, o seu mais recente livro, “Bambino a Roma”, lançado não por acaso no ano em que se tornou octogenário, abre uma brecha nessa aura de relativo mistério que rodeia o Prémio Camões 2019. Ainda que sob a capa da autoficção, esse território difuso onde a realidade e a ficção se alimentam, o autor carioca enceta uma jornada temporal até aos idos da sua meninice.
Destino: a Roma onde viveu com a família entre 1953 e 1955, quando o pai, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, foi convidado a lecionar numa universidade italiana.
É um relato suculento de memórias o que Chico Buarque nos faz chegar, através da descrição de episódios nos quais fica evidente que o rapazinho de então não demorou muito a esquecer as saudades do calor do Rio de Janeiro e da praia de Copacabana pela monumentalidade da capital italiana. Integrado num colégio internacional onde conviveu com colegas de várias origens, o jovem colecionou rapidamente amizades, conquistando simpatias entre todos, mesmo à custa de algumas mentiras (como aconteceu quando garantiu que a bola de couro com que jogava tinha sido uma prenda de Gighia, o mítico jogador uruguaio que marcou o golo na final do Mundial de 1950).
Por entre as recordações dos primeiros amores, a narrativa é povoada também por figuras conhecidas, como Vinicius de Moraes, ou o Papa Pio XII, cuja avançada velhice o deixou estarrecido.
Se o corpo do livro radica no passado, com a evocação (mesmo que livre) de infância, as derradeiras páginas transportam-nos para o presente, em que vemos o narrador a procurar ir no encalço dessas memórias que teimam em não ser apagadas da memória. De volta às ruas familiares de Roma, persegue o passado em todo o seu esplendor.

