
Afonso Sêrro vai do jazz fusão à composição erudita
Foto: Direitos reservados
Balançando entre minimalismo e romantismo, Afonso Sêrro brilha no álbum "Piano impromptus".
O pianista lisboeta Afonso Sêrro não era destas coisas. Viram-se os ouvidos para os seus trabalhos passados e projetos correntes e o que se encontra é jazz fusão, essencialmente instrumental, com aplicação de camadas espessas de rock progressivo e funk, mais uns ares de hip-hop. Seja nos Mazarin, nos Atalaia Airlines ou nos mais prolíficos Yakuza.
O vislumbre de outros caminhos na sua arte chegou sobretudo em 2025 - no verão, Sêrro via a peça "Música para a alma" conquistar o segundo lugar na 14.ª edição do Prémio de Composição SPA/ Antena 2 (o trabalho, concebido para orquestra, pode ser escutado no YouTube em maqueta Midi); em dezembro chega um álbum a solo, "Piano impromptus".
Para a realização de "Piano impromptus", que também assinala a inauguração do catálogo da editora portuguesa Ovo Estrelado, Afonso Sêrro encerrou-se durante quatro dias na Casa do Piano, em Longos, Guimarães, e de lá emergiu com sete peças geradas no calor do momento. Algumas, sobretudo as iniciais, progredindo mais ao sabor do minimalismo do que do lirismo, em repetições que, de facto, não o são, as estruturas movendo-se em pequenos e ponderados blocos de notas.
Geralmente salpicadas por romantismo, mas com exceções: juntos, "Impromptu 2" e "Impromptu 3" optam ao longo de 12 minutos por um ataque às teclas mais musculado, nervoso, lúdico e com frémito urbano, e menos nuançado.
A narrativa de "Piano impromptus" vai-se tornando mais bucólica, quiçá mais direta ao coração, com o correr do tempo. Aqui e ali, o teclado acústico tem a companhia da eletricidade de um Rhodes, em pinceladas não intrusivas, com destaque para "Impromptu 6", que vai do arrebatamento ao quase silêncio. Um disco auspicioso.
Piano Impromptus
Afonso Sêrro
Ovo Estrelado

