
"Quando se tenta impor a cultura às massas, resvala-se para o totalitarismo"
Premiado em vários países, João Cerqueira, autor do romance "Perestroika", aponta "a diminuição de exigência nas escolas" como um dos principais responsáveis pelos baixos índices de leitura em Portugal. Mas não poupa também críticas ao meio cultural, que acusa de promover "ativismo ideológico".
Na segunda parte da entrevista ao "Jornal de Notícias", João Cerqueira elenca o que considera serem as principais diferenças entre o meio editorial português e o anglo-saxónica,, onde tem publicado regularmente, e adianta que os seus livros "rejeitados pelas principais editoras portuguesas ganharam prémios internacionais".
Crítico do que diz ser "o moderninho inofensivo" da literatura. portuguesa contemporânea, advoga o humor e a sátira como elementos fundamentais da sua escrita.
Tem lutado bastante pela internacionalização dos seus livros e já obteve até várias distinções. Que balanço faz desses esforços num mercado tão competitivo como a literatura internacional?
Se não tivesse arriscado a primeira tradução para inglês, tentado a publicação e, depois, os prémios internacionais, continuaria a ser um escritor desconhecido. Lá fora, já tenho leitores em várias partes do mundo e editoras recetivas ao envio do próximo manuscrito.
Por ser português, crê que associam desde logo os seus livros a um determinado perfil de escrita que depois não corresponde de todo à realidade?
Em Portugal, espera-se que um escritor que aborde temas políticos siga o catecismo: diga que o Capitalismo é mau, fale da exploração dos trabalhadores, defenda que há alternativas, e por aí fora. Um moderninho inofensivo. Mas quando alguém afirma que qualquer pessoa que tenha um telemóvel ou umas Nike é um elo do sistema capitalista e nada mais deseja senão uma bela vida burguesa - logo, um hipócrita quando o critica -, está o caldo entornado. Ninguém gosta de ver a sua face deformada no espelho.
O que o meio editorial português tem a aprender com os principais mercados do livro?
Os meus livros rejeitados pelas principais editoras portuguesas ganharam prémios internacionais e têm excelentes críticas em várias revistas e na Amazon. Até na Austrália tenho críticas e um terceiro lugar num concurso de contos. Há, claramente, uma forma muito diferente de entender o que é a literatura em Portugal e no mundo anglo-saxónico. Por exemplo, "Perestroika" teve três propostas para publicação nos EUA, uma em Espanha e está na fase final de aprovação pela Arkbound Foundation, uma fundação inglesa que promove a literatura.
Segundo os dados mais recentes, 60% da população não lê sequer um livro por ano. O que nos dizem esses números?
A mim, dizem-me que a diminuição da exigência nas escolas, a abolição dos exames, a substituição dos clássicos da literatura por textos de ativismo ideológico, o tal nivelamento por baixo que o MEC tem promovido, está a dar um péssimo resultado.
Crê que a literatura está de algum modo ameaçada pela oferta de entretenimento cada vez mais alargada e apelativa?
Infelizmente, está. Ler exige esforço e isso vai contra a natureza humana.
Que desafios é que essas tendências acarretam para os criadores literários: acha que temos mais livros apenas virados para o entretenimento e menos interessados na reflexão?
Numa sociedade liberal como eu defendo, os autores e as editoras têm a liberdade de escrever e publicar o que entenderem. E os leitores também são livres de fazer as suas escolhas. Quando se tenta impor a cultura às massas, resvalamos para o totalitarismo ou para a lavagem ao cérebro, como sucede em Portugal.
Contudo, é por isso que alguns críticos americanos dizem que as mais inovadoras obras de literatura atual estão a ser publicadas pelas editoras indie. E em Portugal já está a acontecer o mesmo, apesar dos críticos não se terem dado conta.
Por falar em entretenimento e reflexão. Podemos inferir que atribui a ambos o mesmo capital de importância?
Um livro deve sempre dar prazer ao leitor. Deve entretê-lo, fazê-lo passar bons momentos, e, se possível, rir. Se isso não acontecer, o livro falhou o seu propósito. Mas se, além do prazer, trouxer conhecimento ao leitor e contribuir para o elevar intelectualmente, então será uma obra-prima.
O humor, mais concretamente a sátira, é um aliado importante dos seus livros. O que é que, em seu entender, ele traz à sua escrita?
Como referi noutras entrevistas, o humor é uma arma poderosa contra a estupidez. Os romanos diziam que a rir se castigam os costumes. E Voltaire pedia a Deus para tornar os seus inimigos ridículos. A sátira faz parte da nossa literatura. Gil Vicente, Camões, Bocage, Camilo, Eça e Ramalho Ortigão, Almada Negreiros, puseram a ridículo a sociedade em que viveram. Contudo, no presente a sátira está fora de moda. Eu uso a sátira, o humor e o non-sense para tornar leves temas complexos. A maioria das críticas que recebi na Amazon destaca isso mesmo: os leitores não esperavam que o livro os fizesse rir.
Considera que este elemento está subrepresentado na literatura portuguesa atual. Porque é que acha que isso acontece?
Na minha opinião, o humor desapareceu da literatura portuguesa depois do Neorrealismo. Ficou tudo negro e trágico. Os seus herdeiros, os escritores atuais, passaram do negro para o cinzento. É claro que existe humor em obras como "O manual dos inquisidores", de Lobo Antunes, e "Fantasia para dois coronéis e uma piscina", de Mário de Carvalho. Mas não é a regra. O livro mais cómico e delirante que li nos últimos tempos foi Festa no covil do mexicano Juan Pablo Villalobos. Se tivesse sido escrito em português, iria ter dificuldades em ser publicado.
Ser um "enfant térrible das letras portuguesas", como lhe chamou Carlos Fiolhais, traz-lhe mais dissabores ou vantagens?
Ao Professor Carlos Fiolhais tenho de agradecer a divulgação da minha obra e o convite que me fez para apresentar 25 de Abril, corte e costura na Biblioteca Rómulo da Universidade de Coimbra. Suponho que a expressão quer dizer que toco em temas politicamente incorretos. Ora isso tem um preço. A marginalização nos media, a censura de entrevistas de que as diretoras não gostaram, insultos nas redes sociais, mas, também, um crescente número de leitores que me envia mensagens elogiosas por apenas estar interessado na literatura e não ficar indiferente ao sucesso de um português no estrangeiro.
