Depois da presença na sessão de abertura do Estoril Film Festival, Juliette Binoche regressou ao Centro de Congressos do Estoril, para autografar o catálogo da sua exposição e para assistir ao filme "Juliette Binoche dans les yeux".
Durante um ano, Marion Stalens, irmã de Juliette, acompanhou a actriz no seu trabalho e também em vários dos seus outros projectos artísticos, nomeadamente a pintura e a dança. Um retrato emotivo, onde a realizadora, presente ao lado da actriz na sessão que se seguiu de conversa com o público, salientou sobretudo o enorme "desejo de vida" de Juliette Binoche.
A actriz, por seu lado, classificou como um "filme de amor" o retrato que dela pintou a irmã. "É como ver através do olhar dela. Como ela fez com que a dança se transformasse em pintura e como as pinturas parecessem uma dança. Nós somos muito diferentes, mas sinto que estamos cada vez mais perto uma da outra. É uma sensação muito quente".
O clima emocional que se vivia na sala transmitiu-se aos espectadores, alguns dos quais confessaram quase ter chorado ao ver o filme. E foi uma Juliette Binoche diferente, ali tão perto, longe do glamour com que muitas vezes se tem de "mascarar", tão aberta e sensível, que comunicou durante mais de 40 minutos com o público que manteve a sala cheia até ao fim.
"A idade é algo com que nós todos temos de lidar. Há alturas da vida em que não é fácil", disse, ao ser confrontada com a tela, ela que completou 45 anos. "Mas quando estou a representar, nunca penso nisso. Sou um ser humano. Quero lá saber da imagem. O que interessa é o que tenho para dar, tocar o coração das pessoas, a sua sensibilidade. Uma ruga não vai mudar isso".
O encontro com o público do festival tornou-se uma verdadeira e inesperada lição de vida e de cinema, vinda da parte de uma actriz que decerto todos os que se encontravam na sala aprenderam a apreciar ainda mais. "A magia da representação, ou de qualquer arte, é tentar fazer alguma coisa que não faz parte daquilo que conhecemos", afirmou. "Os actores são filósofos, com o seu corpo. Não é só dizer os diálogos. A escolha se somos capazes ou não de fazer alguma coisa é do nosso corpo, não é uma escolha intelectual. É como quando uma fotografia começa a revelar-se. O corpo revela o que temos dentro de nós", completou.
Quando uma jovem lhe perguntou o que diria a quem está a começar algo, mas ouve todos os dias que é difícil, Juliette Binoche aconselhou "seguir o que a vida nos dá, não nos devemos fixar apenas numa ideia, se a vida nos der outra, devemos segui-la".
Uma outra jovem mostrou-se interessada em saber se a paixão lhe poderia toldar a razão. "Não se pode repelir a paixão por algo", afirmou Binoche.
Uma mãe quis saber o que fazer com a filha de 13 anos, que só pensa em ser actriz. "Confie nela. Leve-a ao teatro. Deixe-a representar o que ela quer. Leve-a a ver a vida", respondeu Juliette Binoche. "Ser actor tem a ver com a vida, não é sobre como ser famoso. Tem a ver com explorar o que é um ser humano".
