Morreu Mario Vargas Llosa, o Nobel da Literatura que queria ser lembrado pela escrita

Mario Vargas Llosa tinha 89 anos
Foto: Anne-Christine Poujoulat/AFP
O romancista peruano-espanhol Mario Vargas Llosa morreu no domingo, aos 89 anos, em sua casa em Lima, onde vivia desde 2022, informaram os filhos nas redes sociais.
“Com profunda dor, tornamos público que o nosso pai, Mario Vargas Llosa, faleceu hoje [ontem] em Lima, rodeado pela sua família e em paz”, escreveu o filho Álvaro Vargas Llosa na sua conta da rede social X. A mensagem foi também replicada pela filha Morgana Vargas Llosa.
“A sua partida entristecerá os seus familiares, os seus amigos e os seus leitores em todo o mundo, mas esperamos que encontrem consolo, como nós, no facto de ter tido uma vida longa, múltipla e frutífera, e de deixar atrás de si uma obra que lhe sobreviverá”, lê-se na mensagem.
A família revelou ainda que as cerimónias fúnebres serão realizadas "de acordo com as suas instruções", pelo que "não haverá cerimónia pública".
"A nossa mãe, os nossos filhos e nós próprios confiamos que teremos espaço e privacidade para nos despedirmos dele em família e na companhia dos seus amigos mais próximos. Os seus desafios, como ele desejava, serão cremados", lê-se na mensagem.
O escritor peruano confessou um dia que gostaria de ser lembrado pela escrita e pelo trabalho, apesar da sua ação política e social, que transparece na obra.
Obra que revela "imagens mordazes da resistência"
Nascido em Arequipa, em 28 de março de 1936, Jorge Mario Pedro Vargas Llosa, que venceu o Prémio Nobel da Literatura em 2010, foi também político, jornalista, ensaísta e professor universitário.
Vargas Llosa é um dos nomes mais importantes das letras latino-americanas e firmou-se como um dos principais escritores da sua geração, ao ponto de alguns críticos considerarem que teve um impacto e uma audiência internacional como nenhum outro do ‘boom’ da América Latina.
Mas não foi apenas pela literatura que ficou conhecido. Desde cedo começou a envolver-se politicamente, primeiro como apoiante de Fidel Castro e da revolução cubana, depois como defensor da democracia liberal, mais conservadora, capitalista, chegando mesmo a concorrer à presidência do seu país, em 1990, por uma coligação de centro-direita, contra Alberto Fujimori.
A política é um tema constante na sua obra, que se apresenta quase como um manifesto de crítica social das hierarquias sociais e raciais.
No discurso de aceitação do Nobel, Mario Vargas Llosa reconheceu ser difícil a um escritor latino-americano evitar a política, porque os problemas são mais vastos do que isso, são sociais, cívicos e morais, razão por que “a literatura latino-americana está impregnada de preocupações políticas” que, em muitos casos, são mais preocupações morais", disse na altura o autor peruano.
“Sou basicamente um escritor e gostava de ser lembrado – se for lembrado – pela minha escrita e pelo meu trabalho. (…) Quando escrevo literatura, acho que as ideias políticas são secundárias. Acho que a literatura compreende um horizonte mais vasto da experiência humana”, afirmou.
O júri do Prémio Nobel justificou a escolha de Vargas Llosa por ser detentor de uma escrita que faz a "cartografia das estruturas do poder" e de uma obra que revela "imagens mordazes da resistência, revolta e dos fracassos do indivíduo".
O principal tema dos seus livros é a luta pela liberdade individual, na realidade opressiva do Peru.
