Florian Zeller: "Quis que Anthony Hopkins se confrontasse com a sua própria mortalidade"

Florian Zeller, realizador de "O pai"
Lewis Joly / POOL / AFP
Realizador, autor da peça original e vencedor do Oscar de Melhor Argumento Adaptado, Florian Zeller fala de "O pai" e do trabalho com Anthony Hopkins.
Estreada em 2012 em Paris, com interpretação de Robert Hirsch, a peça de Florian Zeller, "O pai", conheceu um imenso sucesso, passando pela Broadway, com Frank Langella no protagonista, e pelos palcos do West End londrino, com Kenneth Cranham, antes de percorrer 45 países, entre os quais Portugal. Foi João Perry que interpretou a personagem, numa encenação de João Lourenço para o Teatro Aberto, em 2016. Agora, Zeller não só adaptou a peça a argumento cinematográfico, trabalho pelo qual venceu o Oscar, partilhado com Christopher Hampton, como decidiu estrear-se na realização. Anthony Hopkins venceu há dias a sua segunda estatueta por um trabalho que supera tudo o que já o víramos fazer.
Vendo o filme não o podemos imaginar sem Anthony Hopkins. Mas já tinha havido outros atores a representar a personagem nos palcos.
Quando comecei a sonhar em fazer este filme pensei imediatamente nele. E é por isso que decidi fazer o filme em inglês. Era um desejo muito forte. É subjetivo, mas considero-o o maior ator vivo. E tinha a intuição que neste papel em particular ele seria magnífico.
O que pensou desde logo retirar dele?
Conhecemos um ator por todos os papéis que ele representou e o Anthony Hopkins é o homem da inteligência e do controlo das situações. Achei que fazia sentido ver este ator precisamente a perder o controlo. E desde miúdo que acho que ele anda aí, está presente nos ecrãs, vivemos com ele. Tenho a impressão que toda a gente tem a mesma sensação. Pensei que podia fazer eco ao espectador a experiência que queria apresentar, a saber, ver alguém que pensamos conhecer tornar-se, a pouco e pouco, outra pessoa.
É verdade que é essa a sensação que dá...
Foi esse o desafio, não fui pedir-lhe para fazer o que sabe fazer ou que fizesse aquilo que conhecemos, mas que tentasse explorar um novo território emocional e ousasse ir na direção desse lugar de extrema vulnerabilidade e de extrema fragilidade que ele próprio não conhecia. Não era tanto fabricar uma personagem, o que seria fácil, porque ele é um ator do método, não é preciso falar com ele horas seguidas sobre a personagem, mas tentar ser o mais simples, o mais sincero e o mais profundo possível.
Como é que ele reagiu a essa proposta?
Quando o vi pela primeira vez colocou-me muitas questões, para saber qual era a minha visão do filme, e senti que não precisava de muito para o convencer. Perguntou-me se era mesmo útil que a personagem se chamasse Anthony. Disse-lhe que era importante para mim, para jogar com o espectador entre o que é a ficção e a realidade mas, mais do que isso, precisamente porque era um convite para ele usar aquilo que ele é. E na véspera da rodagem, muitos meses mais tarde, voltou a essa questão.
Como é que discutiram o conceito da personagem?
Não era tanto criar uma personagem, um velhote doente. Podíamos facilmente cair no lugar-comum. A ideia era apenas pedir ao Anthony para ser ele mesmo, em frente à câmara. Se a personagem se deixasse invadir pelas emoções, que fossem as dele. Se fosse necessário mostrar os medos, que fossem os dele. Que no fundo ele se confrontasse com a sua própria noção de mortalidade.
Ele falou consigo sobre esse tema, a idade dele, a sua mortalidade?
Não, porque é algo de evidente. Mas quando lhe dizia para ser ele próprio, era disso que falava. Nas primeiras conversas questionava-se sobre quais os primeiros sintomas de alguém que sofre de Alzheimer, como é que essas pessoas se mexem. Mas disse-lhe logo que não era por aí que ele devia ir. Não queria que imitássemos as pessoas que conhecemos e que sofrem dessa doença. O ponto de partida era ele. Na posse das suas faculdades. E é isso que vamos começar a vê-lo perder. Essa força, essa vitalidade.
Estava com ele quando viu o filme pela primeira vez?
Não, ele estava em Los Angeles. Na realidade, nunca vi o filme com ele, apercebo-me agora que pergunta. Por causa da pandemia. Organizámos uma projeção e telefonou-me logo a seguir. O Anthony Hopkins é uma pessoa muito generosa, partilha facilmente as suas emoções. Diz logo o que pensa, o que torna a colaboração muito mais fácil. Penso que ficou perturbado porque foi só ao ver o filme que se deu conta da violência do que assistimos.
Quando escreveu a peça que deu origem ao filme baseou-se em alguém da sua família ou alguém que conhecia?
Sim e não. Foi uma forma de explorar uma história pessoal. Fui educado pela minha avó, uma pessoa muito importante para mim, e ela começou a sofrer de demência senil quando eu tinha 15 anos. Sei precisamente o que é atravessar esse processo doloroso, o que é encontrar-nos numa posição de impotência. Mas sabia também, quando comecei a escrever a peça, que não era o único nessa situação e que toda a gente tem uma avó. Ou que toda a gente tem um pai. Enfim, não era para contar a minha história, mas para partilhar as minhas emoções. Sabia que ia tocar em algo que todos partilhamos. Esses medos, essa fragilidade, esse amor por vezes testado pela realidade.
A peça teve um impacto muito forte em todo o lado...
Eu estive em Portugal a ver a peça. Mas senti que a reação era a mesma em todos os países. As pessoas vinham ter connosco a seguir às representações, não para dizer "bravo" mas para nos contar as suas próprias histórias. Percebi que a peça tinha esse efeito catártico, servia para nos recordar que pertencemos a algo maior do que nós próprios, que somos todos irmãos, mesmo que irmãos nessa dor. Foi isso que tentei tocar com o filme.
Tem alguma memória em particular da sua passagem por Portugal?
O que é mágico no teatro é que são vidas diferentes de cada vez. Há sempre a marca do encenador e também do ator, cada representação tem a sua identidade. Não falo português, mas como conheço a peça de cor parecia que sabia, porque percebia cada frase e cada situação e dei mesmo comigo a rir. Fui com o meu filho e foi a ocasião de descobrir Lisboa. Tenho recordações muito boas dessa viagem.
Hesitou antes de dar este passo de passar à realização de cinema ou era evidente que era com este material que o tinha de fazer?
Era uma evidência. Nunca sonhei fazer filmes, sonhei fazer este filme. Era muito claro e tinha de o ser, porque fazer um filme ocupa-nos muitos anos de trabalho. É preciso ter muita vontade e que seja mesmo necessário. Caso contrário não vale a pena. Eu sabia que esta história podia ganhar outra dimensão graças ao cinema. Mas não queria que fosse apenas uma história, mas sim uma experiência. Queria colocar o espectador numa posição única. Que utilizasse o seu cérebro e o seu coração. Que fosse capaz de navegar num labirinto.
Sem revelar muito, a sequência final é verdadeiramente perturbadora. Pode recordar um pouco o que se passou durante a rodagem dessa cena?
Filmámos a cena com algum nervosismo. Ele sabia também onde se queria tocar mas ao princípio foi difícil. Fez coisas brilhantes, mas não era o que eu queria. Foi mesmo um pouco conflituoso, porque o obriguei a ir a um sítio que lhe era doloroso. Por vezes, reagiu como um animal ferido, com violência.
Como é que resolveu a situação?
De repente passou-se qualquer coisa da ordem do milagre. Ele viu um par de óculos que faziam parte da decoração que lhe recordaram os óculos do pai quando era pequeno e, por associação de ideias, lembrou-se da canção que a mãe lhe cantava. E vi como ele se tornou uma criança de cinco anos mesmo à minha frente. De facto, ele não representa uma criança que chora e que pede ajuda, ele tornou-se essa criança. Vi-o viajar no tempo 65 anos. Toda a equipa estava em lágrimas. Quando disse "corta" corri para ele e abracei-o. Foi um dos mais belos momentos da minha vida.
