
Autor francês Luz retrata uma época atribulada, triste e moralmente decadente, que demonstra o pior do ser humano.
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Sobrevivente do atentado ao "Charlie Hebdo", o criador francês Luz propõe um manifesto contra a censura no seu novo álbum de BD "Duas raparigas nuas".
Costuma dizer-se que as obras de arte refletem a visão que os artistas têm do mundo. No caso de "Duas raparigas nuas", é a visão que a obra de arte tem do mundo que ela reflete. Mas já lá vamos.
"Zwei wibliche halbakte" ("Duas raparigas nuas") é o título de um quadro pintado pelo alemão Otto Mueller em 1919. Nascido em 1874 e falecido em 1930, considerava-se um "pintor livre", embora os críticos o aproximassem do expressionismo.
"Duas raparigas nuas" é também o título do livro de Luz (Renald Luzier), eleito Melhor Álbum no Festival de BD de Angoulême de 2024, que a ASA acaba de editar em português.
Nele, o autor, um dos sobreviventes do atentado de 2015 contra o jornal satírico francês "Charlie Hebdo", narra, numa sucessão de episódios curtos, a génese e o percurso do quadro desde a sua criação, passando pela compra por um colecionador, a apreensão pelos nazis chegados ao poder na Alemanha e posterior inclusão na exposição "Arte degenerada", à posse por sucessivos donos até quase aos nossos dias, quando foi devolvido aos proprietários originais.
Desta forma, Luz traça o retrato de uma época atribulada, triste e moralmente decadente, que mudou a história do mundo e mostrou o pior do ser humano. Mas, em paralelo, "Duas raparigas nuas" é também um manifesto em defesa da arte, da cultura, do direito à diferença e à opinião própria - e contra qualquer tipo de censura, expresso através da criação artística.
Mas, além da força intrínseca da sua mensagem, extremamente atual nos nossos dias, em que pululam tantos tipos de censura, mais ou menos encoberta ou descarada, este álbum distingue-se pelo facto de todo o relato ser feito do ponto de vista do quadro que lhe dá título, quase como se o leitor fosse colocado na posição de uma das raparigas que ele retrata.
Este artifício gráfico, aparentemente simples, transforma completamente o processo narrativo, desde as pranchas iniciais, quase brancas, em que só começamos a ver algo quando Mueller dá as primeiras pinceladas na tela, "abrindo" pela primeira vez os olhos das raparigas para um mundo em transformação acelerada a caminho de enormes convulsões. A opção, tem também o condão de despertar a curiosidade do leitor sobre o conteúdo de um quadro que desperta ódios e paixões.

