
"Coração nas Trevas" de Luc Brahy
Direitos Reservados
Depois do filme de Coppola, "Coração das trevas" regressa à misteriosa África original.
Ainda sob o âmbito de um ano que foi pródigo em adaptações de obras literárias em banda desenhada, abro 2026 com mais um exemplo: "Coração das trevas", de Luc Brahy, baseado no romance homónimo de Joseph Conrad, que deve parte da sua fama ao facto de ter servido de base ao filme "Apocalypse now", de Francis Ford Coppola.
Após a leitura do romance, ver a sua adaptação no filme ou como é agora o caso, em banda desenhada, permite confrontar a imagem mental que formámos ao lê-lo, com a interpretação que outros lhe deram, em suportes diferentes. Próxima ou não da nossa visão, diferindo mais ou menos dela, permite uma nova releitura e, no mínimo, leva-nos a descobrir aspetos díspares da história que nos é contada.
Naturalmente, a diferença de fundo entre o filme e a banda desenhada que a Relógio D"Água disponibiliza em português, é o abandono do Vietname, o cenário escolhido por Coppola, para regressar à África negra original de Conrad, que vamos entrevendo ao longo do sinuoso rio Congo.
Uma África ainda exótica e nebulosa do final do século XIX, onde o tempo não passa, onde o clima opressivo convida a não fazer nada, onde os contactos com a dita civilização e as suas vantagens se tornam mais difíceis e escassas à medida que o protagonista se vai embrenhando na selva, rumo ao "coração das trevas" para que remete o título. De seu nome Marlow, está no Congo com a missão de restabelecer o lucrativo comércio de marfim que tem origem num certo Kurt, cuja saúde mental todos colocam em causa.
Balizado por estas dúvidas, a atração dos valiosos dentes de elefantes, os mistérios que a região encerra e as suas especificidades tão difíceis de entender e aceitar por brancos civilizados, "Coração das trevas" é uma obra densa e pesada, que narra uma viagem atrasada por sucessivos incidentes, o caráter dos locais, o desinteresse dos ocidentais já estabelecidos e acondicionados ao clima e a dificuldade de chegar até Kurt. Nela, Marlow, assaltado por uma descrença crescente, vai embrenhar-se tanto no coração de África quanto no âmago dos que o vão rodeando, num relato opressivo acentuado pelo traço impreciso de Luc Brahy e pelos tons de Cyril Saint-Blancat.

