
Autor de "Três bichos te esperam, quatro te comerão" lamenta que "o amor e a beleza estejam a ser ridicularizados"
Foto: Miguel Soares
Na semana em que um congresso internacional assinala os seus 30 anos de vida literária, Manuel Andrade passa em revista o seu percurso numa longa entrevista ao JN. "Talvez por nunca me terem ligado nenhum na crítica literária portuguesa, o não-marketing se tenha transformado no meu marketing", afirma.
O tempo sobre o qual Manuel Andrade tanto tem escrito em romances aplaudidos por figuras como Urbano Tavares, Pedro Barroso ou Rui Reininho indica a chegada a uma marca - 30 anos de vida literária - de que o próprio já nem se lembrava, não fosse a organização de um congresso internacional.
Neste sábado, a Biblioteca Municipal de Santo Tirso vai receber ao longo do dia uma dezena de académicos portugueses, brasileiros e italianos. No mesmo dia, às 21.30 horas, na Fábrica de Santo Thyrso, vai ser lançado o livro "A voz que fica: a paixão de escrever o Mundo", reunindo ensaios de vários especialistas.Surpreendido com o congresso, de que só tomou conhecimento numa fase avançada da sua organização, o escritor e editor confessa que chegou a ter o receio de que pudesse vir a sentir-se "como um macaco triste a ser observado no zoológico".
Acabou por colocar de lado os pruridos, quando verificou que todos os académicos acederam "ao outro lado do espelho dos meus livros", fazendo-o "ver e pensar os leitores que estão do lado de lá".
Está a assinalar 30 anos de vida literária. Que sentimentos se apoderam de si quando olha para o caminho já percorrido?
São sentimentos agridoces: a escrita sempre foi, para mim, madrasta e madrinha. Madrasta pelo tempo de vida que me tomou, esse em que me fechou em casa a escrever e a rever como um obcecado, vezes sem conta, em vez de viajar, de namorar ou de não fazer puto. Além disso, durante duas décadas não vi reconhecido o esforço desse trabalho parecido com o de um ourives ensimesmado, mas continuei, ainda assim, pois o que mais me seduzira sempre fora realmente a escrita pela escrita, da sua conceção (habitualmente não demasiado aprofundada) até ao ato mais livre e catártico de passar para o papel. Tudo o resto me interessava pouco ou quase nada.
Por outro lado, foi madrinha porque me encheu a vida de ilusão e de fantasia, dando-me asas de liberdade que me podem levantar deste pântano do viver quotidiano, sempre que me apeteça. Ainda este ano, passando a pior fase da minha vida, foi ela o meu abrigo e simultaneamente a minha fuga para um maravilhoso mundo romanesco que criei, onde a existência era claramente mais encantatória e risonha do que na porra da vida concreta, essa em que sofria como um cão.
Por um lado, resmungo comigo quando ando a escrever um livro e a matar a cabeça com as personagens que me habitam e a toutiçar no desenvolvimento do enredo ou na expressão mais perfeita para a ideia, mas quando termino esse romance, ao fim de uns meses sinto-me uma inutilidade perfeita, um palerma que anda pela vida apenas para ver passar os comboios e para tentar ganhar a vidinha. E, nessas alturas, é tão mau esse tempo de pousio quanto o de uma abstinência sexual por falta de desejo.
O que o aproxima (e distancia) hoje de Manuel de Varziela, o heterónimo que utilizou para os primeiros livros?
Os Varzielas são um ramo camponês da minha família. Na aldeia deles, na minha meninez, aprendi um viver mais natural e um linguajar arcaico muito próprio, ouvindo histórias fabulosas - sim, quase sempre envolvendo animais - de ébrios contadores que se evadiam do trabalho do campo e das maleitas através desses contares fantasiosos. Eram cosmos alternativos e absolutamente encantatórios que aqueles homens de barba rija e de sonho mole me narravam, ao fim da tarde, quando regressavam da lavoura, e também nas noites de verão, quando bebiam o sonho no vinho mais carrascão. Parece que ainda os estou a ver... Nessa altura editei pela Campo das Letras os "Contos do Varziela", para logo a seguir entrar, em nome próprio, na escrita de romances mais existencialistas que arrancava mais de dentro do que de fora, mais do que sentia e pensava do que daquilo que podia observar ou escutar.
A data vai ser assinalada com um congresso internacional no próximo sábado em Santo Tirso, com intervenções de professores catedráticos de diferentes paragens. Como é que alguém que sempre afirmou preferir o recato à exposição, vê estes olhares tão variados (até do ponto de vista geográfico) sobre a sua escrita?
A iniciativa foi da Professora Teresa Adão, das Edições Esgotadas, que me sentiu a ir abaixo de todo com o que se estava a passar na minha vida e que, porque é minha amiga e leitora muito antiga e atenta, me quis oferecer um momento de alegria neste caos que têm sido os meus dias. Quando dei por ela já não havia como recuar ou recusar.
No princípio senti-me mal, confesso, julgando que no congresso me fosse sentir como um macaco triste a ser observado no zoológico, mas depois, quando li os textos desses académicos tão referenciados, tudo ganhou uma nova lógica e razão de ser: eles leram-me a fundo e sem contemplações, deixando-me em pelote, mas maravilhado ao verificar o outro lado do espelho dos meus livros, o que eles fazem ver e pensar os leitores que estão do lado de lá, neste caso alguns dos mais esclarecidos e com treinada capacidade de análise. Agora vivo com bastante curiosidade aguardando pelo dia 22 para escutar as suas dissecações (sim, isso mesmo) duma obra que nunca fiz por perceber muito bem, jorrando-me ela antes muito solta e sem grandes barragens teóricas ou correntes literárias que a condicionassem.
O que lhe sugere o facto de muitas das comunicações serem de académicos estrangeiros?
Neste congresso a maior parte das comunicações será de académicos portugueses, havendo também italianos e brasileiros, dando, contudo, alguns deles aulas e palestras em várias faculdades do mundo. O que há de comum entre todos é que, tirando a coordenadora destas comunicações - a Professora Luísa Antunes Paolinelli -, com quem falei apenas uma vez, a nenhum outro conheço pessoalmente nem com eles estabeleci, entretanto, qualquer contacto. Leio muitos deles há algum tempo, mas nunca interagimos. Nesse sentido, todos são para mim estrangeiros literários, e isso deixa-me mais confortável - nesse "país de nenhures" -, por tornar a relação mais genuína e isenta. É a literatura pela literatura, a fazer-se valer ou desvaler. Acho que nestas coisas da literatura, como da arte, não há melhor médico para nos despir e ir ver como está a nossa próstata, do que aquele que não conhecemos de lado algum.
Tenciona estar na primeira fila a assistir às comunicações ou devido ao tal pudor, prefere não o fazer?
É tudo realizado na minha terra e por isso tenho de estar presente para abraçar os leitores e os amigos que tenham a pachorra de lá ir. Mas se puder ficar na última fila, ficarei, isso é certo (risos). A essas partes do pudor não consegui, ainda, desalojar de mim, nem sequer fazer-lhes uma barrela.
Nesse mesmo dia, vai ser publicado também (mais) um livro sobre a sua obra, "A paixão de escrever o Mundo". De que forma essa missão ampla de escrever o Mundo é, antes de mais, um desígnio mais pessoal, da esfera do íntimo?
Belíssima pergunta! O título, obviamente, não é meu, mas terá eventualmente a ver com a tal obra existencialista que fui escrevendo. Em boa verdade, eu acho que me pretendo expressar a mim mesmo enquanto escrevo de forma catártica e não muito constrangida, buscando o mais natural em mim e o mais fundo da minha psique, para depois tentar chegar à psique humana mais lata, entendendo-a e expressando-a também. Estará lá sempre o Pathos da solidão, do desencontro, do desamor, do sofrimento pelo tempo que não conseguimos segurar com as mãos no mesmo lugar, e creio que isso é comum, em maior ou menor grau, a todo o ser humano que moureja sobre a terra. Da mesma forma estarão lá sempre o meu Eros e Tânatos, os mesmos que guiam as alegrias e as tristezas de todo e qualquer homem, ou não fossemos todos carne e osso mandadinhos por uma cabeça que tudo decide.
Mas isto sou eu a tentar responder à sua pergunta... Porque eu escrevo porque necessito e o que necessito, sem saber explicar mais... E olhe que nunca me consegui entender muito bem.
Tem muitos leitores fiéis, mas, simultaneamente, não deixa de ser um segredo bem guardado da literatura portuguesa, uma vez que não integra por norma o cartaz habitual dos festivais literários nem faz parte do lado mais mundano do meio. Como se explica esse paradoxo?
Não o sei também explicar. O que noto e sinto é que os meus livros foram passando de boca em boca, um leitor aconselhou outro e, trinta anos passados, realmente já formam um número relativamente expressivo. Ou, dito de outra forma, talvez por nunca me terem ligado nenhum na crítica literária portuguesa, o não-marketing se tenha transformado no meu marketing: o daquele tipo que escreve livros marcantes e que nunca aparece... Sei lá eu!
Edita a maioria dos seus livros em nome próprio. É um editor que não confia nos outros editores?
Em boa verdade, tinha eu 17 e 19 anos e já a Brasília Editora editava os meus dois primeiros livros, numa altura em que eles publicavam nomes como os dos consagradíssimos José Régio e Pedro Homem de Melo, entre outros. Para mim foi uma exultação! Depois ainda fui editado pela Campo das Letras, mas quando comecei a editar romances com vendas que, não sendo excecionais, eram já muito interessantes, habituei-me a meter o dinheiro ao esquerdo, em lugar de o ir entregar a outro qualquer colega, por muito que confie neles - e confio em alguns, acredite.
Há um forte pendor existencialista dos seus livros. Para si, a escrita é uma forma de pensar ou de sentir?
Talvez seja uma forma de pensar sobre o que sinto e de tentar depois explicar-me no papel, desdobrando-me em personagens que me ajudam a estender o meu ego, espalhado-o então por vários corpos e mentes externos e imaginários: as minhas personagens têm tudo o que é meu e o meu oposto, como terão o que é de tantos outros que conheço ou, meramente, imagino.
Mas é uma escrita essencialmente catártica, martelada nas teclas do computador com as tripas de fora e sem pudor, tentando trazer para o texto todo o humano mais natural, esse que eu consiga expressar naquele instante.
Em boa verdade, não sei se é exatamente assim, nem creio ser a pessoa mais certa para explicar o que escrevo, pois desconheço-me enquanto escritor...
As várias dimensões do tempo são um dos temas recorrentes dos seus livros. É um assunto inesgotável para si?
Sim, o tempo filosófico, psicológico e cronológico, mas, fundamentalmente o tempo que leva ao envelhecer e à morte, são a minha maior obsessão e até angústia. Martiriza-me o tempo que inexoravelmente nos escapa a cada instante e que já não poderemos recuperar, o perceber o menino que era e que agora começa a ser um adulto enrugado, as primeiras pontadas estranhas que o danado do passar dos anos nos traz, já para não falar nos ossos que rangem ou nas ideias e memórias que nos escapam à medida que ele vai passando, indelével, por nós...
Angustia-me o que era e já não se recupera, como se permanentemente tivesse um relógio na cabeça a avisar-me - tic, tac, tic, tac - para o tempo que se esvai entre os meus dedos. Estarei eu a gozá-lo devidamente, como um insano ávido?! - pergunto-me, muitas vezes...
À noite, quando me vou deitar, da sala até ao meu quarto há um corredor e, todas as santas noites, quando me dirijo por esse corredor para a cama, vou a pensar: tens menos um dia para viver, Manel, menos 24 horas...
É uma quase obsessão, uma quase tristeza permanente, essa consciência de que caminho para a decrepitude e/ou para a morte.
Há quem tema pelo futuro da literatura que se recusa a ser descartável e nos instiga a pensar. Faz parte desse lote?
Faço, claramente. Hoje o ser humano perdeu profundidade e muito do que procura é apenas entretenimento, leveza, ilusão. Tudo o que é fundo, assusta, tudo o que é luz, inebria. Não é que ter alguma dose de leveza seja mau, mas quando tudo é leveza, ficamos verdadeiramente estupidificados. Às vezes parece que quanto mais básica é a coisa, mais bela se apresenta aos olhos miudinhos de quem não vê dois metros à frente do nevoeiro.
Da mesma forma, considero que o amor e a beleza estão a ser, de vez, ridicularizados, bem como os valores como a amizade ou a fraternidade - sendo assim, o que sobrará ao mundo da vida que verdadeiramente vale a pena viver?!
Terminou recentemente um livro. O que acrescenta a tudo quanto já escreveu?
Esse é o tal livro, ainda inédito, desconectado com o que seria a mais normal sucessão das minhas obras. É o regresso a histórias plantadas na minha infância, a narrativas que escutei na aldeia do meu pai aonde arribavam os tais ébrios e etéreos contadores de maravilhas, homens carregadinhos de fantasias que os corriam das unhacas grandes dos pés até aos olhos piscos que, lembro-me, carregavam estrelas cintilantes.
O que acrescenta será talvez aos leitores que sempre me diziam que não conseguiam imaginar o que seria eu escrever uma história com princípio, meio e fim. Pois bem, não tardará muitos meses, para que a possam ler.
Embora, para mim, este romance tenha sido fundamentalmente uma nave espacial que me levou para longe deste annus horribilis que atravessei. Mas estou verdadeiramente feliz com o resultado conseguido.
