
"Atlas da Boca" de Gaya de Medeiros e Ary Zara
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GUIdance apresentou na noite de quinta-feira "Atlas da Boca", dos artistas trans Gaya de Medeiros e Ary Zara, num lotado Centro Internacional de Artes José Guimarães. Festival internacional de dança contemporânea de Guimarães decorre até sábado.
Há uma característica enraizada no ser português que enlouquece os estrangeiros, o facto de nunca se dizer exatamente o que se quer e ficar pela sugestão, apesar de todo o palavreado dispendido. Quando Gaya de Medeiros, mulher trans aterra, nas artes perfomativas nacionais com "Atlas da Boca", onde discorre sobre o que sai da boca e o que entra na boca, com Ary Zara, consegue criar um jogo pérfido.
Começa por contar a história de um peixe faminto que vê um anzol e ali fica a pergunta no ar: "O que vamos fazer? Comida e morte?", pergunta ela com as pernas no ar, sustentadas por um elemento do público e com os lábios como uma sanguessuga capaz de sangrar Ary Zara.
O público sabe que pela boca morre o peixe, mas desengane-se quem pensa que ela é o peixe, ela é o anzol e já nos disse, logo à cabeça. No isco ela põe-nos sexo. Mas vai dissecar o tema. Numa primeira camada biologicamente: características físicas, genéticas, fisiológicas, distinções entre machos e fêmeas e continuam os dois a jogar o tempo todo. Garante a um elemento do público que quer entrar com ele de mão dada numa igreja, para se "cansarem os dois" e promete cada manhã "tratar cada centímetro do seu corpo" e relembrá-lo "cada noite o porquê do seu amor". Faz a promessa que não lhe dará filhos e deixa cair que com o Ary a coisa já pode ser mais perigosa. Ary conta-nos que perdeu o volume que usa nas calças, num voo da Easyjet e o público ri muito.
Numa segunda camada, o sexo aparece como classificação social: identidade de género. Quem são estes dois intérpretes, como querem ser tratados? Querem ser masculino ou feminino, ou não querem ser nada? Ary grita que Gaya é muito masculina a dançar, e ao microfone espicaça o tempo todo: "tens de ser sexy e fluída e não rígida, Gaya tira o macho que há em ti". Ary apresenta-se como um homem forte que luta, mas a sua avó contava que as tradições se passam "de mulher em mulher e nunca para os homens". O que se perde socialmente quando se muda de género?
A terceira camada refere-se ao sexo como objeto gramatical, porque são os substantivos masculinos ou femininos e porque não têm os verbos género? Mas, todos os verbos relativos à boca têm conotação sexual :" comer, morder, beijar, chupar, lamber" e estes vão aparecendo em gigante, na parte de trás da sala.
Por fim a atividade sexual, com um foco vão apreciando os seus corpos nús, como quem entra num local escuro e desconhecido e precisa de estar muito focado. Não importa a anatomia, nem quem tem o quê, o nível de comunhão e de partilha entre os dois é comovente. "Ceguei a minha dor para que ela não encontre o teu coração", nunca saberemos a dor deles, porque nos contam tudo a sorrir.
Esse mesmo misticismo, entre os dois, resultou em vários trabalhos artísticos entre os quais a curta "Caroço de Abacate", de Ary Zara, onde Gaya é protagonista que foi nomeada para os Oscars.
O aviso foi dado, ela era comida e morte, comida para a desinformação e morte ao preconceito. "Atlas da boca" tem 20 datas europeias em 2024, no âmbito da rede Aerowaves.
O GUIdance segue esta sexta-feira, com "Beings" da Shimmering Productions, às 21.30 horas, no Teatro Jordão. Começa agora a viagem à Ásia prometida na programação.

