
O amor e o interesse pela música barroca deu origem a Hark!, um espetáculo da portuense Luísa Saraiva e da turca Senem Gökçe Oğultekin que tem o som como principal protagonista e estreou em Portugal esta terça-feira, no Festival Dias da Dança. O espetáculo continua disponível na Sala Virtual BOL.
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Hark!, que significa ouvir com atenção, cria uma relação com o público através de corpos que produzem sons, também através do canto, numa espécie de desconstrução que estreita a relação entre aquilo que é sonoro e o que é visual. Ouvimos o que vemos e vemos o que ouvimos.
Em palco, o quarteto composto pelas criadoras e pelos músicos Nathan Bontrager e Peter Rubel parte do conceito teórico do libreto "Hail! Bright Cecilia", de Henry Purcell, de 1692, para suportar a busca por um corpo acústico que ouve, recebe, ecoa e reverbera. O texto de "Hail! Bright Cecilia" é, na verdade, de Nicholas Brady, em honra de Santa Cecília, padroeira dos músicos.
O espetáculo Hark! foi inicialmente desenhado como uma performance ao vivo em que se pretendeu criar "uma experiência sonora imersiva" informal, com foco "no movimento do som a passar pelo público", sintetizam as criadoras Luísa Saraiva e Senem Gökçe Oğultekin. Ambas estudaram na Universidade de Folkwang, em Essen, na Alemanha, juntamente com o músico Peter Rubel, que é de lá natural. Já Nathan Bontrager é um multi-instrumentista norteamericano que já trabalhou com nomes como Anthony Braxton ou Marc Ribot e integra grupos de música contemporânea na Alemanha.
Para além do conceito teórico de Purcell, o espetáculo tem como base sugestiva os textos do dadaísta Tristan Tzara, pioneiro a desintegrar as estruturas da linguagem artística com o objetivo de chocar o público. É, em parte, isso que acontece com a experiência sonora de Hark!.
Como referência visual, o espetáculo aborda ainda a prática católica de oferendas de órgãos e membros feitos em cera como agradecimento pela cura divina proporcionada nesses mesmos membros. Esta espécie de ritual de desfragmentação e simulacro do corpo próprio ainda hoje está presente em muitos locais de Portugal, especialmente em concelhos que são destino de romarias religiosas, como Ourém (Fátima) e Terras de Bouro (São Bento).
Ao procurar uma qualidade auditiva e acústica na dança, Luísa Saraiva e Senem Gökçe Oğultekin admitem que esperam "criar um contexto que privilegia os efeitos da ressonância e da vibração na experiência de ver dança e na forma como se pode ficar comovido e sensibilizado pelo som".
O espetáculo vai ser apresentado de forma exclusiva por transmissão online entre 27 e 29 de abril e o acesso custa 3,50 euros.
