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Realizadora Marie Amachoukeli fala de “A Ama de Cabo verde”, já nos cinemas.
Cléo é uma menina francesa que tem uma forte relação de afeto com a ama cabo-verdiana, Glória. Mas esta tem de voltar ao país, para cuidar dos seus próprios filhos, convidando Cléo e a mãe para um último verão juntos, na sua ilha… Este é o ponto de partida para o terno e comovente “A Ama de Cabo Verde”, realizado pela francesa de origem georgiana Marie Amachoukeli. A autora, vencedora da Caméra d’Or de Cannes para primeiras obras com o seu filme iniciático, “Party Girl”, fala-nos do seu novo filme e da sua ama portuguesa, a quem dedica o filme.
Depois do magnífico e premiado “Party Girl”, porque esperou quase dez anos para fazer um segundo filme?
“Party Girl” foi uma experiência de cinema e de vida muito intensa. Os atores eram não profissionais, pessoas que conhecíamos muito bem, de alguma forma da nossa família. Fazer aquele filme, nas condições em que o fizemos, foi extremamente difícil. E disse que nunca mais faria outro filme. Tinha a minha Caméra d’Or, não me podia queixar.
Mas continuou a trabalhar em cinema…
De facto, o meu trabalho é de argumentista. Fui argumentista e consultora em vários filmes franceses, nomeadamente para a Bénédicte Couvreur, a produtora de “A Ama de Cabo Verde”. Eu estava sempre a dizer-lhe que não queria fazer mais nenhum filme, que não percebia porque razão as pessoas quase que morriam para fazer um filme. E ela sempre a dizer-me que se um dia eu voltasse a ter vontade de fazer um filme, para ir ter com ela.
O que a fez então mudar de ideias?
Um dia liguei à minha ama de infância, a Laurinda, a quem dedico o filme, e que é portuguesa, como muitas porteiras aqui em Paris. Era a emigração daquela época, como sabe. A Laurinda foi como uma mãe para mim. A primeira coisa que me disse foi: “como é que estás, filha?” De repente tive o desejo de escrever esta história.
O que tinha acontecido à sua ama portuguesa?
Ela tinha voltado a Portugal quando eu tinha seis anos. Já tinha ganho dinheiro para voltar à sua terra e ocupar-se da família dela, dos pais e dos filhos, que estudavam no Porto. Era a altura de saber exatamente quem era aquela mulher. Porque tinha deixado o seu país, a sua família. E, finalmente, o que era esse laço que nos uniu, de que ninguém fala.
Como é que se alimentou para escrever a sua história?
Eu moro num apartamento por cima de um jardim-escola para crianças. E vejo as amas delas todos os dias. Vêm do Perú, da Tailândia, de todo o mundo. Quem são aquelas mulheres, que estão nas nossas vidas, na nossa intimidade? Decidi ir lá abaixo falar com elas. Tinham todas a mesma história. Tiveram de partir do país delas e deixar os seus próprios filhos, para virem para a Europa, cuidar dos filhos dos outros. Que sociedade de loucos, ter de deixar os nossos filhos para cuidar dos filhos de pessoas mais ricas.
Porque decidiu concentrar-se em Cabo Verde?
Antes era Portugal, hoje é Cabo Verde. Amanhã não sabemos de onde virão. “Party Girl” era a história de uma prostituta, considerada a profissão mais velha do mundo. Mas não. Ama é que é a mais velha profissão do mundo. Sempre houve mulheres para se ocuparem das crianças de que não podíamos ocupar-nos. Como é pago, é como se fosse um amor tarifado. Mas, e quando há mesmo amor? Foi a ocasião para voltar a fazer um filme.
No filme, os laços entre a criança e a sua ama são mais fortes que os laços com a própria mãe.
Em termos meramente contabilísticos, uma criança passa mais tempo com a ama do que com a mãe. O tabu começa aí. Uma mãe não aceita facilmente que outra mulher ocupe o seu lugar. O outro tabu é que essas amas têm dificuldade em dizer que amam aquelas crianças, porque elas também têm filhos, mas que já não conhecem muito bem. Há um conflito sobre o lugar do amor, como é que se define, que palavra é que podemos utilizar. É muito complexo e penso que é por isso que não se fala muito desta situação.
A decisão de partirem para Cabo Verde é uma das originalidades do filme.
No fundo, ela vai ver o que lhe escondem. A realidade económica pós-colonial, linguística e social da mulher que está mais próxima dela. Foi esse o projeto do filme.
Depois de ir lá abaixo falar com aquelas mulheres, quanto tempo demorou a escrever a história?
A escrever foram dois anos. Depois meteu-se o covid. Fiz um casting para a ama e descobri a Ilça Moreno Zego, que é de Cabo Verde, da Ilha de Santiago. Quando a conheci, gostei muito daquela mulher e decidi reescrever rapidamente toda a história, durante duas idas a Cabo Verde. Tive mesmo um curso de crioulo, que é muito difícil. Não há nenhum manual, tive de ouvir muitas canções para aprender a falar.
Como é que foi recebida em Cabo Verde?
Primeiro foi a Ilça que me ia contando coisas, quando não era possível viajar. Quando tive dinheiro para fazer o filme, fui para Cabo Verde. Fiquei na vila do Tarrafal, a história daquela prisão é trágica, como sabe. Todos os cabo-verdianos que vemos são do Tarrafal. Foram eles que me iam alimentando de histórias, que me iam dizendo o que tinha de fazer, o que devia comer. Entreguei-me a eles, com total confiança.
E a menina, como é que a escolheu?
A primeira coisa que disse à minha diretora de casting foi para não contactar nenhuma criança que já estivesse numa agência. Os pais que põem as crianças nas agências metem-me medo. Pedi-lhe para fazer um casting selvagem. Ela não gostou muito, porque lhe deu mais trabalho.
Como é que ela encontrou então a pequena Louise?
Literalmente o que aconteceu foi que ela saiu do escritório, atravessou a rua, entrou no parque em frente e viu logo a Louise. Estava a bater no irmão, viu logo que tinha uma grande energia. Fiquei muito confusa, primeira hora de casting e já tínhamos encontrado a criança. Continuámos o casting, mas apenas para ter a certeza de que era mesmo a Louise. Ela tem qualquer coisa de estranho, não posso explicar, mas parece que tem 125 anos. É muito pequena, mas quando começa a falar…
E como é que se passou com os pais?
Ao princípio estavam desconfiados, fizeram alguma pesquisa e viram que a minha produtora era uma pessoa séria. E que eu não tinha caído do céu. Os pais não eram do estilo de estarem maravilhados com o mundo do cinema, mas a Louise quis mesmo fazer o filme. Acabaram por ser maravilhosos. Quando se faz o casting de uma criança está a fazer-se também o casting dos pais. Mas não vieram às filmagens. Perceberam que era o mundo da filha, não o deles.
