
"Casa Ornata" muda a perspectiva sobre a arquitetura
Foto: Casa São Roque
A artista alemã Kerstin Brätsch deu uma ambiência onírica à Casa de São Roque.
Entrar em "Casa Ornata" é entrar num corpo habitado por camadas de tempo. A exposição de Kerstin Brätsch, na Casa São Roque, no Porto, parte dessa condição singular: a de uma casa com memória, arquitetura e biografia próprias, que a artista não tenta neutralizar, mas antes escutar e desestabilizar. Nascida em Hamburgo, em 1979, e formada num contexto artístico marcado pela experimentação coletiva, Brätsch construiu uma obra que recusa os limites tradicionais da pintura.
O seu percurso, entre Berlim e Nova Iorque, com passagens por instituições como o MoMA, a Serpentine Gallery ou as Bienais de Veneza revela uma prática em expansão contínua, onde o gesto pictórico se contamina com o performativo, o colaborativo e o espacial. Em "Casa Ornata", essa lógica atinge um ponto de maturidade: a pintura deixa de ser objeto para se tornar ambiente.
A Casa São Roque, com a sua arquitetura eclética do início do século XX, marcada por sucessivas transformações e por uma recente reabilitação que preservou o caráter doméstico do espaço, funciona aqui como matéria ativa. Os estuques, as portas, a escala íntima das salas e a relação com o jardim não são meros suportes, mas superfícies de fricção.
Brätsch infiltra-se nas divisões como quem ocupa uma mente: cada sala propõe uma variação de atmosfera, uma mudança de temperatura sensível, um desvio de perceção.
A experiência do visitante constrói-se nesse intervalo entre o reconhecimento da casa e a sua estranheza progressiva. Caminha-se por corredores que parecem respirar cor, por superfícies que oscilam entre decoração e perturbação, por composições que tanto acolhem como desorientam. A abstração, aqui, não é um código formal, mas um modo de relação com o mundo: instável, ambíguo, profundamente humano.
"Casa Ornata"
Kerstin Brätsch
Casa São Roque-Porto

