
Em todos os poemas breves pulsa o mesmo desejo de conseguir decifrar mistérios através da economia verbal
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Irónicos, bravios. ingénuos ou sentimentais, mas sempre urgentes. São assim os poemas breves, forma de arte sedutora que aspira à pretensão (ou utopia?) de condensar o Mundo no menor número possível de versos.
Podem ser setas apontadas ao coração. Manuais de instruções para tatearmos pelo Mundo sem nos estatelarmos ao virar da primeira esquina. Mas também tratados de fúria com que vituperamos a realidade por termos sido feitos à sua imagem: imperfeitos.
Em todos pulsa o mesmo desejo de conseguirem decifrar os mistérios através da economia verbal e de um lirismo sem freios.
A simplicidade aparente que revelam é, muitas vezes, isso mesmo: aparente. Não só porque a sua estrutura concisa também pode obedecer a regras métricas severas, mas também pelo facto de essa condensação ser apenas sinal de uma depuração extrema que levou o poeta a cortar tudo o que era supérfluo até que nada mais restasse do poema a não ser a sua parte mais suculenta. Um filet mignon literário, portanto.
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Os haicais (ou haikus) são a primeira forma que nos ocorre quando pensamos em poemas marcados pela brevidade. Desde a sua criação, há quase cinco séculos no Japão, tentaram exprimir de forma original e profunda a relação entre o homem e a natureza, numa procura pela harmonia e beleza. Mas, para lá de toda a procura do equilíbrio que revelam, os haicais não dispensam frequentemente o humor ou, pelo menos, a espirituosidade. Os muitos milhares destes micropoemas que Kobayashi Issa escreveu ao longo da vida são disso um fecundo exemplo:
A minha casa
um famoso local de férias
para os mosquitos
Leitor devoto da poesia oriental há muitos anos, Jorge Sousa Braga é também um cultor de poemas breves. Como já escreveu o crítico literário Pedro Mexia, o poeta, "ao jeito dos grandes mestres asiáticos, enumera e combina estorninhos e nuvens, cisnes e macieiras, tentando que a transparência mas também a densidade misteriosa da natureza revelem a sua especial sabedoria".
No seu mais recente livro de poesia, "Matéria escura", encontramos vários poemas breves. Curiosamente, aquele que se revela mais próximo da sabedoria nipónica nem sequer é o mais curto, o que não invalida que não mereça ser destacado:
Como matar um peixe
Há várias formas de matar um peixe
deixá-lo a estrebuchar no balde
dar-lhe uma pancada na cabeça
decapitá-lo. E há o ikejime
uma técnica japonesa que consiste
em passar um fio de metal
perto do olho do peixe
Os japoneses asseguram que
é incomparável o sabor do robalo
quando morto por este método
Por muito populares que sejam os haicais, isso não significa que sejam a única forma poética breve. Aliás, no que toca ao laconismo, o poetrix pede-lhe meças. Criado pelo poeta brasileiro Goulart Gomes em 1999, o poetrix distingue-se do seu congénere japonês por várias razões: tem um título, não está subordinado ao presente nem aos temas da natureza e não tem uma estrutura métrica tão rígida (pode ter até 30 sílabas, enquanto o haicai não vai além das 17).
Um dos grandes entusiastas deste género é o poeta Anthero Monteiro. "Esta outra loucura" (Corpo Editora, já na terceira edição) é o primeiro livro de poetrix publicado em Portugal e, segundo o seu criador, Goulart Gomes, não é apenas uma obra "para ler, mas antes para nela deixar-se cair".
Nas suas páginas encontramos a dada altura uma insólita declaração de amor sob o signo... rodoviário:
Semáforo
atravesso a vida no vermelho
mas avanço sem medo
graças ao verde dos teus olhos
Medir a dimensão dos poetas pelo seu grau de reconhecimento (público) é um dos mais frequentes dislates do meio literário português. Atente-se na poesia de Humberto Rocha que, mau grado a ausência do critério acima mencionado, pertence sem dúvida à estirpe das grandes. Uma evidência que Manuel António Pina já tinha apontado em 1997 no prefácio do livro "Poemas nocturnos":
"À crítica, se crítica houvesse, caberia provavelmente observar a inesperada, e às vezes desamparada, força desta poesia, o seu pendor ora melancólico ora visionário e apocalíptico, esmiuçar as influências e as memórias culturais 'fria(s) e presente(s) como um membro decepado', a felicidade com que, nela, se articulam os diferentes e contraditórios registos linguísticos ou o modo como ela faz uma espécie de feroz e desigual 'ponto da situação' dos dias por assim dizer post-modernos que correm. Mas o mais certo é que, e por tudo o que ficou dito, 'ao longe, os mestres obscuros (adormeçam) no momento do julgamento'".
É precisamente no livro em questão que encontramos este "Interlúdio", retrato certeiro (ainda hoje e sempre) de um país atado aos seus fantasmas:
As coisas não andam fáceis
neste reino
onde realmente nada pode acontecer
além de se morrer em dias escolhidos
para não incomodar os vizinhos
É no equilíbrio difícil entre a vontade de aceder ao sentido real da existência e a graciosidade com que se formula essa visão (sem soar excessivamente catedrático, de preferência) que se situam muitos dos melhores poemas curtos.
Nesse particular, a poesia de Renato Filipe Cardoso é exemplar, devido à forma como incorpora o quotidiano aparentemente comum num imaginário mais vasto, onde também cabe o sonho e a efabulação.
No seu mais recente livro, "Ministério da solidão", habitam várias pequenas pérolas poéticas, como esta:
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a garantia expira logo à nascença
a assistência técnica está pela hora da morte
