Rão Kyao desde há muito que se encantou pelo fado e pelas flautas de bambu. O mais recente disco, "Em'Cantado", à lançar hoje, segunda-feira, é uma simbiose destas duas paixões.
O CD é apresentado em dois discos. Num, o fado, com as vozes de Carminho, Ana Sofia Varela, Camané, Ricardo Ribeiro, Tânia Oleiro e Manuela Cavaco. No outro, ouve-se a "voz" da flauta solo de Rão Kyao. No fundo, diz o artista, "fadistas e flauta cantam as emoções do fado".
Este trabalho surge dividido à maneira dos discos de vinil, com um lado A e um lado B. O que justifica esta opção?
A minha ideia era fazer um disco em que as minhas composições fossem interpretadas por uma série de fadistas. Como a flauta é também um deles, achei que deveria dar oportunidade ao seu "canto", no chamado lado dois do disco. Não quis modificar muito o nível sonoro do CD, que inclui 25 temas originais. O meu objectivo foi recriar o ambiente intimista do fado e, ao mesmo tempo, estabelecer uma unidade nos dois discos.
Como surgiu a oportunidade de, pela primeira vez, colaborar com um naipe tão emblemático de fadistas?
Há bastante tempo que tenho uma ligação estreita com o fado. De vez em quando, às segundas-feiras, toco numa casa de fados em Lisboa, a Mesa de Frades. Vou lá, pego na flauta, e faço os temas de fado. É interessante porque as pessoas entendem que, com a flauta, estou a "cantar" os versos. Ela tornou-se como um prolongamento da minha voz em relação ao fado. Comecei a pensar: vou fazer um disco para ser cantado. A ideia foi essa. Como conheci um conjunto de fadistas extraordinários, convidei-os.
A ligação da flauta de bambu com o fado é surpreendente. Em "Em'Cantado", nota-se também muito as suas influências orientais...
Para mim, a música faz parte do mundo do espírito e esse mundo é fantástico. Não nego que a música oriental é uma influência muito grande para mim. Mas, ao mesmo tempo, interessa-me embrenhar-me na tradição da música portuguesa e no fado. Podem parecer universos muito distantes, mas, para mim, não. Comecei a identificar-me com a música indiana porque ela se baseia na expressão profunda das emoções. Ora, coisa mais parecida com o fado do que isto não deve haver. Porque também ele é a expressão de emoção.
O Rão Kyao começou por ser um músico de jazz. Tocava saxofone. Agora, opta pela flauta de bambu.O que ditou esta viragem?
Mesmo ligado a um quarteto de jazz, sempre fui um folclorista. Formei-me no jazz e ele deu-me uma coisa fantástica, que é a facilidade de lidar musicalmente com situações inesperadas, com a improvisação. Mas larguei cedo a linguagem específica do jazz americano. Senti mais necessidade de apresentar coisas ligadas à cultura musical do sítio onde nasci e da sua ligação com o Mundo. Com essa costela lusa de navegadores e capacidade de integração. É isto que se manifesta na música que faço.
Foi essa necessidade de multiculturalidade que o levou à flauta de cana?
Sempre toquei flauta de bambu. O que acontece é que era autodidacta. Só nos anos 80, tive a oportunidade de aprofundar o seu estudo, com um mestre flautista indiano.
Já não dispensa a companhia...
Não. Ando sempre com cinco ou seis num saco a tiracolo. Se vou na rua e vejo uma árvore a ser cortada, ponho-me a tocar. Tenho essa mania. Sempre gostei de tocar em qualquer lado. Até com os pássaros. Quando toco, dá-me a sensação de que, na verdade, estou é a cantar. A flauta é a minha voz.
