Das seis escolas públicas que, em Portugal, se dedicam ao ensino especializado da música, três incluem nos seus planos o curso de guitarra portuguesa e têm crianças a aprender a tocar.
E, apesar de não faltar quem fabrique instrumentos para os miúdos, um grave problema se coloca: não há material pedagógico apropriado. Até a nível físico, a maioria das peças é difícil, se não mesmo impossível, de interpretar por mãos tão pequenas.
Em 1998, o curso chegava à Escola de Música do Conservatório Nacional, em Lisboa, através do professor João Maria Torre do Valle. Mas, um ano antes, já havia sido implementado no Conservatório de Música de Coimbra, tendo Paulo Soares sido o primeiro docente. Foi, aliás, o mesmo guitarrista que, em 2002, fez chegar a disciplina ao Conservatório de Música do Porto (CMP), então a título de curso livre.
O JN assistiu a uma aula do António e da Cláudia, dois dos alunos mais novos entre os 11 que frequentam o curso no CMP, sob a orientação de Nuno Dias. Segundo o professor, o principal problema que se coloca aos mais pequenos "é a falta de material pedagógico apropriado". O método de Paulo Soares para guitarra portuguesa foi elaborado para adultos e, paralelamente, fora do universo do fado há poucos compositores para este instrumento. A propósito, o docente cita nomes como Pedro Caldeira Cabral e Ricardo Rocha, mas nenhum se dedica à música para crianças.
Ter de fazer as unhas
Depois, e sem esquecer as dificuldades com que qualquer principiante se depara (desde logo, o facto de a guitarra portuguesa ter 12 cordas de aço), os mais pequenos têm também de adaptar-se às unhas postiças, o que não é fácil. E são eles que têm de fazê-las, em acrílico, quando chegados ao 3.º grau.
Não é o caso, para já, nem do António, nem da Cláudia. Ele tem 11 anos e está no 2.º grau. Ainda na fase de melhorar a movimentação dos dedos e de consolidar a posição da mão esquerda, o rapaz parece ter vergonha do que toca e por isso toca baixinho, coisa que o professor tenta contrariar. "Já tinha ouvido algumas músicas e, como gostava do som da guitarra...", diz António, em jeito de suspensão. Mas não se pense que as poucas falas têm correspondência no pulsar das cordas, pois logo nos faz ouvir o início de "Verdes anos". "Dentro do repertório de Carlos Paredes, não há muito mais que se possa adaptar para crianças", justifica Nuno Dias.
Menos tímida, Cláudia vai nos dez anos e no 1.º grau do curso. "O meu pai e a minha mãe gostam muito de fado e puseram-me a ouvir quando era pequena", conta. Para trás fica mais uma sessão em que trabalha, sobretudo, a leitura da partitura, além da técnica e da estabilização das mãos. Em casa, esperam-na uns 45 minutos de treino e uma pequena sessão musical familiar, após o jantar. "Quero ir longe", remata.
A falta de repertório adequado obriga Nuno Dias a um de dois caminhos: ou faz as músicas para os miúdos, consoante as dificuldades técnicas de cada um, ou faz a transcrição do que é possível da guitarra clássica, "pois é um instrumento sistemático há muito tempo", tal como o piano e o violino, com os quais não se coloca o problema da falta de material pedagógico.
Apesar de a média no CMP ser de 15 alunos em cada ano, António Moreira Jorge, director da instituição, reconhece que a guitarra portuguesa "ainda não tem muita procura". A guitarra clássica, o violino e o piano continuam a ser, como noutras escolas, os instrumentos mais procurados, apesar de se tentar contrariar essa tendência. De futuro, o Conservatório do Porto tenciona "alargar a oferta educativa", a nível de guitarra portuguesa, órgão, sopros e outros, "no sentido de dar resposta ao desejo de muitos adultos e até à vocação tardia de muita gente", acrescenta.
