
Obras de Miró são postas em diálogo com obras da coleção de Serralves
Foto: José Coelho/ Lusa
A Fundação de Serralves inaugura esta sexta-feira "Afinidades eletivas: Joan Miró e a arte contemporânea na coleção do Museu de Serralves". A exposição reúne 24 obras do catalão em diálogo com 53 trabalhos de artistas contemporâneos, propondo um percurso que atravessa geografias, gerações e linguagens artísticas.
A exposição foi um desafio de Philippe Vergne, diretor do Museu de Serralves ao curado Robert Lubar Messeri que, com a coordenação de Isabel Braga, volta a apresentar ao público um núcleo da Coleção Miró, agora integrada num confronto direto com peças da Coleção de Serralves.
O conjunto inclui pinturas, desenhos, colagens, esculturas e obras têxteis realizadas sobretudo nas décadas de 1960 e 1970, período central na reflexão do artista catalão sobre os limites da pintura e da representação. Como explica Robert Lubar Messeri, "muitas vezes Joan Miró não é considerado contemporâneo, mas na última fase da sua vida a sua arte já pode ser considerada contemporânea".
O título da exposição recupera o conceito de "afinidades eletivas", originalmente associado à química e posteriormente apropriado por Johann Wolfgang von Goethe para descrever ligações instintivas e inevitáveis entre elementos distintos.
Em Serralves, a expressão ganha uma nova dimensão visual e conceptual: as obras são aproximadas não por influência direta ou linearidade histórica, mas por ressonâncias formais, inquietações partilhadas e gestos convergentes que atravessam o tempo. Como acrescenta o curador, é quase como "um conceito molecular, porque há coisas que se aproximam sem explicação, ainda que não tenham influência direta umas nas outras".
Dividida em nove capítulos distribuídos pelos vários pisos da Casa de Serralves, a mostra explora temas estruturantes da arte moderna e contemporânea.
Em "Process art", destaca-se a importância do gesto, da materialidade e da ação do tempo na construção da obra. "Paisagem, memória e matéria" aborda o território como espaço de inscrição histórica e tensão política. Já "Pintura en abîme" revisita a crise e reinvenção da pintura nas décadas de 1960 e 1970, período em que Miró questiona radicalmente os códigos tradicionais do meio.
A palavra e a matéria plástica
Outras secções, como "Antimonumentos" e "Linguagem", refletem sobre a desconstrução da escultura monumental e a transformação da palavra em matéria plástica. Em "Expressionismo revisitado", a subjetividade emerge através de gestos intensos e referências que dialogam tanto com a arte rupestre como com o graffiti.
"O desenho como prática" afirma o desenho enquanto campo autónomo e experimental, enquanto "Colagem e vida moderna" expande esta técnica para o domínio da instalação e da sobreposição de sistemas visuais e sonoros.
O percurso culmina em "Lugar/Não lugar", capítulo que propõe a obra de arte como território simbólico de deslocação, utopia e crítica institucional.
Ao lado de Miró surgem nomes incontornáveis da arte contemporânea nacional e internacional, como Helena Almeida, Marcel Broodthaers, Pedro Calapez, Ana Hatherly, Anselm Kiefer, Robert Morris, Julião Sarmento, Thomas Schütte, Julie Mehretu, Jannis Kounellis ou Antoni Tàpies, entre muitos outros. As práticas representadas vão da pintura e escultura à fotografia, vídeo e instalação, abrangendo movimentos como a Arte Povera, o Neoexpressionismo e experiências conceptuais centradas na linguagem. Há nesta mostra algumas obras da coleção de Serralves que nunca tinham sido apresentadas ao público.
Esta é a sexta exposição da Coleção Miró - que é propriedade do Estado Português e está cedida ao Município do Porto por 25 anos e depositada em Serralves desde 2018 - apresentada em Serralves desde 2016, reforçando o compromisso da instituição com a valorização deste importante acervo, composto por 85 obras.
Em articulação com a Coleção de Serralves, que integra mais de 5600 peças de artistas nacionais e internacionais desde os anos 1960 até à atualidade, "Afinidades Eletivas" propõe novas leituras sobre o legado de Miró, evidenciando a sua surpreendente atualidade.
Mais do que uma retrospetiva, a exposição afirma-se como um espaço de encontros improváveis e diálogos transversais, demonstrando que a arte, quando colocada em relação, ultrapassa cronologias e fronteiras para revelar continuidades inesperadas.

