
Elisa
Carolina Santiago
Vencedora do Festival da Canção 2020 apresenta o álbum de estreia esta quinta-feira na Casa da Música, no Porto.
Elisa, natural da Ponta do Sol na Madeira, venceu o Festival da Canção 2020. No entanto, a pandemia veio impossibilitar a realização da final da Eurovisão, na qual representaria Portugal. Agora, aos 22 anos, realiza o segundo concerto de apresentação do álbum de estreia na Casa da Música, no Porto. Todavia, "não quero deixar que isso me deslumbre", afirma em entrevista ao JN.
Se olharmos para o início da sua carreira verificamos que, com apenas 15 anos, participou no programa de televisão "Ídolos". O que é que de melhor essa participação trouxe para a sua vida?
O sentimento de responsabilidade. O "Ídolos", talvez as pessoas que estão em casa a ver não saibam, é super cansativo. Nós não chegamos lá e fazemos logo a audição. Ficamos horas à espera. Lembro-me que cheguei a fazer várias coisas por volta da 1 da manhã. Poderia apenas ter desistido, mas assumi a responsabilidade e o compromisso.
Ainda esteve um ano num curso de Jazz no Conservatório de Música da Madeira, mas depois rumou até à capital para estudar na Escola Superior de Música. Como foi o processo de adaptação?
Eu diria que ainda estou em adaptação. Vim para Lisboa em 2018 mas sinto que ainda estou a tentar adaptar-me. Isto é muito diferente da Madeira, em todos os sentidos. Em Lisboa, e isso é algo com que fiquei super entusiasmada e ao mesmo tempo perplexa, estão sempre a acontecer coisas. Era segunda-feira e havia uma jam session, no domingo continuava a haver concertos... Na Madeira, os dias em que acontecem coisas são as sextas, sábados e, às vezes, quintas. Por isso, foi sair de um sítio para entrar noutro completamente diferente. Foi complicado não ter cá a minha família, em parte devido às saudades, mas acho que todas as pessoas que saem de casa para estudar em algum sítio sentem isso.
Vai a casa com regularidade?
Não com tanta regularidade como eu gostava, até por causa dos concertos que, finalmente, estão a começar a aparecer. Mas, pelo menos, no Natal e um mês nas férias de verão tento ir, até para buscar inspiração e um pouco de sanidade mental.
Como surge a participação no Festival da Canção?
Costumo dizer que as coisas em Portugal Continental aconteceram através de acasos muito bonitos. O Festival da Canção foi um deles. A Marta Carvalho foi convidada para compor para o festival e eu conheci-a mais ou menos nessa altura. Passado uns tempos, ela pediu-me para ir à Great Dane [estúdios de gravação em Paço de Arcos] e convidou-me para cantar a música dela. Ao início não acreditei, mas depois a música veio e as coisas aconteceram de uma forma muito natural e bonita.
Estava à espera do desfecho ou foi uma surpresa total?
Foi uma surpresa total. No meu ano havia imensas músicas super fixes e nomes muito conhecidos. Nada diria que uma rapariga que ninguém conhecia iria ganhar. Havia artistas tão bem estabelecidos que nós nem pensávamos que iríamos passar da primeira semifinal. Foi mesmo surreal.
Venceu o Festival da Canção em 2020 mas, devido à pandemia, acabou por não haver Eurovisão. Foi uma sensação agridoce, não ter a oportunidade de representar Portugal?
Sim. O Festival da Canção era o bilhete direto para a Eurovisão, mas aconteceram coisas muito maiores e mais importantes. Ou seja, não me senti injustiçada. Senti-me triste como fã porque, como concorrente, sabia que era algo que não tinha a ver diretamente comigo ou com qualquer outra pessoa.
O tempo passou e, o ano passado, lançou o álbum de estreia, "No meu canto". Tem algum tema preferido?
Eu sei que não se deve dizer que temos temas preferidos mas "Na Ilha" é muito especial para mim. Fala sobre a minha casa e foi feito numa tarde em que estava super triste, com imensas saudades. Agora oiço [essa canção] para me confortar. Por esse motivo, talvez seja o tema que eu mais gosto do álbum. Mas todos os outros são muito importantes para mim.
Se fizermos scroll na sua conta de Instagram percebemos que a capa do álbum foi obtida de uma forma espontânea. É esse tipo de naturalidade que quer passar ao seu público?
Sim. Tenho um lado muito prático e despachado, gosto de fazer as coisas sozinha. Por exemplo, as capas dos singles fui eu que fiz. É óbvio que há coisas que não fui eu, mas sempre que posso tento fazer, até para mostrar que não é preciso haver uma equipa enorme, nem um orçamento de milhares de euros, para tudo ficar bem. Existem jovens músicos que fazem álbuns completamente sozinhos e eu acho isso maravilhoso. Com pouco se faz muito e o que importa é a música - acho que é essa mensagem que também quero passar.
A nível artístico, qual é a sua maior inspiração?
Tenho muitas pessoas, mas os artistas que estão sempre na lista são The Beatles.
Como foi sentir o calor do público no espetáculo de 9 de março em Lisboa, no Teatro Maria Matos?
Foi muito bom. Ainda estou incrédula, não estava nada à espera. Já tinha feito dois concertos na Madeira mas sinto que, como a maior parte das caras eram conhecidas, se falhasse ia acabar por ter um desconto. Em Lisboa não conhecia ninguém, as pessoas vieram porque gostam do meu trabalho, por isso estava super nervosa e não sabia como é que iam reagir.
Quais as suas expectativas para o concerto desta quinta-feira na Casa da Música?
Não sei muito bem. O concerto de Lisboa foi tão bom que eu acho que não pode ser melhor. É óbvio que houve falhas, mas o público estava a ser tão querido e generoso que passou tudo ao lado. No Porto, espero que aconteça o mesmo. Quero que as pessoas gostem e que saíam de lá a pensar, "Ainda bem que vim ver isto".
O que sente ao estar, com apenas 22 anos, a atuar em salas de espetáculo com a importância da Casa da Música?
Não sei. Tento não pensar muito nisso porque tenho medo do ego ficar muito inflamado. No Festival da Canção não deu para vibrar assim tanto mas acho que, por um lado, até foi bom. Às vezes até me esqueço que ganhei. Na música há muita competição entre os artistas e eu não gosto nada disso. Ainda sou tão nova, tenho tanto para aprender e já estou a tocar numa sala como a Casa da Música. É óbvio que me deixa muito feliz mas não quero deixar que isso me deslumbre.
Apesar da sua carreira começar a ganhar forma, continua a estudar na Escola Superior de Música. Como consegue gerir as duas coisas?
Não é fácil. Apesar de estar a estudar música e, de certa forma, as coisas se complementarem, com os concertos e ensaios gerais acabo por ter de faltar às aulas e isso é algo que me deixa um pouco dececionada. Levo o curso muito a sério e quero muito acabá-lo mas acho que as coisas têm de ser feitas de uma forma ponderada. Agora não dá porque tenho este concerto mas depois, quando não tiver nenhum espetáculo, vou aplicar-me mais na escola. As coisas só podem ser feitas com esforço e sacrifício. Se assim não fosse, qual a piada da vida? Não acabo o curso em três anos mas tudo bem, vou fazendo.
É importante para si continuar a investir na formação?
Sim, muito. É importante estarmos sempre a aprender mais e a praticar. Se não o fizermos acabamos por estagnar. Já começo a pensar como é que vai ser quando acabar o curso, porque tenho de continuar a ter aulas de canto. Sinto que faz uma diferença enorme na forma como me expresso e como faço a minha música.
Qual é a sua maior ambição no mundo da música?
A minha maior ambição é conseguir viver apenas da música. Parece algo muito simples mas não é. Sei que muitos músicos não conseguem viver da sua arte, têm de passar por muita coisa, e eu gostava muito de viver só da minha arte.
