
"Estou sempre à espera de me espantar com alguma coisa, ultrapassar a previsibilidade dos dias"
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Henrique Manuel Bento Fialho (1974) é o Autor do Mês da "Companhia dos Livros". Poeta, ficcionista e dramaturgo, lançou, no espaço de um ano, três livros ("Micróbios, "Levedura" e "Na cama com Ofélia"), pontos de partida para uma longa conversa da qual publicamos agora a primeira parte.
Os vários livros que Henrique Manuel Bento Fialho tem vindo a publicar desde 2003 são apenas uma ínfima parte da sua ligação à literatura e às artes, que atualmente passa pela dinamização cultural do Teatro da Rainha e pela colaboração em vários projetos ligados à escrita, sobretudo na Internet. Licenciado em Filosofia, Bento Fialho atribui à literatura o poder de nos resgatar de um fluxo noticioso constante que nos insensibiliza, devolvendo-nos a condição de espanto.
Ao longo deste mês. a obra do autor de "Call center" vai estar em evidência, através da publicação de uma entrevista de grandes dimensões (dividida em duas partes), fragmentos dos seus livros e recensões críticas.
Publicou, no espaço de alguns meses, três livros. Os livros, para si, querem-se sempre acompanhados?
Antes de mais, os livros são excelente companhia. Acompanhados por um bom vinho, fazem-nos acreditar no melhor dos mundos.
Esses três livros são diferentes entre si e têm origens distintas. "Micróbios" reúne um conjunto heteróclito de pequenas narrativas, género que muito aprecio e venho cultivando com a regularidade diarística. "Na cama com Ofélia" é uma peça de teatro, resposta a um desafio do encenador Fernando Mora Ramos. Devo-lhe a motivação e a confiança, num desses raros encontros que concedem sentido à vida. "Levedura", o mais recente dos três, resultou de uma residência literária em Rio Maior, localidade onde nasci. Procura equilibrar poema em prosa e conto, géneros que há muito se fundem e confundem.
Há em mim uma incorrigível inclinação para objetos ambíguos, híbridos, difíceis de catalogar. Quero ser um desafio para livreiros e bibliotecários.
O que lhe traz a escrita para a tentativa de compreensão das perplexidades do Mundo? Ou, de outro modo, parafraseando Manuel António Pina, porquê a escrita e não outra coisa qualquer?
São dois problemas em um. Anterior à escrita é a leitura. A leitura oferece-me, de facto, ferramentas para construir momentos de compreensão. Desconfio que me conheço melhor a ler os outros. Não sei se escrever traz alguma compreensão do mundo e das suas perplexidades, até porque, ao escrever, acabo por questionar esse mundo acrescentando-lhe mais perplexidades.
Não alimento qualquer veleidade explicativa do que quer que seja, as certezas entediam-me. Estou sempre à espera de me espantar com alguma coisa, ultrapassar a previsibilidade dos dias, a rotina monótona que por vezes nos leva a pensar já tudo ter sido vivido. É o melhor que a arte tem: a restituição do espanto.
Hoje em dia, reconheço, fica difícil, o fluxo noticioso distrai-nos, rouba-nos concentração e insensibiliza-nos. Os smartphones estão a usurpar-nos inteligência, ficam com a parte' smart' toda para eles, são sugadores de reflexão e de espírito crítico. Este é o meu lado conservador a falar.
Talvez a escrita seja o momento de interrupção que me resgata do fluxo, afasta-me e, por me afastar, oferece-me um enquadramento panorâmico. Quero acreditar que sim, que a solidão inerente ao ato de escrever nos desconecta. A escrita não está sozinha neste processo. Quando toco guitarra sinto o mesmo, desconecto-me. Até quando cozinho.
Respondo à citação com outra citação, da Marina Tsvietaieva: «Para que escrevo? Escrevo porque não posso não escrever.»
Acredita que as palavras são tão ou mais frágeis do que as célebres louças das Caldas, de onde é oriundo?
Conheço mal a louça das Caldas, confesso, mas não creio que seja frágil. A pouca que conheço é assaz robusta e viçosa. Vocês sabem do que eu estou a falar.
As palavras são o que são, o que fazemos com elas é que é tramado. A ver teatro aprende-se que a textura das palavras está no modo de dizê-las. Uma mesma palavra assume significados e sentidos diferentes quando e se pronunciada de modos diferentes. Isto é fantástico de se observar. Mais do que frágeis ou sólidas, as palavras são dúcteis, moldam-se como o barro.
Acredito, no entanto, num poder que as palavras têm e vem sendo negligenciado. É o poder «dizer como tudo é outra coisa», para citar Herberto Helder. A palavra certa no lugar certo é o único milagre em que acredito.
Ouvimos muitas vezes dizer que não há palavras. Quando solicitadas a descrever um acontecimento, uma sensação, as pessoas dizem não ter palavras. Claro que há, elas existem, o vocabulário de cada um é que vem sendo tão reduzido que às tantas estamos todos a dizer o mesmo. Não estou a defender discursos incompreensíveis, herméticos, o exibicionismo da palavra, que também existe. Estou antes a sublinhar a alegria de ir ao encontro das palavras como quem se abre ao diverso, adotá-las, usá-las, jamais prescindir delas ou permitir que caiam em desuso.
Se os grandes temas da Humanidade são os mesmos desde Homero, o que está ainda por dizer?
Os grandes temas podem ser os mesmos, mas a humanidade não. Logo, ainda há muito por dizer e está sempre tudo por fazer. Não sendo a humanidade a mesma, os seus grandes temas terão inevitavelmente de assumir novas formas.
Quem leia os clássicos apercebe-se, sem dúvida alguma, da riqueza que neles há, a capacidade extraordinária de tocar a superfície do essencial. Peço desculpa pela expressão, esta coisa da "superfície do essencial" soa a poesia rasteira. Não tenho, no entanto, outra expressão para o efeito.
A guerra, por exemplo, é tema desde o "Épico de Gilgameš", mas naquele tempo ainda não havia a mãe de todas as bombas nem bombas sujas e outras limpas nem toda essa porcaria que coloca, com realismo atroz, a ameaça do apocalipse sobre as nossas cabeças.
A revolução tecnológica que estamos a viver é outro desafio, essa lenta passagem do manuscrito aos carateres contabilizados em Microsoft. São coisas novas com implicações tremendas nos tais grandes temas. Veja-se a amizade, palavra central na ética de Aristóteles. Como pensá-la em tempos de Facebook? E o amor, pode ser hoje pensado da mesma maneira quando deparamos com o casamento de um engenheiro chinês com um robot? O tal futuro pós-humano de que tanto se fala desde a ovelha Dolly está a levar-nos para onde? Em que é que nos estamos a transformar? Tudo isto está por pensar e dizer, só para dar alguns exemplos.
O que arrelia, mais do que a sensação de que tudo foi dito, é constatar quão pouco a humanidade aprendeu com os erros, insiste na desmemória e no revisionismo, em ornamentar a História levando a crer que o passado foi o que não foi e já lá vai. Estamos sempre a varrer para debaixo do tapete. Costumo dizer que o maior erro é não aprendermos com os erros, os problemas começam nessa dificuldade de reconhecimento, na ausência de autocrítica.
Como é possível, em pleno século XXI, depois de tanta ciência, tanta descoberta e invenção, depois de tanto debate, haver quem acredite numa virgem que pariu um menino, haver quem confie em Bolsonaro, haver quem defenda Putin? Talvez seja possível por haver muita gente que prefere uma mentira consoladora a uma verdade inquietante. Talvez.
Somos "presas do medo e das ambições", como escreve em "Levedura". Em que sentido os livros podem libertar-nos desses cárceres?
É preciso contextualizar a frase, surge num texto intitulado "Felicidade". Esta "Felicidade" é nome próprio, de mulher. É ela quem fala nesse texto, estabelecendo fronteiras entre um outrora e um agora. Diz: «Os homens quase abandonaram a caça para serem presas tanto do medo como das suas próprias ambições...» Tornámo-nos presas de nós próprios, dos medos íntimos e das ambições interiores que nos agrilhoam. De certo modo, somos a nossa primeira ameaça, nós e tudo quanto dentro de nós impede a emancipação, gera muros, obstaculiza uma relação livre e descomplexada com o outro. O inferno são os outros? Bem, o inferno pode estar dentro de nós. Que podem os livros nesta conjuntura? Libertar-nos de nós próprios.
Como suponho ter ficado implícito numa das respostas anteriores, esses momentos de compreensão que a leitura oferece definem-se, principalmente, pela abertura do eu ao outro. Há aquele título magnífico da Maria Gabriela Llansol: «o encontro inesperado do diverso». Diz-me muito, isto, este encontro com a diversidade gerado pela leitura.
Por outro lado, e indo ao encontro da questão, enquanto escritor a libertação dá-se pelo desdobramento do eu. Não comungo a ideia algo mística de uma escrita catártica que expurga males interiores, embora também possa suceder. Feitas as contas, estamos sempre dentro de nós. É uma chatice. Contudo, estou absolutamente convencido de que o meu inferno interior seria insuportável se não escrevesse. Tenho um livro com um título péssimo, "Suicidas", que em certa medida é sobre isto mesmo. Termina com uma citação conhecida de Ruy Belo: «Ao escrever, mato-me e mato.» E isso é bom.
A levedura de um texto pode ser mais intensa do que a da cerveja ou vinho?
Do que a da cerveja, certamente. Mas com o vinho não tem hipótese.
As leveduras são organismos microscópicos de uma relevância fulcral. Questiono-me sobre o que possa ser isso da levedura de um texto. Que tipo de levedura será a levedura de um texto? O que é que leva um texto a fermentar e crescer?
Sugiro, em alternativa, que consideremos o texto a levedura do pensamento. O texto é um microrganismo que permite o pensamento fermentar e crescer. Acho que faz mais sentido assim.
Como dizia o Fernando Alves a propósito de "Micróbios", tem "uma prosa danada de gozo". O divertimento é mesmo o estado de alma preferencial quando escreve?
Gostei desse apontamento do Fernando Alves na TSF, por ser claro, objetivo e preciso, à maneira dos textos críticos de Jorge Luis Borges. Gosto cada vez mais desse tipo de abordagem.
Venho dizendo que para mim escrever é uma alegria, algo diferente de divertimento. Não tenho nada que ver com aquele tipo de discurso, tantas vezes repetido, do escritor que passa horrores a escrever um texto, mártir das dores de parto, o homem que carrega os males do mundo e sofre pavores com as palavras, em cada palavra uma tortura. Eh pá, façam outra coisa, não se autoflagelem, a não ser que sejam masoquistas e tais padecimentos vos deem prazer.
O desconforto é benéfico à escrita, a insatisfação e o desconsolo também, assim como a desesperança, mas no ato de escrever, para mim, só pode haver alegria. É uma alegria bêbeda, como mandava Baudelaire, nem vejo como possa ser de outro modo. Quando essa alegria bêbada se for, vai-se a escrita com ela. Mas atenção, isso é diferente de divertimento.
A certa altura cito Sam Shepard nesse livro: «Ter graça era a última coisa que me interessava. Não os queria fazer rir. Era só pela emoção de ter com eles uma relação fora do normal.» É isto que me interessa, ter relações fora do normal, escapar ao doméstico, o gozo danado vem desses momentos de libertação que não se esgotam, necessariamente, no divertimento, são antes o túnel pacientemente escavado com uma colher de chá.
Apesar do título, "Micróbios" é um livro com muita gente dentro. O humanismo deveria ser mais facilmente transmissível, à semelhança dos vírus?
O que somos senão micróbios? 8 bilhões de pessoas num mundo que é um ponto minúsculo no universo dão-nos conta do precário lugar de cada indivíduo na Terra.
"Micróbios" é um livro voluntariamente excessivo, de algum modo devedor de uma ética dispendiosa, por oposição a uma mentalidade que vive obcecada com a poupança, acumulando lixo, submetendo-se à mecânica do trabalho, pátria e família, domesticada por hábitos e rituais. Nesse livro entreguei-me por completo ao aleatório, ao acaso, ao acidental, ao imprevisto, ao êxtase do instante. Mandei a sobriedade às urtigas. O título vem de Ramón Gómez de la Serna, escritor que não era dado a poupanças. E cheira-me que era um verdadeiro humanista.
Por verdadeiro humanista entendo aquele que se empenha na defesa de valores emancipatórios, promovendo um "escrutínio crítico" do mundo que o rodeia. As dificuldades com que o humanismo se depara hoje têm na sua origem uma profunda transformação do que entendemos por humano. O que é ser humano hoje em dia? É ser títere das tecnologias? É prolongar a vida abdicando de a viver ou vivendo-a como um autómato?
O humanismo colocou o homem no centro do mundo, mas isso tinha uma razão de ser: libertar-nos do jugo de Deus. Tal desígnio obrigava a um investimento no ser humano que ficou por realizar, um verdadeiro investimento na liberdade coletiva. Quando vejo os meus formandos colados aos smartphones confesso que me assusto, há ali um inegável processo de alienação que não sei onde irá parar.
Matámos Deus (ou tentámos) para desconfiarmos dos homens, não para endeusá-los. A pobreza, a miséria, a guerra, a exploração, a manipulação, a escravatura, continuam a perseguir a humanidade como uma sombra. São ancestrais inimigos dessa liberdade sucessivamente protelada. Hoje mais visíveis do que nunca, porque os meios de comunicação social assim o permitem e desejam. Mas ultrapassada, em medida, a morte de Deus, parece que estamos a investir na morte do homem robotizando-o, domesticando-o com algoritmos.
Vejo demasiados muros concretos por aí erguidos, no México, na Cisjordânia, na Hungria, em Ceuta, Melilla, Chipre... E depois há os outros muros, aqueles que mostram uma concentração da riqueza sem precedentes e uma humanidade amorfa, incapaz de se sublevar contra este estado de coisas. Movimentos como Occupy, Black Lives Matter, Me Too ou Fridays for Future trazem algum alento, são talvez a face mais visível de um descontentamento efectivo de imediato submerso no ruído das redes. Que humanismo é este que desagrega, que faz dos fracos os maiores inimigos de si mesmos, do cidadão um voluntário da auto-negação? Assim fica difícil.
Escreve em "Levedura" que "guerra é estar vivo". Esse combate de que a existência é feita estende-se à conceção que tem da escrita e da literatura?
Sim, definitivamente.
Esse livro tem uma história, começa em trabalho de equipa. Fui guiado ao encontro de idosos para ouvir as suas memórias sobre a vida rural, como era a vindima, o trabalho no campo, os métodos de produção do pão e do vinho. Tudo isso ficou registado e está em linha num eBook. A decisão de publicar o livro autonomamente foi minha.
A literatura é um combate na medida em que se oponha a preconceitos, a estereótipos, a ideias feitas, favorecendo o pensamento livre e crítico. Evito dizer que escrevo contra isto ou contra aquilo, prefiro dizer que escrevo a favor da reflexão, do espírito crítico, da dúvida. Combate árduo.
Tomemos de exemplo o ambiente nuclear desse "Levedura", o mundo rural. Há toda uma literatura contemporânea que perspetiva a ruralidade ou com nostalgia ou com aquele tipo de idealismo bucolista que tende a fazer do campo uma espécie de paraíso perdido. Urbano-depressivos deste mundo, desenganem-se. O campo não se esgota no turismo rural nem nas quintas pedagógicas.
Tenho raízes familiares numa aldeia em que as chagas do alcoolismo, da pobreza extrema, do analfabetismo, ainda não sararam por completo. Acho piada à poesia que exalta o silêncio do campo e o chilrear dos passarinhos, a paisagem idílica e as águas límpidas nos ribeiros, omitindo a imundície nos aviários, a poluição suína que empesta a atmosfera, a exploração de mão-de-obra imigrante que enterra hoje os pés na lama em que outrora andaram enterrados os dos nossos egrégios avós.
Não me interessa uma literatura que renuncie as diferentes dimensões da existência humana, favorecendo uma contra as outras. Em tudo quanto escrevo há uma raiz que lacera o alcatrão. O meu campo não é o dos passarinhos a cantar, é o de homens e mulheres tão capazes de gestos sanguinários como de atitudes solidárias, é o de uma paisagem profundamente transformada e sujeitada a diferentes formas de exploração e espoliação, é o da intolerância à diferença e o da subserviência a uma Igreja ainda fortemente implantada entre nós. Há uma crueldade intrínseca no homem que não desaparece no mundo rural, afirma-se amiúde com extrema brutalidade.
As vozes que encontramos em "Levedura" são muito variadas. São-lhe próximas ou procura, antes de mais, o desconhecido?
Nos textos de "Levedura" misturam-se várias vozes. Estão lá as pessoas que escutei presencialmente, estão lá as vozes de inúmeros textos em que o pão e o vinho surgem retratados (da antiguidade à Emília David, padeira, de "A Morte Sem Mestre"), estou eu. Não entendo a literatura sem estes encontros, sem estes cruzamentos.
Esta relação de proximidade com o mundo parte da experiência vivida, a minha e a que escuto aos outros. O que torna estimulante o processo de escrita é nele e através dele poder ser ultrapassada a distância que separa o eu do outro. O desconhecido aproxima-se e não é por se tornar próximo que deixa de ser desconhecido. A pretensão do conhecimento do outro é inglória, o outro é sempre um mistério. Conhecermo-nos a nós mesmos já dá muito trabalho.
Há aqui um paradoxo antigo, obviamente. É o "Eu sou Tu" de Novalis, anterior ao "je est un autre" de Rimbaud.
No meu caso, haverá textos, porventura de cariz confessional, em que a minha voz impõe ou revela, embora mesmo nesses textos acabemos por descobrir um nós que era ou se tornou desconhecido. Isto acontece quando me releio. Pergunto-me: o que é feito de ti, onde te meteste, onde foste parar? E se faço estas perguntas é porque aquele eu me é desconhecido, na medida em que já não me reconheço nem me revejo nele. Às vezes até me envergonho e muitas vezes me arrependo. Mas o que é mesmo bom é quando lemos textos de outros e dizemos: isto sou eu. Esse encontro é fascinante.
"Na cama com Ofélia" revela-nos um outro lado de Ofélia Queiroz. O que o atraiu antes de mais na imagem que chegou até nós da eterna namorada de Fernando Pessoa?
Atraiu-me a possibilidade de questionar essa imagem, de a colocar em xeque. A Ofélia da minha peça independentiza-se da Ofélia Queiroz propriamente dita, uma senhora que viveu 91 anos e certamente não se esgota na relação que teve com Fernando Pessoa. Na minha Ofélia misturam-se várias ofélias, o que dá numa Ofélia nova, autónoma, independente.
Há um ensaio de José Gil que me levou a reler as cartas de amor, volume que, diga-se de passagem, pura e simplesmente detestava. Nesse ensaio ele fala de um jogo amoroso entre Pessoa e Ofélia, um jogo que esta acabou por vencer quando Pessoa foi chamado à realidade. Casar? Ter filhos? Uma casinha humilde, asseada? Está quieto. Enviou-lhe o Álvaro de Campos, fingiu-se louco, zarpou da relação. Tinha um destino maior a aguardá-lo, dizia.
Pois bem, lido isto, relidas as cartas, fiquei com a perceção nítida de que Ofélia Queiroz não era a menina ingénua fixada pela história oficial, não era uma marioneta nas mãos do génio. Quis oferecer-lhe protagonismo, chamá-la para a boca de cena, resgatá-la desse lugar de subalternidade em que a enterraram. A ela e às outras, a de Hamlet, a pintada por Millais. Isto não tem nada que ver com aquela coisa machista de por detrás de um grande homem haver sempre uma grande mulher, é exatamente o contrário. Assim como recuso o fetichismo necrófilo pela jovem suicida de "Hamlet", também me oponho a essas relações de subalternidade que colocam uns atrás dos outros como se cada um não fosse um ser autónomo e só existisse em função daquele com que se relaciona.
Na peça, o ambiente é dúbio, onírico, Ofélia ora sonha, ora está sonâmbula, ora entrega-se a êxtases místicos e bruxedos, rodeada por três heterónimos que não sabem o que fazer com um corpo. Pois como poderiam sabê-lo se são imateriais? Só ela sabe o que fazer com o corpo que tem, mesmo ou sobretudo por lhe faltar aquilo que mais deseja. Ela é corpo desejante e sexuado, eles são uma "existência de papel".
O que se retrata é, portanto, um processo de emancipação da personagem feminina. No texto escrito isso acontecia de uma forma, na solução dramatúrgica encontrada pelo Fernando Mora Ramos aconteceu com mais inteligência. Quem viu, sabe como. Quem não viu, tivesse visto. Os críticos não viram, estavam todos em Avignon.
