
Macho-Alfa 4: álbum é fluído, ritmado, de grande legibilidade e traço dinâmico, vem condimentado com humor ácido
Foto: Direitos reservados
Macho-Alfa é um super-herói genuinamente português: bruto, egoísta, prepotente, machão e com contas por pagar. Quarto volume em BD já chegou às bancas.
Chama-se David Ferreira, mas é mais conhecido como Macho-Alfa. É um super-herói: invulnerável, tem superforça, capacidade de voar e é português. Genuinamente português: bruto, egoísta, malcriado, prepotente, machão e... com contas por saldar.
A sua saga, em quatro volumes, foi concluída recentemente numa coedição A Seita/Comic Heart.
A premissa principal é que, quando decorrem no mundo real, as ações dos super-heróis têm consequências: provocam destruição e vítimas colaterais. O problema é que o Macho-Alfa não quer saber e não se importa de matar uns quantos se salvar alguns, numa aritmética que pode bater certo no papel, mas se torna absurda quando os números representam vidas humanas.
Idolatrado primeiro, depois ao serviço da NATO, da ONU e da UE na resolução das grandes crises mundiais, acaba por cair em desgraça e ser perseguido e odiado por muitos.
Numa sociedade hipermediatizada, o passo seguinte foi assinar contrato para protagonizar um reality show em que as suas ações podiam ser acompanhadas em tempo real pelos telespectadores, até que o desconhecimento de que não era expectável que transformasse a fantochada transmitida em realidade violenta o leva a cair mais um degrau.
Abandonado por quase todos, até pela namorada que o financiava, com processos às costas e dívidas incomensuráveis, aceita fazer terapia com um psiquiatra que se revelará bem mais do que isso. E, como cereja no topo do bolo, aparece o inevitável arqui-inimigo, também todo-poderoso...
Entre a sátira ao relato tradicional de super-heróis e um retrato nada meigo da nossa sociedade, Filipe Duarte Pina (prematuramente falecido antes da publicação do último volume) e Osvaldo Medina criaram um relato consistente e bem desenvolvido, fluído, ritmado, de grande legibilidade e traço dinâmico, condimentado com um humor ácido que, apesar de dispor bem, nos deve levar também a sopesar o que os autores nos serviram. Dessa forma, a tradicional trilogia super-heróica de ascensão, queda e redenção é apenas mais uma rasteira num relato em que avançamos de equívoco em equívoco, até ao inesperado desfecho, que ilustra mais uma vez que, antes de serem super, os heróis são humanos e é o pior deles que vem sempre ao de cima.
Macho-Alfa 4 (de 4)
Filipe Duarte Pina, Osvaldo Medina
A Seita/Comic Heart
80 páginas
19,95 €

