Jay-Jay Johanson: "As minhas letras vêm dos meus desgostos amorosos, que nunca superei"

Jay-Jay Johanson: "A maioria das pessoas sabe que sou socialista e que me pode confiar os seus sentimentos"
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Jay-Jay Johanson, alquimista sonoro, poeta da melancolia e da elegância minimalista, vai dar mais três concertos em Portugal, entre Coimbra, Porto e Braga. Traz um disco novo, "Backstage". O JN falou com o cantor e compositor sueco.
Nascido na Suécia em 1968, Jay-Jay Johanson cresceu entre o jazz do pai e o fascínio pelas batidas eletrónicas dos anos 1990. Desde o álbum de estreia, "Whiskey" (1996), construiu um universo onde a tristeza dança lentamente com o encanto: uma mistura de trip-hop, jazz e pop etéreo que fez dele uma figura singular na música europeia. A sua voz, suave e envolta em melancolia, sussurra histórias de amores perdidos e noites infinitas.
Agora com 57 anos, Jay-Jay nunca seguiu modas; prefere o caminho da introspeção e da beleza imperfeita. Cada um dos seus 14 álbuns, com música forjada no trip-hop, no synthpop, no electroclash e em muitas paisagens de jazz, é uma janela para o seu mundo interior: cinematográfico, frio e terno. Ao longo de três décadas, colaborou com artistas e produtores de vanguarda, mantendo sempre a assinatura emocional que o distingue. É, antes de tudo, um contador de sentimentos, um viajante do som que transforma a solidão em arte e o silêncio em música.
Quarta-feira atuou em Lisboa e esta quinta-feira à noite apresenta-se ao vivo no Auditório da Escola Artística do Conservatório de Música de Coimbra. Na sexta-feira ocupa a sala Mouco, no Porto, e fecha a digressão nacional no Lustre, em Braga, saltando depois para a Turquia.
Tem ainda três concertos em Portugal: o que o motiva a continuar a tocar por cá?
Portugal foi um dos primeiros países a descobrir a minha música fora da Suécia. Venho cá tocar desde 1997 e houve uma reação imediata com o público português. Uma coisa também curiosa é que durante dez ou 15 anos, quando eu vinha cá tocar, via como o meu público estava a envelhecer, tal como eu. Mas nos últimos cinco anos comecei a perceber que tenho uma geração mais nova que me acompanha. Eu venho de uma parte da Suécia mais atlântica, e esse lado mais agreste faz com que tenha uma ligação imediata com Portugal. Além da comida e do vinho, claro. Portugal tem a paisagem mais bonita da Europa.
O seu som é uma mistura singular de melancolia, jazz e eletrónica. Como vê a sua evolução musical?
A minha forma de escrever canções não mudou muito. Continuo a ter os meus desgostos e as mesmas torturas que sempre me perseguiram. O que mudou foi a forma de produzir os temas: nos anos 1990 trabalhávamos muito com samples e DJ; depois começámos a ser muito eletrónicos nos anos 2000 e agora houve um regresso à forma mais humana de fazer a música. Há um lado mais jazz e de improvisação. Eu ouço muita música, especialmente clássica., e essa quase dramaturgia é uma coisa que me interessa cada vez mais.
Muitos fãs descrevem a sua música como cinematográfica. Visualiza histórias ou imagens quando compõe?
Nem por isso. Fico muito focado na história que estou a contar e como vou entregar a letra. Muitas vezes posso ter uma ideia de como fazer um vídeo ou uma curta-metragem e adoraria trabalhar com realizadores, mas não tenho tempo. Tenho de me focar no meu trabalho principal.
Como transporta a qualidade íntima e atmosférica dos discos para o palco?
A forma que tenho de o fazer é sendo eu mesmo e tentar ser o mais generoso possível em cima de um palco. Quero que a audiência entenda que eu os estou a ver, tal como eles me estão a ver a mim. Nos dias que correm, se uma pessoa escolhe vir a um concerto nosso, essa pessoa tem de ser muito interessante. Logo, esta é uma pessoa que eu quero conhecer e com quem quero estar no fim do concerto. Eu e os meus músicos tentamos fazer isso ao máximo. E penso que isso traz uma qualidade de intimidade nas relações que estabelecemos.
Portugal tem tradição de música emotiva, como o fado. Sente alguma conexão com o seu próprio sentido de melancolia?
Para mim, a melancolia tem um sentido universal. Mas que se manifesta de uma forma mais premente em algumas culturas, como na portuguesa. Apesar de reconhecer isso, não conheço suficientemente bem a música portuguesa. Mas ainda vou a tempo...
Olhando para trás, que álbum ou música são ainda especiais para si?
Bem, eu acho que qualquer músico tem um especial apreço pelo seu álbum de estreia. Para mim, "The girl I love is gone" é uma música muito importante. Assim como a "Far away". Também do último álbum ["Backstage"], a música "How long do you think we're gonna last?", pela forma como foi criada com os meus músicos.
Olhando para a frente, o que aí vem?
Há duas semanas gravei com o ator americano Harry Goaz, que era o delegado de polícia Andy Brennan na série "Twin Peaks", de David Lynch. Comecei a falar com ele no Instagram e depois estivemos juntos em Paris. Passamos muitas horas a passear no Le Marais, e decidimos trabalhar juntos. Ele lê um poema numa música minha e é incrível.
As suas letras vêm de experiências pessoais, da observação ou da imaginação?
As minhas letras vêm dos meus desgostos amorosos, que nunca superei. Era uma pessoa muito solitária. Mas desde que conheci a minha agora mulher e tivemos os nossos filhos, acho que as minhas letras já não são tão depressivas, são apenas frágeis. Há mais na vida do que o meu mundo, e isso é uma coisa ótima. Eu era uma pessoa muito egoísta nos anos 1990.
O mundo mudou muito desde 1996. Como é que essa mudança o afetou?
Eu não falo sobre política, nunca fui o tipo da propaganda. A maioria das pessoas sabe que sou socialista e que me pode confiar os seus sentimentos. A indústria musical está muito diferente, antes vendíamos CD. Agora é tudo muito abstrato, com esta coisa das plataformas e do streaming, por isso tento sempre fazer o máximo de concertos para saber se a minha música funciona ou não.
Preparou alguma surpresa para estes concertos?
Vou tocar quatro ou cinco temas do álbum novo, mas também vou passar pelos outros discos. Vai ser uma espécie de "best of". Também haverá surpresas... daquelas que chegam pela intimidade.

