
Além de ser ator, Guillaume Canet dedica-se também à realização
Gabriel Bouys/AFP
O ator francês Guillaume Canet falou ao JN sobre “Ácido”, filme com uma forte mensagem ambiental em estreia nas salas nacionais esta quinta-feira.
Durante uma vaga de calor, estranhas nuvens causam uma chuva ácida por toda a França. Num mundo à beira do abismo, uma rapariga e os seus pais divorciados têm de unir esforços para tentarem escapar à catástrofe climática. É assim “Ácido”, o drama familiar sobre fundo de thriller e filme-catástrofe, dirigido por Just Philippot. Depois de realizar e interpretar o último Astérix do cinema, Guillaume Canet interpreta este filme, uma das revelações do último Festival de Cannes, onde falou ao JN.
Quando foi convidado para fazer este filme já devia estar no meio da “máquina” Astérix…
Eu adorei o primeiro filme do Just, “La Nuée”. Achei-o formidável pela tensão, pela nervosidade, pelo ritmo controlado durante todo o filme. Fiquei com muita vontade de trabalhar com ele. Quando me enviou o argumento encontrei todos esses ingredientes. Agradou-me imenso e deu-me vontade de fazer parte deste filme e desta aventura.
É um filme de género mas também um filme imensamente humano…
Penso que é um filme que tem a sua força precisamente nisso. De um lado é um filme catástrofe, com toda essa grandiosidade, e por outro lado é um filme muito íntimo. É uma pequena história inscrita na Grande História. A pequena história, íntima, desse homem e da sua ex-mulher, e da filha, bloqueados por aquela catástrofe climatérica contra a qual já nada podem fazer, porque é demasiado tarde. A única coisa que lhes resta é salvar as suas vidas.
Aquelas personagens têm de se esquecer de tudo o resto para se salvar…
Quando nos encontramos numa situação extrema, como é o caso, revela-se muito sobre a nossa natureza. Será que, face a uma situação como esta, reagiríamos da maneira correta? Será que vamos ser fortes e generosos? Ou vamos ser fracos e egoístas, e só pensar em salvar a nossa pele? Foi isso que achei fantástico, passar uma mensagem sobre a catástrofe ambiental, mas também sobre a profundidade da natureza humana.
Já disse que no filme era demasiado tarde, espera-se que na vida real não o seja. O que faz no seu quotidiano, para tentar salvar o planeta?
Faço muitas coisas. Só assim teremos a possibilidade de nos salvar. Faço parte das pessoas que têm necessidade de prevenir os outros. Por exemplo, através das mensagens que o cinema pode transmitir. O cinema é um meio de comunicação. Mas, ao mesmo tempo, tento sempre manter-me bastante positivo. É importante pensar que a Humanidade pode ser suficientemente forte na destruição, mas pode ser também suficientemente forte na reconstrução.
E no seu dia-a-dia, tem essa consciência?
Gosto de pensar que, se cada um de nós fizer a sua parte, se formos todos positivos, podemos ultrapassar esta situação. No meu quotidiano, são os meus hábitos, o ritmo devida, não desperdiçar, a entreajuda, questionar-me sobre o consumo, sobre o trabalho. São tudo temas que me tocam bastante.
Acha que os governos, nomeadamente o francês, estão a tomar as medidas que se impunham?
Estou perplexo em relação a uma situação que na realidade não está a melhorar. Não sou político e ignoro as razões porque estamos há tanto tempo à espera de medidas que já deviam ter sido tomadas e não foram. Sem fazer juízos de valor, interrogo-me porque é que as coisas não avançam mais depressa. Porque nos diz respeito, a todos e a todas. Espero que este género de filme possa sensibilizar toda a gente.
Depois de começar a realizar, é para si hoje mais difícil ser “apenas” ator?
Não, não. Adoro ser ator. Trabalhar como realizador num filme é um trabalho enorme. Há uma pressão enorme. É verdade que adoro ser o líder numa aventura, trazer pessoas comigo para contar uma história. Mas também adoro trabalhar com um realizador como o Just Phillipot, alguém preciso, muito talentoso. É muito agradável sentir-me levado por pessoas assim. É muito entusiasmante participar numa aventura como esta.
Quando filmou não via como estava a imagem, ainda não havia a música e o som, que são soberbos. O que pensou quando viu o filme?
Fiquei impressionado pelo filme. Pela montagem, pela mestria com que, uma vez mais, conta uma história, com essa tensão que nos prende.
Depois de uma primeira experiência não muito agradável para si, tem vontade de voltar a filmar nos Estados Unidos?
Porque não? Mas talvez de outra forma. O trabalho com atores americanos e ingleses é formidável, porque há atores extraordinários, em Inglaterra, nos Estados Unidos, pelo mundo inteiro. Tenho o desejo de um cinema internacional. É verdade que a forma como filmámos nos Estados Unidos foi muito complicada. Mas há muitos outros sítios onde podemos filmar em inglês. Pode voltar a interessar-me, porque não?
Quais são os seus projetos no imediato?
Fiz um filme em Itália, com um realizador muito talentoso, que se chama Gianluca Jodice, onde interpreto o papel de Louis XVI. É sobre os últimos meses da vida do rei. Penso que vai ser um filme formidável. E fiz um filme com o Stéphane Brizé, “Hors-Saison”. É a primeira vez que trabalho com ele, tinha imensa vontade de o fazer. São dois filmes que vão estrear em brave. E também fiz um filme com o Yann Attal.
E uma nova realização?
Começo a pensar num novo filme. Tenho várias ideias mas ainda não há nada de preciso e de concreto. Levo sempre algum tempo a decidir o filme que quero fazer a seguir.
