
Diretor há dois anos, António ponte quer reforçar a abertura do museu à comunidade
Pedro Granadeiro / Global Imagens
Do "Desterrado", de Soares dos Reis, à sala de Aurélia de Souza, as peças mais icónicas vão continuar a ter o protagonismo de sempre, mas, ao percorrer as 27 salas e os 1900 metros da quadrados de exposição, é impossível ao visitante não se confrontar com a ideia de que algo mudou no Museu Nacional de Soares dos Reis (MNSR).
"Apostámos numa relação mais próxima entre as manifestações artísticas. Não há uma sala dedicada em específico à pintura, escultura ou cerâmica. Elas cruzam-se e interligam-se para ajudar a contar as narrativas de uma forma articulada", diz António Ponte, diretor do museu, que, desde a sua entrada em funções, há dois anos, assumiu como prioritária a nova exposição de longa duração do MNSR.
Com abertura projetada para o final do mês, a reconfiguração do espaço foi o resultado de encontros e reuniões com museólogos e instituições sobre as práticas mais adequadas para essa apresentação.
É preciso recuar quase 25 anos para que se encontre uma renovação idêntica na vasta coleção do centenário museu portuense. Por isso, António Ponte reconhece que "existe uma expectativa muito grande" por parte dos visitantes assíduos. Mesmo estes, garante, irão ser surpreendidos com obras que já não são expostas há 30 anos.
Das mais de 1100 peças que integram a exposição, 230 foram alvo de restauro. O número superior de objetos expostos reflete-se nas manifestações artísticas representadas - cerca de 14 -, da pintura aos instrumentos musicais.
Finalmente, o site
Um dos principais esforços feitos ao abrigo da nova exposição prende-se com uma maior clareza na comunicação. "Não chega ser um texto bem escrito. Tem de ter inteligibilidade", acentua o diretor, que destaca ainda o esforço na edição de catálogos "raisonné".
A introdução de audioguias e demais complementos digitais não vai avançar para já, embora o museu não os descarte no futuro.
O que está pronto a arrancar é o site oficial, um projeto de longa data cuja morosidade na implementação se explica pela forma como o MNSR buscou um perfil diferente dos da maioria. "Procurámos colocar-nos no lugar do público, sobre o que pode ver, e não tanto na história do museu ou na mensagem do diretor."
O site é apenas a última etapa de uma campanha mais alargada de refrescamento da imagem do museu, que passou por um novo logótipo e marca, ou até pela transferência do balcão de atendimento para uma zona lateral, para que não fosse um obstáculo à entrada dos visitantes.
A necessidade de "desinstitucionalizar sem perder referências" é uma das prioridades do mandato de António Ponte. Para perceber as razões da faixa etária elevada da maioria dos visitantes, o museu encomendou um estudo junto dos jovens e estudantes universitários, questionando-os sobre as reduzidas idas ao museu. "Percebemos que a própria fachada do museu intimida", explica o diretor, convicto de que essa imagem austera "já tem vindo a mudar".
Atento à vizinhança
Para a mudança que já está a ser operada contribuem as iniciativas de abertura à comunidade. A começar pelos vizinhos institucionais do Museu de Soares dos Reis: a Universidade do Porto e o Hospital de Santo António, parceiros de várias atividades que já têm vindo a realizar-se e deverão intensificar-se no futuro, como exposições ou colóquios.
Apesar de ainda não ter atingido o índice de visitas pré-pandemia - foram 56 mil em 2022, menos quatro mil do que em 2019 -, Ponte acredita que esse número será ultrapassado assim que a nova sala de exposição de longa duração abrir portas, mas também com algumas das apostas para o ano em curso.
É o caso da mostra que revela a dimensão de colecionador de Fernando Távora, o arquiteto nascido há cem anos, que no início deste milénio liderou o projeto de renovação do MNSR.
A contemporaneidade não é um terreno interdito, acredita o diretor do museu nacional mais antigo do país, pois "é possível tratar de temas contemporâneos a partir das leituras e interpretações da nossa coleção".
