
As pranchas de "Corpo de Cristo" foram criadas através de técnicas mistas: caneta de feltro em papel e bordados de linha sobre pano
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Autora espanhola Bea Lema expõe doença mental da mãe, que recusou sempre ser tratada, numa obra autobiográfica surpreendente de BD.
Se há mérito que se deve apontar à banda desenhada, é a forma como tem sabido reinventar-se. Nascida "cómica", enveredou pela aventura, procurou suportes para lá dos jornais que lhe assistiram ao parto, inventou super-heróis, virou alternativa, aventurou-se no relato de grande extensão, aborda temáticas atuais, controversas, desafiadoras. E, aqui e ali, ousou experimentar, fazer-se diferente, recriar-se, não só temática mas também graficamente.
Não passando, obviamente, de uma exceção, às regras criadas para serem quebradas, "Corpo de Cristo", uma edição recente da Iguana, espelha bem muito o que fica atrás escrito.
Convidada do festival Amadora BD 2025, a autora galega Bea Lema apresenta um trabalho artesanal que lhe ocupou muitos anos de vida - bem além do ofício artesanal que a BD sempre foi. Como um olhar atento revelará, as pranchas foram criadas através de técnicas mistas: caneta de feltro em papel, bordados a preto e branco, ou coloridos, sobre pano. Não surpreende, por isso, a atenção e a surpresa que os seus originais suscitaram na Amadora ou a estranheza que a leitura provoca ante a diferença marcante que as páginas ostentam.
Prémio Nacional del Comic 2024, em Espanha, "Corpo de Cristo", no entanto, vai bem além do seu experimentalismo gráfico, pois a força desta obra autobiográfica assenta no modo como a autora se expõe, ao abordar a relação com a sua mãe, uma mulher a quem foi diagnosticado um distúrbio mental que sempre recusou tratar, preferindo buscar na via religiosa e na crendice o que a ciência lhe podia dar, daí o título da obra.
Desde muito cedo responsável pela mãe, a jovem Vera, alter-ego de Bea Lema, viu-se a braços não só com a mãe, os seus demónios e os excessos e problemas causados pela doença, mas também com a incompreensão - e mais tarde o cansaço perante situações recorrentes - da restante família e vizinhos.
Ao longo dos anos narrados, o crescimento de Vera é marcado pela mudança de perceção, com a superstição, os demónios e os exorcismos a darem lugar ao diagnóstico e à psicologia, no seio de uma sociedade patriarcal, pobre e católica que, apesar de avanços e descobertas, desde sempre tem revelado dificuldades em lidar com as doenças mentais.
"Corpo de Cristo"
Bea Lema
Iguana
184 páginas
20.45 euros

