
Marcela, à esquerda, e Elisa, fotografadas no dia do casamento por Sellier, fotógrafo francês radicado na Corunha
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Esta é a primeira parte da história de Elisa e Marcela, duas professoras primárias galegas que, em 1901, conseguiram casar uma com a outra, não só no registo civil, mas também numa igreja do centro da Corunha. É uma história de amor e regras desafiadas. Uma vida comum feita de perseguições e fugas, mas também da solidariedade que as duas encontraram em Portugal, no Porto e nas páginas do "Jornal de Notícias"
Cidade do Porto, 1901, noite de 30 de agosto. Sentadas num canapé largo, no primeiro andar do número 115 da Rua de D. Pedro, hoje desaparecida, duas jovens mulheres entreolhavam-se em silêncio. Estavam na sede original do "Jornal de Notícias" e aguardavam o diretor. Eram espanholas e trajavam discretos e longos vestidos de chita, pontuados por casacos muito cintados, não diferindo em nada do que era usado por qualquer mulher da pequena burguesia daquele tempo.
Quando o diretor chegou, levantaram-se timidamente e cumprimentaram-no. Em seguida visitaram a sala da redação, onde vários repórteres, debruçados sobre um grande estirador coletivo, ultimavam a edição do dia seguinte. A mais velha e mais alta, Elisa, estendeu a mão a um dos jornalistas. Este, retribuindo o cumprimento, saudou-a em castelhano, usando um nome masculino: "¡Buenas, Don Mario!". Em seguida, Elisa apresentou-lhe uma longa carta de agradecimento, para publicar na edição do dia seguinte.
As visitantes, Elisa e Marcela, eram duas professoras primárias da Galiza, então a residir na Praça da Batalha, no Porto, e iam pessoalmente agradecer aos jornalistas e à cidade tudo o que tinham feito por elas. Cerca de dois meses e meio antes, na Corunha, seguindo todos os trâmites legais, tanto no Registo Civil como na Igreja Católica, tinham casado uma com a outra, protagonizando o primeiro caso documentado de um matrimónio entre duas mulheres.
Quem eram, afinal, Elisa e Marcela? Como conseguiram, pagando depois duramente, concretizar essa ação? As questões levam-nos a seguir uma história de coragem e amor incondicional, de ousadia e fraternidade, mas também de injustiça, perseguição e tragédia.
O caso do casamento entre as duas mulheres, que tanto eco teve na imprensa do início do século XX, não só em Espanha e Portugal, mas também na América Latina, estava praticamente esquecido em 1993, quando Narciso de Gabriel, catedrático na Faculdade de Ciências da Educação da Universidade da Corunha, encontrou, nos arquivos históricos de Santiago de Compostela, um estranho processo disciplinar levantado em 1901 contra duas professoras. Apenso ao processo, um exemplar do "La Voz de Galicia", com um título cuidadosamente destacado: "Un matrimonio sen home", Eram os primeiros fios de um novelo complexo que o ajudaria a reconstituir a história.
A longa investigação historiográfica resultou na edição, em 2008, do livro "Elisa e Marcela, Alén dos homes", trabalho apaixonado e apaixonante que continua pouco conhecido em Portugal. Seguindo de perto o trilho traçado por e Gabriel, adiantaremos aqui alguns dados novos, contribuindo para esclarecer um pouco as pistas recentemente debatidas, posteriores a 1904, o último ano em que o docente galego encontrou referências às duas mulheres.
1885
Dois rumos, um destino
No coração da Corunha, na Plaza de María Pita, funcionava, no final do século XIX, a Escola Normal de Mestras. Aí se formavam as jovens professoras primárias galegas, combatentes de primeira linha na guerra contra o enorme analfabetismo da região. Bem perto, à esquerda do atual ayuntamiento, está a igreja de San Xurxo, onde Maria Elisa Carmen Sánchez Loriga fora batizada, em 9 de setembro de 1862, um dia após o seu nascimento. Na referida escola, fizera, entre 1877 e 1879, o curso do magistério, e aí trabalhava como secretária, em meados de 1885, enquanto aguardava colocação para dar aulas. Foi lá que viu Marcela pela primeira vez.
Nascida em Burgos, em 27 de junho de 1867, Marcela Gracia Ibeas não teve uma infância feliz. Os pais, que não eram casados à data do seu nascimento, deixaram-na à guarda de um dos muitos colégios internos da Espanha desse tempo, muito duros e austeros, onde a taxa de mortalidade entre as meninas chegou a atingir 80%, em meados do século XIX. Quando ela fez dez anos, os pais finalmente casaram e perfilharam-na, levando-a para viver com eles em Lugo. O pai, Manuel Gracia Blasco era militar e, nessa condição, foi destacado para a Corunha, no início da década de 1880. Aos 15 anos, em 1882, Marcela foi inscrita na Escola Normal de Mestras.
A relação entre as raparigas terá começado por volta de 1885, quando Marcela tinha já 18 anos e Elisa iniciara funções administrativas. O entusiasmo de Marcela por Elisa ficou registado. A jovem disse em casa que tinha conhecido uma amiga surpreendente. Nos tempos seguintes, as duas tornaram-se inseparáveis, o que, por algum motivo, desagradou aos pais de Marcela: mal ela concluiu o curso, em 1887, enviaram-na para Madrid, esperando que esquecesse Elisa.
Maioritariamente rural e conservadora, a Galiza de então era assolada pela pobreza e pela emigração masculina desmesurada. Mas havia, também, núcleos urbanos industrializados e muito ativos culturalmente. Na Corunha, o operariado das grandes fábricas conserveiras, têxteis e tabaqueiras mantinha, alimentava, desde meados do século, uma forte tradição de ativismo anarcossindicalista. Em simultâneo, uma burguesia intelectual e artística debatia, nos cafés da Corunha, Pontevedra, Compostela, Vigo e Ourense, os princípios do chamado galeguismo, um recrudescimento linguístico, histórico e político da identidade da região. De certo modo, o universo urbano da Corunha de finais do século era um microcosmo que ilustrava os contrastes e antagonismos da sociedade ocidental do final de oitocentos.
1890-1900
Reencontros e partilhas
Quando, em 1890, Marcela regressou de Madrid, Elisa já ensinava, desde 1888, numa pequena escola rural em Couso, a 50 quilómetros da Corunha. Iniciando a sua vida profissional, Marcela foi colocada na escola de Traba, aldeia junto às praias atlânticas, a apenas 20 quilómetros de Couso. Relativamente próximas, com salários próprios, ainda que modestos, mas, sobretudo, longe dos olhares da cidade e das suas famílias, podiam encontrar-se regularmente. No ano letivo seguinte, Marcela aproximou-se mais de Elisa, instalando-se noutra aldeia, Calo. Todos os semestres, todos os anos, ambas faziam pedidos de destacamento e transferência de escola, procurando que os ditames burocráticos as colocassem no mesmo local, como chegou a acontecer durante alguns meses, em Calo, em 1896.
Os registos destes pedidos e concursos ajudam a reconstruir alguns passos da vida de ambas e a vontade que tinham de estar uma com a outra: em setembro de 1893, por exemplo, no início do ano letivo, o alcaide de Calo fez uma queixa à Junta de Instrução Pública, denunciando que a escola não abrira por a professora Marcela não ter aparecido ao serviço. De facto, durante as férias de agosto desse ano, Marcela alugara uma casa em Compostela, onde, não o podemos confirmar, terá vivido com Elisa. Antes da data prevista para retomar o serviço, escrevera à Junta a pedir a sua substituição em Calo, indicando o nome de Elisa para ocupar o cargo. Claramente, procuravam viver juntas permanentemente.
Estes pequenos episódios, e mesmo alguns processos, não parecem ter comprometido as suas carreiras nem levantaram suspeitas. Com efeito, em 1899, quase dez anos após as primeiras tentativas de coabitação permanente, Marcela foi destacada para Dumbria. O seu salário, 650 pesetas anuais (mais do dobro do vencimento de 1890) reflete evolução na carreira e reconhecimento do seu profissionalismo. Ano após ano, com avanços e recuos nas distâncias das colocações, vão-se aproximando. Estando Marcela em Dumbria, Elisa, não muito distante, conseguia percorrer a pé o percurso que a separava da companheira. Nessas longas caminhadas de fim do dia e de madrugada, levava sempre com ela um revólver, a que chamava "o Despertador". No final de 1900, Marcela continuava em Dumbria, e Elisa, sem colocação, foi viver com ela.
Maio-junho de 1901
Resolução e transformação
A experiência do casal em Dumbria esteve longe de corresponder ao esperado. Se, no início, a coabitação das professoras solteiras não causou grande impacto junto da população, com o passar dos meses a situação tornou-se crítica. Marcela, então com 33 anos, era alvo do cortejo dos solteiros da terra, que rejeitava reiteradamente, gerando mal-estar entre a jovem comunidade masculina do povoado. Pior, esse assédio permanente, que poderá estar na origem da gravidez de Marcela, no início da primavera de 1901, gerou ciúmes em Elisa e desentendimentos constantes entre as duas. Em alguns casos, com discussões públicas e até ameaças, testemunhadas pela população, caso de duas tentativas de suicídio de Elisa, uma das quais - ingestão de láudano - a levou a internamento hospitalar.
De Gabriel levanta a possibilidade de essas discussões terem sido, afinal, parte do plano de Elisa para sair de cena e reaparecer com outra identidade. Contudo, se é claro que houve uma premeditação inteligente, para justificar a transformação de Elisa, e algumas das zangas entre as duas poderão ter sido encenadas, dificilmente as tentativas de suicídio de Elisa serão explicadas da mesma forma. A personalidade apaixonada dela, talvez até um pouco dominadora, deverá ser tida em conta quando analisamos este período conturbado, sensivelmente entre o fim de 1900 e o início da primavera seguinte.
Neste contexto difícil de rutura e de ameaça permanente de intromissão da população na vida privada das duas, agravada com a secreta gravidez de Marcela (facto que destruiria a sua carreira, por ser solteira), Elisa surge como solução para todos os problemas: casar-se-ia com Marcela.
O plano começou por criar uma explicação para o desaparecimento de Elisa. Deixou a aldeia e, durante umas semanas, em maio de 1901, viveu sozinha numa pensão na Corunha. Entretanto, em Dumbria, Marcela explicava aos vizinhos que Elisa, cansada da vida rural e de não ter colocação (o que a tornara algo agressiva e nervosa), decidira emigrar para Havana e tão cedo não voltaria. No entanto, avisava Marcela, um primo de Elisa chamado Mario, incrivelmente parecido com a prima, estava de regresso, também da emigração, para casar com ela, Marcela.
Entretanto, Elisa ia criando o alter ego masculino. Numa ótica atual, com as diferentes categorizações de identidades de género cada vez mais especificadas, a transformação de Elisa em Mario poderá ser analisada dentro de diferentes enquadramentos. Todavia, não cabe aqui fazer essas reflexões, sobretudo porque não fariam sentido no contexto histórico de 1901. Com o apoio de amigos, hoje desconhecidos, Elisa conseguiu mandar fazer fatos de homem que, agora com o cabelo curto, começou a usar. O passo seguinte era obter documentação que lhe permitisse assumir a nova identidade. Para isso, procurou ser recebida pelo padre Victor Cortiella, da paróquia de San Xurxo, onde fora de facto batizada. O pretexto era pedir o batismo e, consequentemente, um documento de registo de nascimento.
Recebido pelo sacerdote na sacristia, o agora Mario, envolto numa nuvem de baforadas de charuto, que estrategicamente fumava, contou que tinha sido educado em Londres, por um padrasto inglês protestante, pelo que não fora batizado. De regresso à terra natal, queria adotar a verdadeira religião de Espanha, por diversas razões, entre as quais o desejo de casar com a noiva, que confessou estar já grávida. O nome do padrasto inglês referido por Mario era Mr. Dodds. Cortiella mostrou interesse e, como homem viajado e culto que era, encetou uma conversa em inglês com Mario, que, aparentemente, também falou fluentemente a língua, detalhe que poderá ajudar a esclarecer eventos posteriores, como veremos.
A história que Elisa/Mario contou tem vários fundos de verdade. Efetivamente, em 1869, a mãe de Elisa, viúva, casara com um súbdito britânico. Elisa tinha então sete anos, mas, para dar maior credibilidade à história, na pele de Mario, disse ter nascido justamente em 1869, naquela que era, realmente, a data do seu aniversário: 8 de setembro. Cortiella, tendo os assentos de batismo na sacristia, fez uma rápida consulta e encontrou, em 1862, o registo de Elisa. Mario referiu que se tratava do batismo de uma sua irmã (em Dumbria, Marcela dizia que iria casar com um primo, não com um irmão de Elisa), emigrada agora em Cuba. Cortiella não desconfiou de nada e mostrou-se solicito para batizar Mario segundo o rito católico. De Gabriel associa a rapidez do processo ao rápido crescimento da comunidade protestante (não só inglesa) e evangélica que se sentia na Corunha e foi várias vezes referido, com algum alarme, pela arquidiocese de Compostela.
O batizado realizou-se em 26 de maio de 1901, e Elisa recebeu o nome de Mario José Sánchez Loriga. Faltava preparar o casamento. Elisa precisava de testemunhas e, mais importante, da autorização da mãe de Marcela. Mario tentou contactá-la em casa, também no centro da cidade, mas o encontro correu mal. A mãe de Marcela recusou-se a receber Mario, expulsando-o da entrada do prédio. De acordo com os testemunhos dos vizinhos, percebeu logo que se tratava de Elisa e mostrou-se muito perturbada com a situação. Dias depois, a mãe de Marcela deixou a Corunha e isolou-se em parte incerta, ainda que tenha dito a vizinhas que iria para Santiago de Compostela, fazer tratamentos no hospital central. Então, Marcela viajou para a Corunha e, acompanhada de Mario, procurou convencer uma vizinha da mãe, Ricarda Fuentes, para ser sua madrinha de casamento. Relutantemente, Ricarda aceitou. Faltava um padrinho. Mario contactou um seu parente, amanuense no Crédito Gallego, chamado Miguel Hermida. Este conhecia Mario como Elisa, com quem havia estado poucos meses antes. Ao ver Mario, mostrou-se confuso, mas colaborante.
Na conversa com Hermida, Mario aludiu, pela primeira vez, ao seu hermafroditismo. Era a justificação mais viável, no quadro mental da época, para a transformação. O conceito de sexualidade e de identidade de género não eram, naquele tempo, um tema bem definido. O positivismo científico procurava enquadrar os comportamentos entendidos como não normativos, caso da homossexualidade, em conceitos pseudo-patológicos, como as doenças de foro psíquico (categorização redutora que prevaleceu durante quase todo o século XX). Do ponto de vista biológico, o quadro mais comum atribuído a estes casos era o que se designava por hermafroditismo, mas não devemos entender a classificação literalmente, pois nem sempre se referia a indivíduos com uma anatomia genital dúplice. O termo hermafrodita era, por vezes, usado num sentido lato, podendo englobar apenas comportamentos ou simples predisposições sexuais. Para todos os efeitos, Hermida aceitou a explicação e acedeu a ser padrinho. Foi também nessa conversa, mais tarde citada em entrevistas do próprio Hermida na imprensa, que a gravidez de Marcela foi referida pela primeira vez como principal razão para o casamento.
Conseguindo os padrinhos e respetivos avais, bem como toda a documentação de identidade masculina, o casal podia agora tratar dos esponsais. Em 6 de junho de 1901, Mario efetivou o casamento no Registo Civil da Corunha. Dois dias depois, no sábado, dia 8, pelas sete horas da manhã, Mario e Marcela entravam, finalmente, na igreja de San Xurxo como noivos. Marcela usava um vestido preto, com gola alta rendada, mangas justas e ombros abaloados, muito tradicional; compunha o traje com um toucado à espanhola e véu preto. Pregado ao peito, um raminho de flor de laranjeira. Mario vestia um casaco novo, de golas largas, e um colete de trespasse, atravessado por uma fina corrente de relógio; os punhos, colarinho e peitilho brancos da camisa contrastavam com o tom escuro do fato. No mindinho esquerdo, segundo costume afidalgado, levava três anéis simples. Percorreram a nave central lado a lado, numa igreja praticamente vazia. Junto ao altar, com todos os paramentos e confirmando que não havia objeções canónicas ou ao casamento, Cortiella deu início à curta cerimónia. Depois de comungarem, os noivos e os padrinhos cumprimentaram-se cerimoniosamente e saíram todos do templo. O casamento estava cumprido. Era a primeira vez que duas mulheres se casavam.
Ainda de manhã, após um breve convívio familiar, com chocolate quente, em casa da madrinha Ricarda, Mario e Marcela passearam pela cidade. Era um dia pacato, e o novo casal não destoava dos transeuntes. Entraram no número 9 da Calle San Andrés, o elegante estúdio de José Sellier, um importante fotógrafo francês ali radicado, que havia realizado, em 1897, o primeiro filme rodado na Galiza, muito provavelmente o primeiro filme espanhol. No estúdio, sobre um fundo neutro, muito ao gosto da época, Marcela e Mario posaram para um retrato de casamento. À direita, em pé, Mario segura a aba do casaco. A seu lado, Marcela, com um olhar sereno, cruza as mãos ternamente sobre o braço do marido. Esta foto, que veio a ser publicada exaustivamente na imprensa da época, em reproduções de fraquíssima qualidade, é hoje o símbolo mais conhecido do casamento de Elisa e Marcela. A reprodução de grande qualidade que se conhece hoje, obtida da única cópia sobrevivente feita na Casa Sellier, foi descoberta por Narciso de Gabriel, em 1994, no Arquivo Histórico do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal. Apreendido pelas autoridades, ou simplesmente requisitado, o retrato fazia parte do processo de extradição judicial que o Governo de Espanha enviou, em 1901, para Portugal, onde Elisa e Marcela se viriam a refugiar poucos dias após o casamento.
Na mesma rua do estúdio de Sellier ficava a pensão Corcubión, onde Elisa se refugiara para se transformar em Mario. Aí se hospedaram. No domingo seguinte (ou segunda-feira, segundo outras fontes), Mario e Marcela apanharam a diligência para Dumbria. Aparentemente, terão antes pensado em emigrar para Buenos Aires, para onde Mario procurou adquirir bilhetes de transatlântico. Todavia, optaram por ir primeiro a Dumbria, onde tinham residência e Marcela trabalhava como professora. A escolha revelou-se rapidamente um erro.
Ainda durante a curta viagem, numa escala da diligência, pouco antes de chegar a Dumbria, o burburinho de passageiros e alguns moradores do povoado, que já conheciam bem a aldeia e os seus vizinhos, começou a ganhar volume. Subitamente, do lado de fora da carruagem, os mirones vinham espreitar o casal. Uns gritavam que era Dona Elisa vestida de homem. Aflita, Marcela explicava que se tratava de um primo de Elisa, com quem acabara de casar. Mario, encafuado debaixo do chapéu, acendia cigarrilha atrás de cigarrilha, procurando dissipar tudo numa nuvem de fumo.
Finalmente, a diligência retomou caminho e lá chegou a Dumbria. Assim que Mario e Marcela desceram, a população acercou-se . As mulheres benziam-se ao verem Mario, toda a gente dizia que era Dona Elisa, ou o diabo por ela. Passo rápido, o casal refugiou-se em casa. Instantes depois, o médico da aldeia batia-lhes à porta. Alegava uma visita de cortesia, para conhecer o marido de Dona Marcela. Sem se convencer de que Mario não era, afinal, Elisa, o médico despediu-se cortesmente e foi logo informar o pároco, Pedro Varela. Este pegou num pau e correu até casa das professoras. Queria tirar tudo a limpo. O casal, antecipando-se ao padre furioso, foi ao seu encontro, com doces e uma garrafa de licor levada da Corunha. Encontraram-no no caminho. Marcela presenteou Varela, mas este, colérico, recusou tudo e avisou que sabia a verdade, que o que estavam a fazer era um escândalo. Mario, abordando-o com firmeza, segundo alguns relatos com a mão sobre o "Despertador", informou Pedro Varela que de facto tinha sido Elisa, mas já não era. Agora, era Mario Sánchez Loriga, o hermafrodita. Marido legítimo de Marcela Gracia Ibeas, e que o senhor padre vivesse com a nova realidade, deixando o casal em paz. O presbítero voltou para trás, azoado, e Mario e Marcela refugiaram-se em casa.
Chegada a noite, a população - sobretudo os rapazes solteiros - cercou a casa de Marcela. Gritaram impropérios, lançaram pedras e exigiram que Elisa, o marimacho, como berravam, saísse. Em pânico, Marcela e Mario temiam o pior. Mario despediu-se da mulher e escapou pelas traseiras, noite adentro, em direção à Corunha. Marcela, que não era ameaçada, apaziguou os agressores. Nos dias seguintes, Marcela continuou em Dumbria, evitando todos os contactos, esquivando-se a perguntas e olhares, reafirmando discretamente o que Mario dissera ao padre Varela, que Elisa e Mario eram a mesma pessoa, um hermafrodita.
Na Corunha, onde entretanto Mario se instalara numa nova pousada, a situação complicou-se. De Dumbria, em 15 de junho, Varela informava o padre Cortiella, de San Xurxo, que havia casado duas mulheres. Incrédulo, primeiro, desconfiado depois, Cortiella procurou tirar tudo a limpo, contactando os intervenientes e testemunhas do casamento. Rapidamente conseguiu localizar Mario e, nesse mesmo dia, convocou-o a esclarecer a situação junto dele, na sacristia.
Frente a Cortiella, Mario começou por se manter fiel à história original, mostrando-lhe um passaporte, passado em Inglaterra em nome de M. Sánchez Loriga, como prova do seu regresso de Londres. Cortiella verificou que havia rasuras no documento (é provável que fosse o passaporte da mãe de Elisa, que casara, como referimos, com um súbdito inglês) e insistiu que Mario contasse a verdade. Este, desarmado, admitiu que era, de facto, Elisa, mas que sempre se sentira como homem, não como mulher e que agora o poderia ser. Retomou o tema do hermafroditismo, que Cortiella, ao contrário de Pedro Varela, em Dumbria, pareceu compreender, de tal maneira que propôs que Mario se submetesse a um exame médico. Concordando com o padre, Mario foi submetido a dois exames médicos, o primeiro, logo ali, com um médico que se encontrava na igreja, chamado Antonio Deus. Na sacristia, Deus, o médico, confirmou Mario como sendo efetiva e anatomicamente, uma mulher. Não conformado, Mario pediu novo exame e indicou o clínico que o faria. No dia seguinte, 16 de junho, Manuel Barbeito chegou à mesma conclusão: era uma mulher.
Cortiella não se mostrou intempestivo como Pedro Varela, mas revelou-se muito preocupado, tanto que tinha sido ele quem casara as duas mulheres. As suas primeiras diligências não foram, por isso, junto das autoridades civis, mas sim do clero, no sentido de encontrar algum modo de justificar ou anular o casamento e o batismo de Mario, no fundo, a sua prova documental de identidade.
Só a população de Dumbria e algumas pessoas na Corunha sabiam do sucedido. Contudo, os sinais de alarme, nomeadamente em relação ao perigo de incorrerem em crime, sobretudo Elisa, por falsificação de documentos, adoção de falsa identidade e atentado ao pudor, eram muito claros. O casal teria de agir urgentemente. Por carta, combinaram um plano de fuga: teriam que sair de Espanha o quanto antes. Dos destinos considerados, a América do Sul, comum para a emigração galega, parecia-lhes o mais indicado. Contudo, em 20 de junho, a situação precipitou-se. Em Pontevedra, um diário publicou a primeira notícia sobre o casamento das duas mulheres. Dois dias depois, o "La Voz de Galicia" fazia uma primeira página sensacionalista sobre o caso, que rapidamente se tornou tema quente em toda a Espanha. Marcela e Mario tinham de fugir, e o destino mais imediato era Portugal, concretamente a cidade do Porto.
(na próxima publicação, a experiência portuguesa e o destino trágico nas Américas)
