
Rui Manuel Fonseca / Global Imagens
Género literário despertou finalmente a atenção dos editores e do público, seguindo exemplo de outros países. Influência estende-se também à ficção contemporânea.
De nicho residual a segmento pujante, com uma oferta a crescer, novas coleções e uma abrangência temática improvável. Assim tem sido o percurso recente da literatura de viagens, um género que tem chegado a mais leitores, embora ainda distante da popularidade em Inglaterra ou Estados Unidos, países onde é frequente vermos estes títulos nos tops.
É impossível não relacionarmos esse surto de interesse com os confinamentos dos últimos 15 meses, que restringiram a liberdade de movimentos. "Como as viagens estão limitadas, há muitas pessoas que têm aproveitado este período para ler livros que apelam à viagem", confirma Manuel Andrade, CEO da Idioteque. O editor e escritor sabe do que fala: em pouco mais de um ano publicou "Born free", de Rui Barbosa Batista, e "Viagens de uma vida", obra de 25 bloggers, dois livros cuja aceitação no mercado "tem sido positiva". "São títulos que, embora já tenham sido publicados há muitos meses, continuam a ter saída", completa.
Muito mais do que guias
Nem todos relacionam o atual pico de interesse com a pandemia. Jornalista e escritor, Paulo Moura defende que "o interesse já vinha de trás", destacando a mudança do conceito de livro de viagem a que temos vindo a assistir. "Na era do "google maps", em que tudo já foi escrito e inventado, ainda fará sentido o livro de viagens?", questiona o autor.
A resposta, garante, está na abordagem: "Estes livros não têm de ser uma descrição sobre o que se está a visitar. Viajar para descrever o Mundo está feito. Por isso, devem ser, cada vez mais, uma reflexão sobre o país que se está a visitar. A posição do viajante convida a uma reflexão sobre o Mundo", afiança Paulo Moura.
Mas a principal mudança operada talvez tenha sido a legitimação dos livros de viagens enquanto género literário. Editor da Quetzal, uma das chancelas nacionais que mais têm contribuído para a afirmação destas obras, Francisco José Viegas considera que "ainda é frequente a confusão com os guias de viagens", mas "são dois universos totalmente diferentes", aponta.
"Há muita gente que viaja horas intermináveis num avião para ir a um hotel ou a restaurante igual ao da cidade em que vivemos, com o mesmo tipo de spa ou de comida gourmet, mas também há quem procure ainda a viagem original, sem fatiota de turista. É para eles que publicamos a coleção "Terra Incógnita"", diz.
"Convite à descoberta"
Outra forma de medir o dinamismo atual da literatura de viagens consiste em avaliar a sua influência nos restantes géneros. A ficção portuguesa é disso exemplo. Cada vez mais autores situam os livros em paisagens distantes, como é o caso de Julieta Monginho que, no seu novo romance, "Volta ao Mundo em vinte dias e meio", descreve a jornada de fuga de uma criança, em busca de uma nova esperança que o quotidiano insiste em negar. Embora o título "se refira mais a uma viagem mental do que física", a autora de "Um muro no meio do caminho" crê que essa tendência não é alheia ao facto de "os livros serem um convite adicional à liberdade e à descoberta, ajudando-nos não só à inquietação como também ao próprio desconfinamento".´
A ideia de "viajar, perder países", de que falava Pessoa, está também entranhada em "Grand Hotel Europa", romance do holandês Ilja Leonard Pfeijffer, escolhido pela chancela Livros do Brasil para inaugurar a coleção "Contemporânea". Fator fundamental para essa decisão foi, segundo a editora São José Sousa, "a reflexão sobre a identidade europeia" feita pelo narrador, um homem que, para curar um amor falhado, se aloja num hotel decadente. "Enquanto mostra nostalgia pelo passado glorioso da Europa, ele chama a atenção para os desafios do presente, como a relação com os migrantes, o regresso da extrema-direita e a dependência do turismo", aponta.
