No último sábado, a banda indie-rock Expresso Transatlântico foi recebida com sala esgotada no Auditório de Espinho.
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Levaram o seu estilo próprio e eclético, numa viagem entre o protagonismo e emoção da guitarra portuguesa, pelas mãos de Gaspar Varela, a força da guitarra elétrica, tocada por Sebastião Varela, e os ritmos acentuados que pedem dança, pela bateria de Rafael Matos. Apresentaram o primeiro álbum "Ressaca Bailada" ao público nortenho acompanhados pelo trompetista e teclista Zé Cruz e pelo baixista Pedro Ferreira.
A seguir à sessão de autógrafos, os artistas conversaram com o JN sobre lançamentos e concertos em 2024. Ficou a explicação sobre como pode uma ressaca ser bailada, que estar em palco com a Madonna foi "uma boa escola" para atuar com o grupo, que homenagear Carlos Paredes nos concertos é inevitável e quem é este trio que nasceu em 2021, entre Lisboa e os Estado Unidos da América, para marcar a diferença na música portuguesa.
Engana-se quem pensar que num concerto deste género pode soar tudo ao mesmo. Em cada "malha", como Sebastião Varela apelida as músicas, o grupo surpreende e reinventa-se. Cinco artistas em palco, possuídos pelo som, transformaram-se num só. A entrega e energia contagiaram o público em Espinho e, ao fim de três músicas, a sala estava toda a dançar.
A banda recordou temas como "Azul Celeste" e "Alfama, Texas", que puseram o público a mexer e integram o EP "Expresso Transatlântico", lançado no final de 2021, para além da viagem feita pelas várias músicas e sonoridades que compõem o álbum "Ressaca Bailada", dado a conhecer no final de 2023.
"A guitarra até fala!"
A meio do espetáculo, a banda saiu do palco, regressando apenas Gaspar Varela, acompanhado por uma guitarra portuguesa. A sala ficou em silêncio absoluto, até se ouvir os primeiros acordes da "Canção Verdes Anos", que foram imediatamente aplaudidos. Findo este momento, o público aplaudiu de pé o jovem talento e um espectador exclamou "a guitarra até fala!". Gaspar partilhou com o JN que esta "é uma maneira de homenagem da banda, por tudo aquilo que Carlos Paredes nos deu, no que toca à arte. Querendo ou não, ele faz parte da nossa junção".
Rafael Matos acrescentou que "há certas pessoas de quem é fácil perceber que temos uma grande influência. Há músicas nossas nas quais as influências são muito subconscientes. Até nós, depois de estarem feitas, ao ouvi-las, pensamos 'fui buscar isto aqui', sem sabermos antes".
Sebastião Varela sublinhou ainda que "tentamos sempre ser honestos a nós próprios e depois essas coisas acabam por sair. Também temos a questão de gostarmos de brincar com a tradição. Tirá-la daquele lugar seguro e ver quais são as possibilidades de trazê-la para o século XXI. Gostamos de pegar em ícones tão grandes como o Carlos Paredes e brincar com esse conceito de tradição fora do espaço normal em que ela habita".
"É sempre muito bom e um sentimento super reconfortante ver uma casa cheia. Ver a malta a aderir ao espetáculo também nos deixa sempre felizes", assinalou Sebastião Varela, após o concerto.
"Acho que ainda estamos com aquele sentimento de apresentar o álbum. Nós não fizemos assim tantas datas, desde o lançamento", é o balanço feito por Rafael Matos.
Filme-concerto para 2024
Apesar de terem "uns concertos confirmados", os Expresso Transatlântico só poderão anunciá-los em breve, com exceção das paragens marcadas no Festival Party Sleep Repeat, em São João da Madeira, a 27 de abril e do último dia do Festival Primavera Sound, 8 de junho, no Parque da Cidade do Porto.
Sebastião Varela adianta um lançamento: “Estamos a planear fazer assim uma coisa um bocado fora da caixa, um género de um filme-concerto, lançar uma 'live-session' dentro da estética dos nossos videoclipes e da imagética do universo Expresso Transatlântico, que irá sair este ano. O resto, nós vamos comunicando nas redes sociais, surpresas que possam acontecer ou não”.
"Dar um baile à ressaca"
Sebastião Varela tomou a iniciativa para explicar o que é uma ressaca bailada, eis a resposta: “é dar um baile à ressaca. Depois da casa cair, dançamos por cima dela ou não. A seguir ao que seja que acontece para culminar numa ressaca, nós bailamos por cima. Achamos que é assim que deve ser feito, é um empurra para a frente e mantermo-nos vivos a dar um passinho de dança".
Madonna e "cozido à portuguesa"
Em 2021, o ano de nascimento da banda, Gaspar Varela, acompanhava a tour de Madonna pelos Estados Unidos da América. Assim surge a questão, dirigida ao músico: estar em palco com Madonna ou "em família", no Auditório de Espinho? “Nenhum deles, estou a brincar. São coisas muito diferentes. Este é o meu projeto, são criações das quais eu também faço parte e isso obviamente sobrepõe-se a tudo. Mas estar em palco com a Madonna foi incrível, deu-me muita escola para estar aqui."
O JN questionou a banda sobre o que há em comum entre uma bola de espelhos (presente em palco), a guitarra portuguesa e o Texas (a propósito da música "Alfama, Texas"). Gaspar Varela tomou a iniciativa afirmando: "cozido, cozido à portuguesa".
Sebastião Varela detalhou este "cozido": "Fazemos e pomos nas músicas, nas gravações e em cima do palco o que nos faz sentido, o que somos. Conseguimos viver juntos, porém vimos de sítios diferentes. Cada um traz 'a sua própria coisa' e é assim que acaba por acontecer". "Torna-se mais difícil de definir o género que tocamos, aquilo que somos e que apresentamos, mas é isso que nos faz Expresso Transatlântico", rematou.
E "porque nada tem um fim", como o nome de uma das músicas da banda defende, fica o convite dos Expresso Transatlântico para que todos quantos quiserem entrem na próxima paragem musical.

