
Interpretar Putin foi um desafio para Jude Law devido à sua famosa expressão impassível
AFP
O ator britânico Jude Law revelou, neste domingo, que se tornou um observador "obsessivo" de Vladimir Putin, enquanto se preparava para o papel como líder russo no seu novo filme "O Feiticeiro do Kremlin", que estreia no Festival de Cinema de Veneza.
Law, 52 anos, tem uma estranha semelhança com Putin, imitando a sua expressão e estilo de andar caraterístico, no filme do realizador francês Olivier Assayas, que traça a ascensão ao poder do antigo oficial dos serviços secretos. "Há muitas imagens que se podem ver e, pessoalmente, quando começo a entrar nessa "toca do coelho", torna-se um pouco obsessivo", disse numa conferência de imprensa.
O retrato de Putin foi um desafio devido à sua famosa expressão impassível. "O lado complicado para mim é que, na face pública (de Putin), vemos muito, muito pouco", acrescentou Law. "Há esta máscara".
Law atribuiu a sua semelhança com Vladimir Putin no ecrã a "uma equipa de maquilhagem e cabelo fantástica", acrescentando que não teme repercussões pelo papel desempenhado. O realizador Olivier Assayas insistiu que queria que Law "se apropriasse da personagem" e se tornasse "um recipiente para o que ele representa".
O filme, que tem uma duração de duas horas e meia, é um olhar exaustivo sobre a carreira de Putin, um líder que amordaça os seus opositores políticos, intimida os oligarcas e enriquece o seu círculo de amigos. O filme é contado através dos olhos de um conselheiro político fictício, Vadim Baranov (Paul Dano), e é baseado num livro homónimo de sucesso do autor italiano Giuliano da Empoli.
Assayas afirmou que o filme é, antes de mais, uma história sobre o autoritarismo, sendo a transição da Rússia de uma democracia caótica no final dos anos 90 para a autocracia moderna de Putin um aviso para o Ocidente. "Fizemos um filme sobre o que a política se tornou e a situação assustadora e perigosa em que sentimos que estamos", explicou.

Regresso de Jarmusch
"O Feiticeiro do Kremlin" é um dos 21 filmes que concorrem ao prémio máximo do Festival de Cinema de Veneza, uma plataforma fundamental para lançamentos internacionais, que decorre até ao próximo sábado.
Outros destaques no domingo incluem a estreia de "Father Mother Sister Brother", o mais recente filme do realizador americano independente Jim Jarmusch, com um elenco recheado de estrelas, que inclui Cate Blanchett, Adam Driver e o cantor americano Tom Waits.
O realizador de "Broken Flowers" chamou-lhe "uma espécie de filme de anti-ação", apresentando três famílias disfuncionais no interior rural do estado de Nova Iorque, em Dublin e em Paris.
Jarmusch disse aos jornalistas que estava "desiludido" com o facto de o principal distribuidor do filme, a plataforma de streaming Mubi, ter aceitado o investimento de um fundo de capital de risco com ligações ao exército israelita.

"A minha relação com a Mubi começou muito antes disso e foi fantástico trabalhar com eles neste filme", disse Jarmusch aos jornalistas. "Fiquei, naturalmente, desiludido e bastante desconcertado com esta relação."
O cerco de Israel a Gaza tem sido um dos principais pontos de discussão em Veneza, com uma carta aberta a denunciar o governo israelita e a apelar ao festival para que se pronuncie de forma mais forte, reunindo milhares de assinaturas.
Vários milhares de manifestantes anti-guerra, que gritavam "Parem o genocídio!", marcharam até à entrada do festival no sábado, numa manifestação convocada por grupos políticos de esquerda do nordeste de Itália.
Na quarta-feira, estreia o filme "The Voice of Hind Rajab", sobre o assassinato de uma menina palestiniana de seis anos em Gaza pelas forças israelitas no ano passado.
Realizado pelo franco-tunisino Kaouther Ben Hania, a produção do filme atraiu o apoio de pesos pesados de Hollywood, como Brad Pitt, Jonathan Glazer e Joaquin Phoenix, que se juntaram como produtores executivos.
Gaza
Outros filmes em competição que marcaram presença em Veneza até agora incluem "Bugonia", de Yorgos Lanthimos, um filme satírico e sombrio, com a vencedora de um Oscar Emma Stone, sobre dois inadaptados obcecados por conspirações que raptam o diretor de uma empresa farmacêutica.
Na noite de abertura, "La Grazia", do italiano Paolo Sorrentino, sobre um presidente italiano que se debate com a indecisão sobre a eutanásia, foi aplaudido, tal como o sumptuoso documentário a preto e branco do compatriota Gianfranco Rosi sobre Nápoles.
No sábado, o realizador mexicano Guillermo del Toro ("A Forma da Água") apresentou uma nova adaptação de grande orçamento de "Frankenstein", com Oscar Isaac no papel de Victor Frankenstein e Jacob Elordi como a sua criação.
