
Clément Oubrerie tinha 59 anos
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Nascido a 23 de dezembro de 1966, em Paris, França, o desenhador Clément Oubrerie faleceu no passado dia 1 de março.
A notícia foi divulgada pela editora Dargaud, que destacou "a sua paleta cromática, o seu sentido de composição, a expressividade das suas personagens, o virtuosismo do seu desenho, a sua generosidade, o seu compromisso com a diversidade e a transmissão de conhecimentos que fizeram dele um pilar da banda desenhada".
Uma vez concluídos os estudos na École Supérieure d"Arts Graphiques (ESAG) da capital francesa, Oubrerie partiu para os Estados Unidos, onde começou a sua carreira de ilustrador e publicou os seus primeiros álbuns.
Depois de diversos trabalhos, 2005 foi o ano que marcou uma viragem no seu percurso, não só pela dedicação quase total à banda desenhada a partir dessa altura, mas também porque foi o ano em que o volume inaugural de "Aya de Yopougon", foi distinguido como o Melhor Primeiro Álbum no Festival de BD de Angoulême. Esta série, de contornos autobiográficos, tinha argumento de Marguerite Abouet, que a definiu como um retrato "dos anos 1970, quando a vida era boa na Costa do Marfim: havia empregos, os hospitais estavam bem equipados e a escola era obrigatória. Tive a sorte de viver essa época despreocupada, em que os jovens não tinham de escolher lados tão rapidamente e se preocupavam apenas com o dia a dia: os estudos, os pais, o amor... E é isso que vos quero contar em "Aya", uma África sem os clichés da guerra e da fome, uma África que sobrevive apesar de tudo porque, como lá dizemos, "a vida continua".

Esta experiência, que rendeu oito volumes até 2023, definiu igualmente a temática preferencial que Oubrerie seguiu: a banda desenhada de contornos biográficos que, muitas vezes em parceria com a sua esposa, Julie Birmant, o levou a recontar a vida de personalidades como Isadora Duncan, Dali, Voltaire ou Pablo Picasso. Os quatro volumes da biografia deste último, centrada na juventude do pintor, quando viveu em Montmartre, receberam diversas distinções pela forma como foi equilibrado o tom folhetinesco da obra, a narrativa na primeira pessoa, o mundo artístico descrito e o traço de Oubrerie.
Apesar da predominância da temática biográfica, na sua bibliografia contam-se também adaptações de romances como "Zazie dans le métro", de Raymond Queneau, ou "Les Royaumes du Nord", a partir do romance de Philip Pullman, que em 2015 obteve o troféu atribuído pelos jovens no Festival de Angoulême.
Em português, apenas está disponível "Nas suas mãos", que Oubrerie desenhou a partir de um argumento de Leila Slimani, uma versão romanceada da vida de Suzanne Noël, a primeira cirurgiã estética, que foi uma visionária e uma lutadora capaz de ultrapassar os obstáculos que, na época, a sociedade impunha, afirmando-se através da sua dedicação e do seu trabalho.
Para lá da BD, Clément Oubrerie foi co-fundador do estúdio Autochenille Production, com Joann Sfar e Antoine Delesvaux, que, entre outros, produziu adaptações em animação de "O Gato do Rabino" (2010), distinguido com o César para Melhor Filme de Animação, e de "Aya de Yopougon" (2013).
Tendo partido demasiado cedo, com apenas 59 anos, segundo a sua editora, Clément Oubrerie "deixa à banda desenhada um legado poético, alegre e multifacetado".

