
Cristina Clara vai apresentar o tema na segunda semifinal do festival, este sábado
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Convidada pela RTP a participar no Festival da Canção, a artista vai florear o palco ao ritmo da morna, levemente acompanhada de fado, com o tema “Primavera”.
Da música, Cristina Clara nunca pensou fazer carreira. Até mudar-se para Lisboa, onde acabou por descobrir a paixão pela música tradicional portuguesa. Em 2021 decidiu partir à aventura e encarar um novo desafio, editando o álbum de estreia “Lua adversa”.
De lado não deixa a enfermagem, área de formação, que concilia com a mais recente paixão. Entre a correria de um trabalho a tempo inteiro e a excitação de colocar-se em grande plano num festival desta dimensão, o bichinho por criar um segundo álbum está a crescer.
Para já, o foco é no próximo concerto, sendo que já tem datas marcadas para dia 15 e 16 de março, no Centro Cultural e de Investigação do Funchal, na Madeira, onde, além de regressar ao seu reportório de estreia, levará novos temas, já pensados para o futuro.
Em entrevista ao JN, Cristina Clara partilha como este novo caminho começou e o entusiasmo pelo convite da RTP em participar na atual edição do Festival da Canção. A primeira semifinal aconteceu sábado passado, dia 24. Os próximos dez concertos irão decidir os restantes temas que irão à final e é exatamente após uma semana, próximo sábado, dia 2, que Cristina Clara irá apresentar a sua proposta “Primavera”.
Como recebeu o convite da RTP para participar no Festival da Canção?
Foi bastante emocionante. É um cliché, mas eu não estava mesmo a contar. Achava que era um convite que surgia quando as pessoas têm uma carreira mais longa. Contudo, confesso que por acaso ultimamente nem tem sido essa a tendência. A RTP tem convidado, cada vez mais, autores jovens. Quando recebi a notícia estava no Norte, onde tudo começa. A minha manager telefonou-me a dizer que Antena 1 ligou e queriam convidar-me para o Festival da Canção. Achei ótima a ideia, claro que sim. Ainda não tinha uma canção pronta, mas a resposta foi logo "sim", sem pensar muito. Gosto sempre de aceitar desafios, nunca vacilo, pelo menos nas minhas áreas, claro.
Sentiu que este desafio está fora da zona de conforto ou está confiante?
Só percebo agora, com a movimentação à volta do Festival da Canção, que há uma certa cultura de fãs acérrimos, que têm uma ideia muito fechada do que é o festival, onde as músicas têm de ter certas características. A minha música é um pouco polémica no contexto do festival, porque não tem aquela característica típica de ser uma música com um arranjo eletrónico. Percebo que isso seja um pouco controverso, mas, na verdade, na altura pensei que se me convidaram a mim foi porque querem que eu leve aquilo que eu faço. Então, o meu raciocínio foi levar um trabalho que seja coerente com aquilo que eu faço, que acredito e não fazer um produto para o Festival da Canção. Acho que não seria tão sincero e não vai ao encontro com o que eu tenho feito até agora. Neste momento da minha vida senti que era uma oportunidade de levar a mais gente aquilo que eu faço, do que criar uma coisa específica para um propósito. Por isso, não acho que esteja fora da minha zona de conforto.
Qual é a sua principal inspiração?
Pensei primeiro no contexto do Festival da Canção, a representar Portugal e que seria interessante levar algo que representa não só a música que faço, mas também o que eu entendo que é a música feita em Portugal. Pelo menos onde me movimento e à minha perspetiva. Movimento-me no domínio da chamada música popular, urbana, como é, por exemplo, o fado, a música tradicional portuguesa. Enfim, tenho muitas influências de músicos de Cabo Verde e do Brasil, porque estou muito próxima de vários dessas regiões que vivem em Lisboa. Então o meu trabalho tem sido em parceria com eles. Esta foi a minha escolha mais imediata. Este tema, que acabei por escolher, é composto por letra minha e música do Jon Luz, e é muito influenciada pela morna, um género musical que me diz muito, pois tem uma pulsação muito própria, que eu sinto quase como se fosse uma caminhada. Vai caminhando, caminhando, até atingir uma explosão. Senti que fazia sentido neste contexto. Acho que a música tem algo de épico, que eu entendo não é imediato.
Como foi o processo criativo?
Nasceu em conjunto, continuamente a experimentar. O Jon ia propondo e eu acompanhava a cantar, por cima da harmonia. A música foi surgindo assim, mesmo em parceria. Enfim, senti que simbolicamente esta música era a que fazia mais sentido para um lugar de apresentação, a representar uma cultura. Em que acredito muito. Nesta cultura, onde músicos de diversos lugares se encontram e por isso surgem musicalidades fruto do cruzamento entre várias influências.
O que distingue a sua canção?
É uma música que de facto distingue-se das outras, para bem ou para mal (risos). Isto para dizer que não tem nada de eletrónico. Talvez a mais próxima será do Buba Espinho, que tem um universo similar, dentro da música tradicional, embora já com um pezinho no pop. Enfim, a minha música é exclusivamente acústica. Talvez até com a maior diversidade de instrumentos. Não foi uma música construída para servir um propósito. A poesia, admito, que não é óbvia. Atualmente as canções quase todas têm uma letra tendencialmente mais quotidiana. Não estou a dizer que isso é mau, mas acho que há um certo destreinamento dessa poesia que não é tão óbvia, que é mais metafórica. Há um certo preconceito. Já eu, sou realmente uma amante da poesia e gosto de poetas como Florbela Espanca, Miguel Torga, Cecília Meireles. Gosto das imagens que eles criam e acho que é libertador um tipo de letra que permite várias interpretações. Que fala de liberdade e de partir de um lugar escuro para um lugar de florescimento, quer seja pessoal ou coletivo, isso é facto. Foi uma inspiração também num momento pessoal, de rutura, com o passado e enquanto andava à procura da minha voz. Simultaneamente, quando eclodiu a situação no Médio Oriente, estava muito envolvida em debates. Por isso, neste momento bastante invernoso, decidi fazer uma música que seja de encorajamento, que fale sobre uma primavera que vem aí. Simpatizo muito com a frase budista: "O inverno nunca falha em tornar-se primavera". Parece meio ingénuo, mas acaba por ser bastante encorajadora. No excerto poético, falado, optei pelo crioulo, de São Vicente, Cabo Verde, pois reflete a mensagem central que espelha esta frase.
Sente que “Primavera” dá continuidade ao primeiro álbum ou algo mudou?
Sinto que tem ligação com o que eu já fiz anteriormente. Até porque ele foi produzido em parceria com o Eduardo Mirando e o Pedro Loch, que produziram o meu primeiro disco. Existe esta filosofia musical que nos une, que nos identifica. Agora tem esta novidade de um compositor cabo-verdiano. Primeiro fiz a ponte entre Portugal e Brasil. Agora vem este terceiro elemento do triângulo, que é Cabo Verde. São estes os três eixos em que eu me movimento mais.
Primavera conta uma história? Como abordou o tema?
Houve uma altura em que eu e o Jon Luz trabalhamos em aproximar o fado e a morna, porque são harmonicamente muito parecidos. Em termos de temática, são ambos muito dolentes. O fado acaba por ter uma certa urgência que a morna não tem, mas são muito emocionais. Falam muito de saudade, sentimento, de perda, afastamento, amor. Ou seja, aqueles clichés que nos unem enquanto seres humanos. São as duas canções urbanas dos dois países e, portanto, como eu me interesso muito por este género, esta música surgiu assim. Algumas acham que é uma morna, outros fado, o que é bom porque vai exatamente ao encontro daquilo que eu acredito. Sem etiquetas. Queria muito falar a partir de um lugar escuro. Para um lugar mais luminoso. Tanto a nível pessoal como a nível global. Uma mensagem de encorajamento, de como nós próprios a partir da nossa voz, dos nossos pequenos passos rotineiros podemos gerar esse movimento. Quando gravamos o videoclipe, e estava rodeada de flores, apercebi-me que a música tem de ser mais do que um objeto. Tem de ser um movimento, uma mensagem. Chamei uns amigos músicos para irmos ao Centro Social do Bairro Quatro Cruz, em Lisboa. Um lugar que reúne pessoas diferentes de várias gerações. Levamos as flores e cantamos e falamos com eles sobre a “Primavera” e até canções relacionadas com a estação do ano, dentro do reportório tradicional. Até agora talvez tenha sido destes movimentos do festival que mais me emocionou. O importante para mim era escrever sobre algo que nos diz muito e depois levar isso para a vida. Mais do que só escrever uma canção bonita e que fique no ouvido, que tenha um refrão orelhudo. Já me disseram que esta canção não entra logo, mas à medida que se vai ouvindo vão.se descobrindo novas características. Acho isso interessante e que ela própria também vai ganhando um novo sentido quando é levada para o quotidiano e para o encontro com as pessoas.
Como vai ser a apresentação em palco de “Primavera”?
Ainda não posso dizer tudo, porque vou revelar faseadamente nas redes sociais. Mas já posso confirmar que não vou estar sozinha. Vão estar alguns músicos comigo, a representar uma parte específica do que está no arranjo da canção e daquilo que tem vindo a ser também uma área musical que eu tenho explorado mais. Enfim, não posso dizer mais, mas vai ser bastante diferente do que a música sugere à partida. O que retirei do instrumental para levar à apresentação ao vivo, talvez não seja tão expectável e até surpreendente.
Sentiu que participar no festival impactou a carreira?
Em termos da visão que tenho do meu próprio percurso, é um estímulo ser reconhecida pela RTP e motiva-me para construir algo cada vez mais consistente. Agora a repercussão que terá, só saberei depois. Para já, todo o processo e toda a aprendizagem para construir algo da dimensão do festival, tem sido ganho imenso.
O que é importante retirar desta experiência?
Gostava sobretudo de chegar ao momento, que ainda não cheguei, de só desfrutar. Sem o stress, sem trinta mil coisas para fazer. Chegar lá ao momento da atuação e conseguir só usufruir com as pessoas e conseguir criar laços com as pessoas que lá vão estar.
Tem alguma novidade do próximo álbum?
Agora estou a focar-me no festival. Ainda por cima, tenho outro trabalho, de horário completo. Não trabalho no hospital, mas trabalho numa empresa online relacionada com ensaios clínicos, na área da formação. Daí focar-me no festival. Pensar em todos os pormenores. Desde a conceção da música, até ao cenário, até ao outfit, a comunicação. Tudo é estimulante. No final do ano começarei provavelmente a gravar já o próximo disco. Espero ter este ano novidades nesse sentido.
Quando começou a paixão pela poesia?
Fui sempre muito incentivada a ter um olhar poético sobre as coisas, muito pela minha mãe, que é uma grande apreciadora de poesia e que sempre, tanto a mim como à minha irmã, nos pôs muito em contacto com a poesia escrita. Como foi sempre muito treinado durante toda a minha vida, da literatura passou para uma forma de olhar todas as coisas que ia fazendo. Mesmo na enfermagem, acho que um olhar poético sobre o trabalho ajuda a enfrentar situações desafiantes. Ver a poesia que existe nas coisas aparentemente quotidianas e que à partida não seriam poéticas, traz um propósito aquilo que se faz e amplia as possibilidades e a nossa própria autoestima. A diferença que não faz à nossa mentalidade conseguirmos utilizar a nossa imaginação para nos proteger e nos levar perante uma mesma realidade ou um caminho completamente diferente. Acho que este é o conteúdo poético que procuro diariamente e que sinto que irá continuar a abrir caminhos, mesmo no inverno.
