
José Carmo/Global Imagens
Artistas do Circo de Natal do Coliseu do Porto contam ao JN o que acontece dentro e fora de palco.
"Que comece a festa do circo!" - o grito é de Paulo Azevedo, que é narrador do espetáculo e um verme do deserto. É uma personagem peculiar neste circo, essencial para a história. A cena desenrola-se no deserto entre um grupo de "azarentos" que lá vive e uma companhia de circo que fugiu da cidade e está perdida. A narrativa vem da fábula inacabada "Os gigantes da montanha", de Pirandello.
Estamos no Coliseu do Porto com a companhia local, a lotação está esgotada. Hoje há espetáculo (14 horas); o próximo é domingo (16 horas). Até 8 de janeiro haverá mais oito sessões.
Ouve-se música, vê-se dança e fogo e vários números clássicos: suspensão capilar, rola-bola, manipulação de diábolos, roda da morte. É o Coliseu do Porto a reinventar-se: os atos são ancestrais, mas o espírito parece novo. E não há animais. Antes de abrir a cortina, falta ainda uma hora, o Coliseu está em alvoroço nos bastidores. Em quatro andares de camarins, todos estão ocupados. Espreita-se e assiste-se à acelerada preparação visual de cada artista: pintam as caras, vestem as roupas coloridas, "entram" na sua personagem.
Carmo Madeira, manipuladora de fogo, começa a aprontar-se muito antes dos colegas, a sua logística envolve lume: "É vestir e maquilhar, mas depois há o fogo, que é um parâmetro a ter muito cuidado, tenho de molhar e sacudir todo o material", explica ao JN.
"O ambiente que se vive é de grande intensidade e, ao mesmo tempo, muito descontraído. Chegamos a fazer quatro sessões num dia e o cansaço é muito", diz Rui Paixão, diretor artístico do Circo do Coliseu e que é também o palhaço que quer muito ser o vilão. Entre estas quatro sessões diárias, existe um intervalo de duas horas - os artistas têm de descansar e largar o figurino.
Carolina Vasconcelos e Emília Parol, as gémeas do Circo do Coliseu, sentem que a personagem "acaba por ficar no corpo". "Eu sinto mesmo que vivo no deserto, porque estamos aqui muito tempo e são muitas sessões", acrescenta Emília Parol, divertida.
"Há energia coletiva"
Neste circo, os artistas ficam em cena, no palco, durante quase todo o espetáculo. E isso é um pormenor valioso - além de evitar entradas e saídas constantes, fortalece o espírito do grupo e a união criativa. "Somos uma família", diz Rui Paixão, o diretor.
Nico Pires, especializado na arte do diábolo, gosta muito deste circo comunitário: "Alimento-me dessa energia coletiva e abre-me muito os outros sentidos. Aqui temos de nos abrir e escutar os outros, mesmo dentro do nosso número".
O próprio público é impulsionador de um bom espetáculo: "O público pertence a esta família e estamos todos a construir o espetáculo", sublinha Rui Paixão.
Artista sem mão e pernas
Paulo Azevedo, o narrador vestido de verme, diz que "aqui criamos uma família muito depressa". Ao mesmo tempo, o público é também o que mais o surpreende. O artista nasceu sem mãos e sem pernas, o que levanta a curiosidade das crianças, mas dentro de palco, a situação altera-se: "Quando entro em cena, ninguém me pergunta nada, a personagem já é esta, é um verme. É isto a magia do circo".
Emília Parol, uma das gémeas, fala em gratidão: "Divirto-me a divertir as pessoas, ouço-as dizer "ai estas gémeas!" e isso é muito gratificante. Nós, os artistas, vivemos disso, vivemos de dar. É a magia do circo".
