
"Fevereiros", de Marcio Debellian, será exibido esta quinta-feira no Cinema Trindade, no Porto, no âmbito do ciclo "Brasil Musical", que apresenta filmes sobre artistas e cenas musicais brasileiras até 23 de maio. Realizador falou ao JN sobre Maria Bethânia, protagonista de "Fevereiros", e sobre o Carnaval como ato de resistência.
Sl3zUCwpiLg
Porquê a opção de filmar Maria Bethânia pelo prisma do Carnaval e da espiritualidade?
Decidi fazer o filme quando soube que a escola de samba Mangueira faria uma homenagem a Maria Bethânia. O enredo criado pelo carnavalesco Leandro Vieira tinha um enfoque religioso: "Maria Bethânia, a menina dos olhos de Oyá". Oyá é Iansã, o orixá dos ventos, raios e trovões. Um orixá forte e alegre. [Orixás são divindades de origem africana] Então, este fio condutor já estava presente na Mangueira. A ida a Santo Amaro da Purificação, terra natal da Bethânia, intensificou este aspecto, porque lá existem múltiplas influências religiosas - o catolicismo português, a mitologia dos índios e os saberes trazidos da África pelos negros - e Bethânia cultua todas num sincretismo muito particular e bonito.
Que novos aspetos da personalidade da cantora se revelaram nessa abordagem?
As pessoas têm dito que o filme passa uma sensação de intimidade com Bethânia, que normalmente é tida como uma pessoa reservada. Acho que a espiritualidade de cada um é algo bem particular e, em "Fevereiros", ela nos deixa participar de alguns dos seus rituais e conta o seu processo de aproximação com as divindades. A relação dela com Caetano Veloso, ateu, também surpreende o público. Além disso, Santo Amaro é onde pode-se ver Bethânia como uma menina, ligada à família, comprometida com as tradições da cidade, livre pelas ruas, participando de festas, encontrando amigos, com cerveja na mão e samba no pé.
Foi escrito que "Fevereiros", com a eleição de Bolsonaro, se tornou uma "peça de resistência" em defesa do sincretismo religioso e da diversidade cultural do Brasil. Concorda com essa perspetiva e entende que o novo governo é de facto uma ameaça a essas tradições?
"Fevereiros" traz um retrato de um Brasil que a gente reconhece, admira e achava que estava garantido. Um Brasil amoroso, festivo e onde as diferentes tradições religiosas convivem bem. Acontece que, ultimamente, vimos um alto crescimento de casos de intolerância religiosa e o próprio samba e o carnaval passaram a ser perseguidos pelo poder público. O Prefeito do Rio, que é pastor evangélico e já escreveu coisas terríveis contra as religiões de matriz africana, anunciou que vai cortar o apoio ao carnaval carioca. O Presidente da República publicou um tweet que nos envergonhou perante o mundo, desqualificando o carnaval como pornografia. Essa gente tem um projeto de poder ligado à IURD (Igreja Universal do Reino de Deus) e quer restringir a força da cultura popular, do fazer artístico e do pensamento crítico. No entanto, não podemos esquecer que o carnaval e as religiões africanas sempre estiverem ligados à resistência. No século passado, a lei permitia que uma pessoa fosse presa se fizesse samba na rua. Um ritual de candomblé tinha que ter licença prévia da polícia. Ao transitar pela história do samba, "Fevereiros" lembra-nos que muita gente batalhou para chegarmos até aqui. Estas questões não são novas no Brasil, apenas se reapresentam agora com nova face. Chegou a nossa vez de resistir e entregar este "testemunho" às gerações futuras. O samba sempre responde. Basta ver a vitória da Mangueira este ano. Um desfile histórico que contagiou todos e deu ao país uma nova bandeira, onde se lê: "índios, negros e pobres"- e um samba que diz: "É na luta que a gente se encontra!"
