
Museu Júlio Dinis, em Ovar
Arquivo/Global Imagens
Falecido há 150 anos, Júlio Dinis ainda é lido, mas a falsa ideia de superficialidade penaliza a sua avaliação crítica.
A morte precoce, aos 31 anos, não impediu uma obra significativa
Eduardo Lourenço descobriu a paixão pela leitura, aos oito anos, nos romances de Júlio Dinis, trazidos pelo pai numa mala de viagem que ganhou contornos míticos no imaginário do pensador; Agustina Bessa-Luís, sempre modesta nos elogios alheios, reconheceu certa vez que o gosto pelo romance "A morgadinha dos canaviais", lido na meninice, a levou a criar uma adaptação em BD.
Lido por (quase) todos durante gerações a fio, os romances de Júlio Dinis continuam a ser - um século e meio decorrido sobre a morte do autor - absolutamente modelares na forma como "entrecruzam diferentes tempos históricos e diferentes momentos estéticos", como assinala a professora catedrática Helena Carvalhão Buescu (ler artigo na página seguinte), autora de uma conferência sobre o romancista realizada na Feira do Livro do Porto.
Outras especialistas, como Isabel Pires de Lima, têm defendido que a sua conceção de romance foi "inquestionavelmente moderna", avançando com pressupostos da ficção realista, muito antes de Eça de Queirós.
A maldade de Eça
Com livros como "Uma família inglesa" ou "As pupilas do senhor reitor", entre outros, tão firmemente inscritos na história da literatura portuguesa, e não apenas a do século XIX, como se explica, afinal, que, segundo Helena Buescu, Dinis continue a ser "um autor tão mal lido entre nós"?
A resposta, a existir, nunca será unívoca, mas não restam dúvidas de que o célebre "elogio" (carregado de veneno) de Eça, segundo o qual Júlio Dinis, "viveu de leve, escreveu de leve, morreu de leve", ajudou a associar uma certa superficialidade aos seus livros.
"É um autor mais sério do que muitos supõem. Associam-no apenas aos currículos escolares, mas ele foi um grande construtor narrativo, capaz de criar uma arquitetura ficcional de qualidade, sobretudo para quem morreu tão jovem", assinala o escritor Mário Cláudio. Ainda segundo o autor de "Embora eu seja um velho errante", o contributo dinisiano passou também por trazer para as letras portuguesas, então sob a égide francesa, a influência inglesa (com os romances de Jane Austen e Charles Dickens à cabeça), mas não só. "Pela primeira vez na nossa literatura, uma cidade converteu-se em personagem de um livro, como aconteceu com o Porto em "Uma família inglesa"", adiantou.
Ilusão da simplicidade
À exceção dos óbvios Camilo ou Eça, mais nenhum autor do século XIX tem os seus livros reeditados com tanta frequência como Júlio Dinis, o que pode ser explicado pela inclusão nos currículos escolares. Todavia, para o editor Manuel S. Fonseca, da Guerra e Paz, esse interesse deve-se sobretudo à legibilidade das histórias que escreveu. "Os seus livros são mais complexos do que querem fazer crer. A complexidade não reside tanto na linguagem ou na estrutura, mas nos temas e nas questões que levanta", defende.
Com três livros publicados nos últimos quatro anos na coleção de clássicos, e planos para reeditar em breve "Os fidalgos da casa mourisca", Fonseca garante que as obras "têm procura": "Vão-se vendendo sempre, ainda que num ritmo mais lento do que as novidades".
