A edição fac-similada do original dactiloscrito da "Mensagem", que foi lançada ontem, comemorando os 75 anos da edição original, mereceu apreciações divergentes de especialistas pessoanos consultados pela agência Lusa.
Enquanto Jerónimo Pizarro a qualifica como "uma edição comovedora realmente idêntica ao original" e Richard Zenith sublinha que ela "aproxima [o leitor] do próprio fabrico do Fernando Pessoa", Fernando Cabral Martins acha-a "muito interessante", mas considera "um pouco estranho" que ela não inclua qualquer espécie de estudo crítico sobre a obra.
"É, de facto, uma reprodução idêntica do original, reproduz o objecto e, nesse sentido, é um livro-objecto. Tem, por isso, um valor de fetiche, é por isso mesmo que ele é feito", disse.
O académico alertou ainda para o facto de que o que é reproduzido nesta edição não corresponde à edição original, porque Pessoa voltou a fazer correcções já sobre as provas do linótipo, antes da impressão da primeira edição. "É importante, sobretudo, retirar o equívoco de que esta é que é a edição original. Não é, a forma final não é aquela", afirmou o professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
O escritor, tradutor e investigador Richard Zenith frisou ainda que a principal modificação que o dactiloscrito fac-similado agora editado sofreu foi o próprio título da obra, que do original "Portugal" passou ao final "Mensagem".
"Não é pouca coisa. E Pessoa ainda fez modificações no seu exemplar da própria edição original da obra, tendo em vista uma segunda edição", sublinhou.
Jerónimo Pizarro, investigador do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa e autor de edições críticas da obra de Fernando Pessoa, espera que "este seja o início de edições facsimiladas de outros escritos de Pessoa".
"Mensagem" foi o único livro de poemas em Português que Fernando Pessoa publicou em vida, a 1 de Dezembro de 1934.
Para assinalar os 75 anos da publicação, foi apresentada ontem a edição especial de "Mensagem" - o poema mítico nacional que Pessoa decidiu publicar exactamente a 1 de Dezembro, por ver nessa edição o sinal de uma "Restauração" espiritual e o emblema da sua preocupação patriótica.
A sessão de lançamento decorreu na Biblioteca Nacional, em Lisboa, à guarda da qual se encontra esse original do poeta. O livro estará à venda ao preço de 40 euros.
