
Dolores Chaplin esteve em Lisboa e falou com o JN sobre o legado do avô, numa altura em que "O Garoto de Charlot" regressa às salas de cinema. "Esse filme é um grande grito de liberdade. E de amor. Fartei-me de rir com o filme, mas agora não consigo parar de chorar", revelou.
Há cem anos estreou "O Garoto de Charlot", primeira longa-metragem de Charles Chaplin, agora em sala, numa cópia nova restaurada. Jurada no recente Lisbon & Sintra Film Festival, Dolores Chaplin, 45 anos, neta de Charles Chaplin e bisneta do dramaturgo Eugene O"Neill, falou-nos do legado do avô, numa altura em que produz um documentário sobre as suas origens ciganas.
Pode dizer alguma coisa sobre o documentário que está a preparar sobre o seu avô? Quando pensamos saber tudo sobre Charles Chaplin, há sempre novas abordagens.
É a primeira vez que a própria família se debruça sobre ele. É uma viagem pessoal, a do meu pai, Michael Chaplin, para se reconectar com as raízes ciganas do pai dele. Há coisas que ainda não posso revelar, mas vamos revisitar a obra de Charles Chaplin segundo uma perspetiva cigana.
É uma grande revelação para muitos
Todos os artistas são influenciados pelas suas origens, pela sua infância. E mesmo o meu avô desconheceu as suas origens ciganas até ter trinta e tal anos. Era algo de que se orgulhava muito.
O que representa este trabalho para o seu pai?
Ele saiu de casa muito cedo. Estava em conflito com o pai, quando era adolescente e jovem adulto e este filme é como uma reconciliação. Onde se podem reunir é nas suas origens ciganas. É algo de muito emocional, voltar às nossas raízes, é algo que todas as famílias deviam fazer.
A Dolores nasceu em 1976, um ano antes do desaparecimento do seu avô. Lembra-se da primeira vez que percebeu que o seu avô era uma pessoa importante?
Quando era criança lembro-me de me dizerem que o meu avô era aquele homem dos filmes. Para mim era apenas uma personagem. Cresci muito longe de tudo, no sul de França, numa quinta. Os meus pais eram muito boémios. É claro que quando ia a casa da minha avó havia sempre muitos atores e gente do cinema, mas eu era muito inocente.
Os seus colegas da escola não falavam disso?
Uns diziam que eu era da família de Charles Chaplin, outros diziam que éramos uns impostores. Quando chegava a casa tinha de perguntar. O meu irmão mais novo até dizia na escola que era neto do Louis de Funés, estava mesmo convencido disso. Só mais tarde, quando comecei a ser atriz, é que descobri o trabalho do meu avô.
Ter o apelido Chaplin é um prazer ou é também um fardo?
Obviamente as duas coisas. É como os filmes dele, são felizes e depois são tristes. A vida em si está carregada de alegrias e de tristezas. Não tem necessariamente a ver com o nome que temos. Mas na maior parte dos casos é um prazer.
A família é grande, há ocasiões em que se reúnem todos ou estão muito afastados?
A família está espalhada pelo mundo fora, mas costumamos a ver-nos. Uns mais do que outros. Passei algum tempo em Madrid e vivi com a minha tia Geraldine. Também vejo algumas tias quando vou à Suiça.
Tem um filme favorito de Charles Chaplin?
É claro que adoro "O Garoto de Charlot", é um dos meus favoritos. O "Luzes da Cidade" também. E "Um Rei em Nova Iorque". O meu pai é o miúdo nesse filme. Adoro vê-lo, está tão bonito. E é muito relevante, o que diz no filme, sobre a possibilidade de se viajar sem passaportes. Tem muito a ver com o que se passa hoje, com todos estes controles.
A defesa da liberdade é um dos grandes legados de Charles Chaplin...
O discurso de "O Grande Ditador" nunca foi tão relevante. Músicos como os U2 ou os Coldplay usaram o discurso no início de concertos, há artistas que o usam em exposições, realizadores de cinema também. O meu pai contou-me que se tinha portado mal na escola e o professor obrigou-o a a copiar o discurso vinte vezes. Quando chegou a casa disse-lhe e ele ficou preocupado porque não sabia se o discurso ainda fazia sentido.
Vamos ver de novo "O Garoto de Charlot", no seu centenário. Quais são as suas emoções ao ver e rever o filme?
Desde miúda que gosto do filme. O Jackie Coogan está tão bem e a história é tão maravilhosa. E agora que tenho um filho ainda é mais emocionante. Adoro a relação que eles têm, a cumplicidade. É um grande grito de liberdade. E de amor. Fartei-me de rir com o filme, mas agora não consigo parar de chorar.
